No que toca a cultura musical, nos idos anos 80 do século passado, os filhos dos pequenos-burgueses da região de Aveiro em nada se distinguiam dos filhos de pequenos-burgueses do resto da Província. A educação musical escolar era insipiente, meramente curricular, sem qualquer projecção no futuro e significado nas vidas. E mesmo em termos de prática instrumental, a menos que integrassem uma banda filarmónica ou ingressassem numa escola de música, não iriam além da modinha guinchada na flauta de bisel. Falo das bandas filarmónicas regionais, que animavam as festas religiosas e/ou populares, e das escolas de música locais. Estas escolas, muitas vezes, mais não eram que extensões dos grupos de baile. Alguns dos seus elementos leccionavam aí e aí recrutavam os melhores alunos para os seus agrupamentos (os que sobreviviam aos assassinos métodos do solfejo), de modo a garantirem a perpetuação do baile semanal e a parte mais ligeira e profana das festas de Verão. (Ainda assim, é às bandas filarmónicas e a estes grupos musicais que devemos uma tradição de música viva em Portugal...)


Francesco Libetta, L'isle Joyeuse (Debussy)


Todavia, pode-se considerar que essa geração ficou pouco mais que analfabeta em relação ao conhecimento da «grande música» e atrofiada no que diz respeito à sensibilidade para a mesma. (É verdade que, hoje, ao nível do ensino público, o estado de coisas não é muito diferente, porém, há muito mais informação disponível, muito mais diversidade e qualidade de oferta de escolas privadas.)

Havia, contudo, quem escapasse a este destino quase certo. Era o caso do punhado de privilegiados que se distinguia pelo talento e era conduzido por mãos sábias ao Conservatório de Música de Aveiro ou, acidentalmente, o caso dos alunos que frequentavam o Seminário de Aveiro. Em ambos os casos, o privilégio advinha do facto de contactarem com Arménio Costa, o padre, mas sobretudo mestre, melómano e compositor que se encarregava da disciplina de História da Música nas duas instituições.


Le Sacre du Printemps (Stravinski), Pina Bausch


Graças a ele, uns e outros souberam que existia alternativa à música dos tops e à música ligeira reinante. No caso particular dos seminaristas, também que, para além da «música de reflexão» utilizada nos momentos mortos das orações (a flauta estereotipada de Zamfir, as orquestrações glicodoces de Purcell - não confundir com o compositor Barroco -, as bandas sonoras menos más de Vangelis e Mark Knopfler...), havia a música de outras geografias e épocas. Travaram então contacto com as culturas musicais da Grécia Antiga, do Egipto, dos Judeus, do Japão, da China, da Índia, aprendendo o nome e a forma dos seus instrumentos, bem como a teoria musical de cada uma. Durante as audições das aulas, eram ouvidos ilustrativamente, num leitor de cassetes de tamanho jamaicano, tanto o Cantochão como Ravi Shankar, tanto peças dessas tradições musicais remotas como as harmonias e ritmos (absolutamente novos para aqueles ouvidos virgens) d' A Sagração da Primavera, de Stravinski - e com a mesma paixão eram apresentados e analisados o virtuosismo formal da Escola Flamenga (onde se compunham peças susceptíveis de ser interpretadas do início para o termo e vice-versa) ou a simplicidade da Cavalgada das Valquírias, de Wagner, e a sua noção de Leit-motiv; a música programática de um Janequin (efeitos vocais imitando o canto dos pássaros, a crispação das espadas numa batalha, etc.) ou o conceito que presidiu à construção de Mikrokosmos, de Bartók. Era um mestre de espírito de tal modo aberto que não hesitava em estabelecer relações entre os Beatles e os modos gregos, ou indicar a influência da música indiana nas estrelas da folk e da música pop-rock dos anos 60. Mas, naturalmente, a sua especialidade era a música erudita e, dentro desta, a música sacra. Elogiava Victoria e Palestrina, e (previsivelmente, posso dizê-lo agora) punha Bach no pedestal mais alto. No fim da missa, enquanto os aspirantes a padre saíam, era habitual ficar tocando num órgão de tubos que ele próprio concebera e no qual trabalhava há anos, Jesus, Consolação para os anseios do homem, do compositor alemão. Nas aulas, dava os exemplos sentando-se ao piano e tocando excertos de peças (como o efeito dos sinos d'A Catedral Submersa, de Debussy, entre dezenas de outros). Tinha o carisma de mestre e, como tal, os seus tiques. Torcia expressivamente o pescoço, enquanto tocava voltando-se para os alunos, o que não raramente causava o riso, mas a novidade do que transmitia, essa ficava impressa indelevelmente. Debussy era um dos seus compositores de eleição, no que ao piano dizia respeito. Assim, os adolescentes seus alunos, seminaristas e alunos do Conservatório, tiveram por essa altura a oportunidade de assistir a concertos privados com peças do compositor francês (a elegante pianista, lembro, usava um vestido vermelho e longas luvas da mesma cor); a palestras com o compositor portuense Cândido Lima, a propósito da Música Contemporânea, dos alvores a Cage; a um concerto de música avant-guard na Câmara de Aveiro com o Duo Contemporain (Henri Boke e Mikel Bernat).

Como fiz parte deste restrito número de privilegiados que com ele contactaram, foi com naturalidade que entre as minhas K7's começaram a figurar composições da música erudita e étnica, muitas vezes gravadas a partir dos vinis do mestre. É o caso da cassete 1, onde juntamente com Os Dias da Madredeus, se pode ouvir a Suite Alentejana, de Luís de Freitas Branco; ou da número 7, com as suas Cantigas de Santa Maria, de Afonso X; ou da 9, onde a par da Sétima Legião e dos Genesis se pode escutar Hildegard von Bingen e cantigas medievais de outros códices, como o Calixtino e o de Martin Codax; ou da 15, preenchida peças da Escola de Viena, A Noite Transfigurada, de Schönberg, as extraordinárias miniaturas de Anton Webern, e os profundíssimos Cantos Sagrados da Tradição Bizantina; ou da 17, preenchida inteiramente com Canto Gregoriano; ou da 21, em que convivem Mler If Dada, Cocteau Twins e as Vozes Búlgaras. Depois, há os mais previsíveis Mozart, Brahms, Britten, Orff, Tchaikovski, nem sempre ouvidos com a mesma devoção e frequência com que ouvia o então irresistível continente pop-rock, é certo, mas que não deixava de se apresentar como um continente a explorar no futuro, promessa de outros requintes de fruição estética. Como veio a acontecer, e acontece cada vez mais…


Jesus, Consolação para os anseios do homem (Bach), Dudlei


Este texto homenageia Arménio Costa, agora que se celebram 10 anos após a sua vida.

Dedico-o também a um seu aluno e meu condiscípulo, João Baptista, que, tanto quanto julgo saber, continua guiando um camião pelas estradas de Portugal e do resto da Europa escutando a Antena 2 e música erudita.


PC