Mnemosyne, por Dante Gabriel Rossetti, 1828-1882

É importante não esquecer que a “ felicidade consiste em querer ser o que se é” (Erasmo, Elogio da Loucura), o que quase obriga a perspectivar a vida como resistência, como contínuo confronto entre inimigo e inimigo do inimigo. Levado ao extremo, um mundo destes é inabitável; o maior desígnio de cada ser individualmente perspectivado como ser que quer, que deseja realizar-se naquilo mesmo que é, queda irremediavelmente perdido, pois, esse querer que define a felicidade, reduzir-se-ia ao querer manter-se em luta e realizar-se enquanto sobrevivente. Acontece que até mesmo os homens guerreiros, os que se satisfazem e realizam pelo combate, procuram mais do que a luta. Desejam, no mínimo, algum reconhecimento por parte dos adversários, desejam ser temidos, ambicionam glória, aspiram a ser tidos como vencedores. Necessitam, por isso, periodicamente de tréguas, a fim de terem oportunidade de fruir e ostentar as suas vitórias. Precisam, além disso, de cúmplices, pelo que são obrigados a fazer cedências, se quiserem manter-se numa posição de dominação.

Sozinho, o homem nunca teria surgido no mundo. A resistência dos elementos e das espécies à vida humana só pode ser suplantada pela distribuição das tarefas da sobrevivência e apenas pela comunicação das aquisições resultantes da partilha de experiências se desenvolveram as capacidades e competências que têm permitido ao homem sobreviver. Num tempo em que se fala tanto da urgência da felicidade, tende-se a esquecer que a realização que os primeiros homens ambicionavam era a sobrevivência. Mas foi a sua natureza gregária que assegurou essa realização
básica, ainda que frequentemente às custas de inúmeros sacrifícios, muitos dos quais significaram a morte de seres humanos.

Não é difícil admitir, contudo, que o tempo jamais tenha rasurado definitivamente este aspecto da vida e que, em patamares muito distintos se perpetue ainda esta necessidade de afirmação sobre o outro. Ainda não há muito tempo, no coração da Europa civilizada, milhões de pessoas a conheceram de forma impressionante. Primo Levi relatava: “Aprendemos que tudo serve; o arame, para apertar os sapatos; os farrapos, para fazermos deles panos para os pés; o papel, para forrar o casaco (abusivamente) contra o frio. Aprendemos, por outro lado, que tudo pode ser roubado, ou melhor, é automaticamente roubado, mal a atenção diminui; e para o evita tivemos de aprender a arte de dormir com a cabeça apoiada num embrulho feito como o casaco, e contendo tudo o que possuíamos, desde a marmita até aos sapatos.” (Primo Levi, Se Isto é Um Homem) É claro que os campos de extermínio são realidades extremas de um terror ensaiado até às últimas consequências e que, felizmente, a maioria dos habitantes da Europa Ocidental vive hoje em circunstâncias muito mais favoráveis. Em certo sentido, é útil que a experiência do totalitarismo tenha sido esquecida e arquivada na memória académica. Estivesse ela ainda viva e com a força de outrora nas emoções dos homens, talvez nenhuma confiança pudesse ser restabelecida entre eles. Depois destes crimes do homem contra o homem, a maior loucura é nele depositar a mais diminuta confiança.

Mas não seria necessário regressar aos tempos dos primeiros homens ou invocar, de entre todos os actos humanos, os mais bárbaros. Até mesmo em tempos de prosperidade, de paz, de tolerância e de liberdade, é fácil mostrar como o esquecimento é importante. Por exemplo, em relação à relação entre os pais e os filhos: a certa altura da vida, os filhos para quem os pais são figuras divinas, omnisapientes, moralmente íntegras, invencivelmente protectoras, sentem-se desiludidos, traídos, perdidos. A descoberta de que eles se enganam, erram e têm fragilidades gera uma crise de identidade e de sentido da vida, em muitos casos inultrapassável por toda a vida. Para que se mantenha o amor filial, é preciso uma certa dose de esquecimento, sem a qual este ressentimento se poderia traduzir nos piores dissabores. Um outro exemplo poderia ser o dos amantes que devem esquecer o passado amoroso um do outro para que tal recordação não se fixe como uma farpa de ciúme. O mesmo acontece no caso de uma injúria, de uma ofensa, de uma desatenção. O esquecimento tem que surgir pela ocasião do perdão concedido, da confiança restabelecida, da paz acordada, do amor retomado, da celebração da amizade. Todos os homens têm, no fundo, razões para desejar que os outros esqueçam alguns dos seus gestos, ditos ou omissões.

Mais do que isso, porém, todos os homens precisam de esquecer muito de si próprios, sob pena da angústia e do remorso. E precisam, sobretudo, de esquecer grande parte daquilo que desejam quando desejam ser felizes. É a única forma de acolhimento hospitaleiro do outro, a única arma capaz de realizar a conversão do inimigo em convidado. A Psicanálise chamou a atenção para o papel do recalcamento em relação à possibilidade de se manterem no tempo os laços interpessoais e sociais, e Freud escrevia, em A Civilização e os Seus Descontentamentos, no conturbado período entre as duas guerras mundiais, que “a sublimação do instinto é uma característica particularmente notável da evolução cultural; é isto que torna possível às grandes operações mentais, actividades científicas, artísticas e ideológicas desempenharem um papel tão importante na vida civilizada. (…) É impossível ignorar a dimensão da renúncia dos prazeres dos instintos sobre a qual se ergueu a civilização. (…) Esta privação cultural domina todo o campo das relações sociais entre os seres humanos.” (Freud, A Civilização e os Seus Descontentamentos).

FM