Olhando para o exterior através do vidro da janela, oferecendo o rosto ao mundo, impede-lhe ao mesmo tempo que o veja. E mesmo ao observador, fora daquele mundo em que seria efectivamente perigoso e fascinante cruzar os olhos com os da Lavadeira, apenas são dados os contornos objectivos de um perfil. Apenas a ruptura dos limites do observador o colocariam na posição milagrosa de encontrá-la face-a-face. Apenas um ser sobrenatural, verdadeiramente acima da limitação que circunscreve a humanidade aos limites da descontinuidade do ser poderia perder-se na vertigem daquele rosto. Mas até mesmo o mais soberano dos homens, o mais despreocupado com a acção, o mais desinteressado pelo futuro, o mais apto a votar a sua vida à intensidade do instante, a mais não poderia aspirar do que ao encontro incompleto com a verdade do ser, proporcionado pela arte e pela poesia. O único meio de possui-la verdadeiramente seria destruirmo-nos, deixarmos de ser os observadores que somos, para mergulharmos na torrente brutal da vida – da vida que se alimenta dos seus próprios mortos e a cujos filhos é imposta a necessidade de, nos limites que lhes são dados, tomarem consciência da existência que lhes coube, antes de eles próprios serem devorados pelo movimento que os reconduzirá à continuidade fervilhante de que, no fundo, apenas em aparência e temporariamente saíram.
FM
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