Olhando para o exterior através do vidro da janela, oferecendo o rosto ao mundo, impede-lhe ao mesmo tempo que o veja. E mesmo ao observador, fora daquele mundo em que seria efectivamente perigoso e fascinante cruzar os olhos com os da Lavadeira, apenas são dados os contornos objectivos de um perfil. Apenas a ruptura dos limites do observador o colocariam na posição milagrosa de encontrá-la face-a-face. Apenas um ser sobrenatural, verdadeiramente acima da limitação que circunscreve a humanidade aos limites da descontinuidade do ser poderia perder-se na vertigem daquele rosto. Mas até mesmo o mais soberano dos homens, o mais despreocupado com a acção, o mais desinteressado pelo futuro, o mais apto a votar a sua vida à intensidade do instante, a mais não poderia aspirar do que ao encontro incompleto com a verdade do ser, proporcionado pela arte e pela poesia. O único meio de possui-la verdadeiramente seria destruirmo-nos, deixarmos de ser os observadores que somos, para mergulharmos na torrente brutal da vida – da vida que se alimenta dos seus próprios mortos e a cujos filhos é imposta a necessidade de, nos limites que lhes são dados, tomarem consciência da existência que lhes coube, antes de eles próprios serem devorados pelo movimento que os reconduzirá à continuidade fervilhante de que, no fundo, apenas em aparência e temporariamente saíram.

(Toulouse-Lautrec: A Montrouge-Rosa la Rouge)

(Aqui a reencontramos numa das cabines telefónicas de Ernest Pignon-Ernest, a que nos referimos a propósito de "Napoli´s Walls" de Louis Sclavis. Sobre a transmigração da alma na arte seria preciso um novo ensaio. Mas no que aqui mais nos interessa, fica prometida para mais tarde nova referência aos diferentes nomes da Lavadeira na obra de Toulouse-Lautrec).

FM