O acto de contar histórias tem por objectivo adiar o fim. E o fim, em última análise, é a morte. Desde Sherazade que isto é líquido. E o que se diz das histórias pode-se dizer de qualquer discurso ou diálogo. Enquanto as pancadas intermináveis do discurso sinfónico não chegam a cabo, dando por concluída a tensão que consubstancia a vida; enquanto houver mais um episódio para a novela da noite (e as novelas são legítimas herdeiras d’ As Mil e uma Noites…); enquanto houver uma palavra a acrescentar ao que o outro disse ou ao que dissemos; enquanto escutarmos, virmos e falarmos – sentimo-nos eternos, ainda vivos, aqui, agora, e está reatada a esperança da continuidade. Não é por acaso que as crianças insistem com os pais, após estes terem terminado a história da noite: «conta mais uma!».

Todo o fim (mesmo para aqueles que o consideram passagem, ou o desejam) é, portanto, infeliz: seja porque contém uma grande dose de incerteza, seja porque é o remate de uma vida triste, seja porque encerra uma vida que até agora – justamente – foi feliz, que a partir do momento da morte terá sido feliz. Verdadeiramente, ninguém gosta do fim: não há happy endings.

Que tem isto que ver com a literatura infantil? Tudo. Não se trata só de discutir se há hoje criança que acredite no «casaram-se e foram muito felizes para sempre». Nem sequer se trata de desmontar uma «ilusão perigosa». Como disse no post anterior, antes de uma deriva necessária, o essencial do problema joga-se no desenvolvimento da dimensão estética e criativa dos nossos filhos. Duas dimensões nada inocentes, no mundo tecnocrata e robótico que habitamos: a dimensão estética é nada mais nada menos que «a forma – encantada, desencantada, ou estimulante – como o ser humano sente o mundo»; a dimensão criativa é tão-só a que lhe permite encontrar soluções, sentir-se realizado nas suas aspirações e «salvo» (ponho a palavra entre aspas para lhe retirar o carácter religioso e lembrar outro sentido da mesma, o de estado saudável).


[Seguirei, a partir deste momento, as ideias contidas em O Senhor de Herbais (pp.188-192), de Maria Gabriela Llansol, autora que trabalhou toda a vida com crianças (em Portugal e na Bélgica) e com quem partilho, neste assunto, de quase tudo o que diz.]

Com efeito, quase tudo na educação das crianças concorre para a introdução nas suas vidas do «módulo de verdade e de ordem». A isto se chama muitas vezes crescer. Quando se lhes pergunta o que é que elas querem ser quando forem grandes, ou se lhes ensina a ler «o gato deu três cambalhotas antes de enfiar a posta de pescada pela goela abaixo», estamos a antecipar a «função de verdade» na qual elas entram aos sete, oito anos. Se a criança se recusa aceitar tal, psiquiatra ou casa de correcção com ela … Mas será isto crescer? É crescer, certamente, mas numa determinada direcção. Há outras. Winnicot mostrará a Maria Gabriela Llansol o que ela já sentia na sua prática educativa: que «crescer sem motivar afectivamente é matar».

Mas só Espinosa lhe ensinou como gerar esse crescer. A autora/pedagoga substituirá então os livros de fadas e duendes pela leituras dos seus próprios livros, nos quais de forma (belíssima, diga-se) expõe Espinosa. Eu não seria tão radical ou exclusivista. Há outras soluções. A própria Llansol refere «a aprendizagem da leitura» e os «ciclos festivos que pontuavam a vida do grupo» de crianças com que trabalhava. Porque o que, precisamente, Espinosa lhe ensinara é que «crescer é aprender a querer preservar a potência com que se nasce, a desejar sentir o conhecimento dessa experiência». Trata-se de «metamorfosear a pulsão de morte» através de momentos festivos, de alegria (não confundir com a excitação histérica e saltitante, de música aos berros, a que se assiste em muitas creches, escolas e aniversários de crianças). Porque como diz Espinosa na sua Ética: «a tristeza é a passagem do homem de uma perfeição maior [leia-se: potência, sensação de poder de criar] para uma menor» e «a alegria é a passagem do homem de uma perfeição menor para uma maior». Trata-se de afirmar a potência, a capacidade e a realização da mesma, com que cada criança nasce (e todas as crianças, mesmo todas, têm potencialidades insuspeitas, à espera de serem despertadas), aquilo que outrora se chamava talentos. Mas não esquecer: essa motivação para o crescimento do ser da individualidade de cada criança tem de ser acompanhada de afecto. Sem afecto a criança pode ser livre, mas não ser alegre. Ou seja: a «função de potência» só funciona se for acompanhada de carinho, de confiança, do incentivo do afecto.


No fundo, o que está aqui em questão não é o final das histórias infantis, mas o durante de cada história da criança ao longo da vida. Todos somos crianças mais ou menos feridas, mais ou menos amadas. A nossa capacidade de metamorfosear, de dar outra forma à dor, é um acto de criação, de superação da impotência. Isso talvez não se possa aprender nas histórias tristes ou alegres, mas em quem as conta e como as conta. De facto, as histórias nunca estão acabadas antes do contador as contar. Elas acabam ou prolongam-se como um vestígio indelével na vida da criança através da voz de quem conta ou do prazer de quem aprende a ler. Porque a tristeza ou a infelicidade, segundo Espinosa (com quem concordo inteiramente) só se metamorfoseia em algo positivo graças a uma alegria que a supere. Essa alegria é incumbência dos pais que contam as histórias. A alegria de saber que, enquanto criamos, somos eternos.

Para finalizar (mas é um fim temporário), convém perceber que o que se opõe aqui é a reprodução e a criação. Se a criança aprende a reproduzir, adapta-se muito bem àquilo que lhe é pedido, cresce, como diria Hegel, para o Estado; se a criança aprende a criar, cresce para a sua própria criação, para a sua realização como ser de possibilidade, de potência realizável. Consoante o que escolhermos para os nossos filhos, estaremos a criar «hierarquias temporais e sociais» ou «expansão de singularidades». E esta última hipótese é indubitavelmente muito mais perigosa e subversiva do que o acto de queimar livros!

PC