Foto: Carla Reis


O meu cão e eu tornámo-nos grandes amigos. Segue-me para toda a parte e fica realmente ofendido quando tem que ficar em casa. Se deve permanecer no carro, embora contrariado, acata a missão de aguardar por mim, e sempre deve sentir que não foi totalmente excluído dos meus projectos.

Conhece-me melhor, chego a acreditar, que a minha própria mãe. Por vezes, parece ler-me os pensamentos. Por isso, quase nunca sinto a necessidade de lhe levantar a voz e só o faço quando as nossas personalidades entram em conflito, o que, a maior parte das vezes, corresponde àquelas situações em que, para mim, o perigo é evidente, como, por exemplo, quando um dos gatos da vizinha o provoca atravessando a estrada movimentada, ou quando providencialmente um prato de comida apetitosa se lhe oferece aos sentidos na berma do passeio ou à beira de algum portão de casa, levantando-me suspeitas. Fora isso, nenhum dos dois sente a necessidade de se impor ao outro. Assim, a nossa relação, apesar de íntima, é discreta.

O meu cão não é um cão de guarda. Tampouco um cão pastor ou cão de corridas. Estou em crer que nem sequer gosta de caçar (quando persegue as pombas na praça, é com uma espécie de sorriso meio apaixonado, acabando por regressar com ar interrogativo, porque elas nunca querem brincar com ele).

Por vezes, na brincadeira, digo-lhe que ele é um cão de luxo, porque não serve para nada. Aliás, se mudei para esta casa, foi principalmente porque o regulamento do prédio anterior não permitia cães. Foi por isso que disse ao tipo do banco que me fez o empréstimo que esta era a casa do cão.

Embora, dos dois, só eu tenha a capacidade de falar, tenho a certeza de muitas coisas que ele me diz com o olhar, com o movimento da cauda ou, o que é raro, com algum ganido. Sei sempre se tem sede ou fome, se quer ir passear ou prefere dormir a sesta, se algum dos meus amigos lhe desagrada ou se na varanda está calor demais para se esticar.

Estou, portanto, convicto de que, tal como eu o entendo sem que ele fale, também me há-de compreender a mim quando lhe falo. Quer dizer, algures entre o falar e o silêncio nos encontramos como iguais.

É claro que somos iguais um pouco diferentes, pois eu tenho que trabalhar e ele não. A verdade é que os dias dele – dias de ócio, contemplação, brincadeiras, sestas, corridas atrás de pombas, festinhas e papinha feita e servida a tempo e horas – são uma espécie de conclusão ideal dos meus próprios dias.

Naturalmente, a mim cabe-me tomar decisões e assumir responsabilidades, por isso, tendo a ter-me na conta de ser livre, o que me proporciona algum orgulho na minha pessoa; enquanto ele, com a sua vida desafogada e despreocupada, acaba por estar condicionado pelas minhas escolhas. Não é – este exemplo ilustra (quase) tudo – alguém a quem se possa dar a chave de casa.

Nisto ia eu discorrendo silenciosamente, nesse fim de tarde, a caminho do morro onde o meu cão gosta de dar umas corridas a seguir a fazer as suas necessidades, quando apareceu um homem com uma criancinha pequena. Quase não preciso dizer que o meu cão, que adora crianças (seja qual for a sua espécie – humanos ou animais, adora-os a todos) se lançou na sua direcção. A menina assustou-se um pouco, mas o pai, e eu próprio, sossegámo-la: “não morde”.

Enfim, nós que não nos conhecíamos de lado nenhum, de repente estabelecíamos um contacto proporcionado pelo cão. Sem ele, eu seria completamente indiferente a estas pessoas e elas a mim. Talvez nem tivéssemos reparado uns nos outros.

A certa altura, a menina tratou-me por tu. O pai, atrapalhado, corrigiu – “não se trata o senhor por tu”. O pai desculpava-se, dando o exemplo, e tratava-me por “você” e por “senhor”.

Ao meu cão, entretanto, ambos tratavam por tu, como se o conhecessem desde sempre.

O “tu” tornou-se, então, uma questão para mim, pelo que me pus a pensar o que poderia ele significar e porque razão há pessoas a quem é preciso tratar por senhor e outras em fica melhor tratar por tu. Lembrei-me, por exemplo, que muitos pais tratam os filhos por tu, enquanto estes têm que os tratar na terceira pessoa, como se não pudesse haver uma relação directa entre eles. O mesmo em relação às crianças e às pessoas mais velhas. Ou em relação a patrões e empregados, ao padre e aos paroquianos, ao polícia e ao ladrão, ao professor e ao aluno, ao príncipe e à plebe.

É evidente que certas relações de “terceira pessoa” traduzem muito mais proximidade do que outras em que o “tu” é aceite. Por exemplo, o excesso de carinho pode levar os pais a tratar os bebés por "você"; o mesmo acontece entre os amantes ou em certas amizades que o tempo aprofundou retirando o carácter formal da formalidade do tratamento. O contrário também é frequente. Por exemplo, os espanhóis mantiveram o “usted” mas reservam-no para situações particularmente formais. Em contrapartida, pessoas que não se conhecem de lado nenhum, acabam a tratar-se normalmente por tu.

Mas o tu, pareceu-me, não é apenas um sinal de igualdade de estatutos. Com efeito, duas pessoas que se tratariam por “você” numa situação normal, podem acabar tratando-se por “tu” em certas circunstâncias menos felizes, como por exemplo, quando sentem necessidade de se ofenderem umas às outras. No trânsito da cidade, isso é tão comum…

Pareceu-me, então, que o tu serve também para humilhar o outro, para o fazer sentir-se menor, menos importante, ou mesmo menos humano. Em certas ocasiões, tratar por tu é quase como excluir da comunidade dos seres humanos, uma atitude de desprezo.

E foi isso que me irritou naquele encontro com o pai e a filha. De repente, pessoas que não conheço de lado nenhum, dispunham-se a tratar-me por “senhor”, mas não tinha qualquer escrúpulo em tratar o cão por “tu”. Pura e simplesmente, não reconheciam qualquer dignidade ao meu cão, não admitiam o valor que eu lhe atribuo intrinsecamente. Colocavam-se, parecia-me, levianamente, numa posição de superioridade, e faziam-no – pior ainda – sem se darem ao trabalho de reflectir sobre isso, como se o natural fosse esperar deles isso mesmo.

Entretanto, o seu comportamento – sim, o do pai também – não se adequava a este quadro de superioridade. Pelo contrário, a criancinha dava beijinhos ao cão e abraçava-se a ele como a um irmão. E o pai, tão composto no vestuário, tão educado no tratamento, tão adultamente civilizado, descia à infância e, com a filha, atirava paus e dizia “busca”, corria, fintava-o, usava expressões carinhosas com voz de falsete. Visto de longe, dir-se-ia ser um retardado.

Foi então que compreendi a especificidade do “tu”, deste “tu” aplicado ao cão. A brincadeira com o cão foi uma espécie de regresso ao passado, a um estádio anterior da consciência, diferente da racionalidade e da formalidade do adulto civilizado. Um regresso a estruturas primitivas de um ser que há muito não se diferenciava a si mesmo dos restantes animais e que, por isso mesmo – ainda que os caçasse para comer –, os considerava elementos sagrados, sujeitos a todo o tipo de tabus, dignos de serem gravados na perenidade das rochas de uma gruta qualquer. Neste caso, tratava-se de um “tu” de saudade”, de reencontro, de procura de si mesmo. Um “tu” que produziu laços inquebrantáveis (pela brincadeira com o cão) entre o pai e a filha que, nesses instantes, pareciam de facto um só – ainda que se venham a tornar a dividir e a separar quando o cão a que se uniram abandonar o seu horizonte e o pai tiver que regressar às preocupações mundanas, ao trabalho, à formalidade dos papéis sociais…

FM