Companheira da Loucura é também Kolakia, “aquela que ri com os olhos e aplaude com as mãos”. Porque ri com os olhos? Talvez porque um riso silencioso seja uma manifestação de regozijo verdadeiro e tranquilo, confiante, ainda que, por vezes, triste. Uma forma de assentimento, de aceitação e de compreensão tácita do acordo entre o real e o vivido, sem ressentimento, mas também sem falsa esperança. Verosímil, mas descomprometido, não tão ostensivo como a gargalhada – que, mais do que suscitada por um objecto cómico, tem uma relevância tributária, no sentido em que pode ser usada como moeda para comprar a pertença a um grupo restrito que, por meio dela, manifesta a sua vontade de se destacar como comunidade que acede em uníssono à mesma distribuição da realidade por patamares que ascendem do cómico ao sério. O sorriso não tem esta dimensão grupal, não visa agradar mas expressa agrado, pelo que está mais próximo do que há de universal na humanidade. Antes de aprender quem é e a quem pertence, o bebé sorri. E todos os que têm a sorte de estar na direcção desses sorrisos se perguntam por que mistério lhes calhou a eles tamanho elogio por parte de quem ainda não sabe fazer contas nem cálculos e quem, portanto, ainda não assimilou as regras da boa convivência que ditam que deve ser retribuído ao outro o bem que ele nos fez.

Pela mesma razão, Kolakia aplaude infantilmente com as mãos, sem os agradecimentos rococó, as vénias e os salamaleques com que os adultos gostam, quando lhes não convém a briga, de se brindarem uns aos outros. A diferença entre aplaudir com as mãos ou erigir um panegírico sob a forma de discurso é que o aplauso não obriga a curvar a cabeça nem a ajoelhar. A violência do aplauso não é ainda a que produz os medos e os sonhos maus. A sua eloquência não pertence ao mundo das hierarquias, não é gerada nem pelo interesse nem pelo cinismo. E, embora possa ser usado – como tudo o resto – para produzir um qualquer efeito desejável e previamente calculado, originariamente o aplauso é uma linguagem do inútil, visto que nele é retirado às mãos qualquer serviço, qualquer trabalho ou mesmo qualquer fim artístico. O aplauso é, portanto, uma suspensão do cálculo e do interesse e, como o sorriso dos olhos por contraposição à gargalhada ostensiva, uma expressão de concordância radical com a existência, o que é especialmente visível nas palminhas do bebé. É, além do mais, contagioso, como o sorriso e, como ele, capaz de criar um efeito rítmico impossível de transcrever numa pauta e, todavia, tão nítido que as palavras apenas podem prejudicar.

Kolakia é o nome do elogio de que é digno o turbilhão que traz e arrasta consigo todas as coisas, mudando umas em outras, separando-as para as tornar a reunir e a separar, indiferente a protestos e providências, a promessas e responsos. É a dignidade própria dos soberanos que nunca se curvam nem têm que despender a mais ínfima parte do seu tempo ou energia a converter o seu modo de existir num meio ao serviço ou em função de qualquer finalidade exterior. Kolakia é o nome da impagável – e tão à partida cobrada – dívida de todos os seres condenados a pagar com a vida a vinda ao mundo. Quebrada como todas as palavras, o nome Kolakia pertence tanto aos que exultam diante da comédia da vida como aos que sofrem como numa tragédia – e que geralmente são os mesmos. Pois, que é chorar, lamentar-se, desejar morrer, se não e ainda o aplauso da vida a si mesma?


Ilustração de Hans Holbein, nas margens de uma edição antiga do Elogio da Loucura

É certo que todas estas notas aproximam o elogio à Loucura. Mas, como ela própria canta: “Nem que as minhas línguas fossem cem, cem as bocas, férrea a voz, poderia eu dizer todos os nomes da estultícia”. Não é, pois, de espantar que Kolakia seja mimada por todos quantos privam com o hálito da Loucura. É possível detectar a sua influência em todas as esferas da actividade humana. Seriam possíveis relações duradoiras entre homens e mulheres, entre pais e filhos, e patrões e empregados, entre governantes e governados e até entre mortais e deuses, sem o elogio? Sem a capacidade de adular e regozijar por se ser adulado, por quanto tempo suportariam os homens a presença uns dos outros? Objectar-se-á que não é por falta de esforços diplomáticos que os Estados se deixam arrastar para a guerra, que não é pela ausência de prendas que os filhos se revoltam contra os pais, que não é pela falta de vencimento que se opõem os trabalhadores aos empregadores, que não é por faltarem promessas que as populações derrubam governantes, que não são os ditos omissos de amor que afastam os amantes. É uma objecção importante, a que se deve prestar a maior atenção. Mas o que ela revela é a distância abíssica que vai do sorriso infantil à gargalhada do adulto, ou do aplauso descompassado da criança ao ritmo previamente ensaiado do discurso interesseiro. E se, descendo ao longo dessa distância, o elogio perde a sua voluptuosidade, é porque se vai tornando coisa demasiado séria, logo, incapaz de gerar a paixão intensa do puro jogo. A criancinha que brincava com a roca já não se encanta tanto com ela quando passa a precisar de fiar para subsistir. O livro que se é obrigado a ler torna-se enfadonho. O acordeão que se toca para pedir esmola acaba por se confundir com a odiada cegueira.

Philautia e Kolakia são companheiras inseparáveis da Moria, e, enquanto a “Filáucia passa a mão pelo próprio rosto, a Adulação acaricia a cara dos outros”, tornando, assim, a vida um pouco mais fácil e atractiva. “Se me excluísseis – conclui a Loucura sob o signo de tais companhias – não poderíeis suportar o próximo, e contra vós próprios sentiríeis desgosto.” E isto porque é dela que advêm a tolerância e a indulgência, a amizade e o amor, sem os quais estaria cada homem condenado à morte por isolamento ou numa guerra constante de todos contra todos.

FM