Louca sapiência, 8
De quem se rodeia a Loucura, que companhias aprecia, que influências recebeu na sua morada natal, para além da dos pais? Ela própria faz questão de apresentá-las, como se fosse incapaz de suportar qualquer distância em relação às suas amizades. A primeira a ser enumerada, no Elogio da Loucura, é Philautia, conhecida por todos quantos privam com o amor-próprio. Dela recebeu certamente a Loucura a tendência para se desejar a si mesma e o hábito de se insinuar na vida dos homens como jactância. O irracional, o absurdo, o ilógico, detestam a razão, o sentido, o conclusivo, visto que, ao serem apanhados nas suas malhas, são tratados como o contrário daquilo que são. Não desejam, por isso, unir-se a qualquer coisa que não a si mesmos. Por isso, o louco está sempre convencido que as coisas, tal como as vê, só podem ser como as vê, e não pode ser convencido de que o seu tempo acontece na alucinação sem deixar de ser louco. Os seus actos, e as suas emoções e pensamentos, se os expressa, só podem parecer irrazoáveis aos outros, para os quais são sempre presenças estranhas. Assim se diz dos loucos que vivem num mundo à parte, alheados da humanidade normal, da comunidade – que é, por definição, o único lugar em que a comunicação e o reconhecimento são possíveis. A presença do louco produz um sentimento semelhante ao que a maior das pessoas experimenta ao escutar a sua própria voz gravada: uma mistura de reconhecimento com desconhecimento. Por um, lado, a pessoa descobre qualquer coisa de si; mas essa descoberta é perturbante, pois apresenta daquilo que cada um pensa sempre conhecer melhor do que ninguém uma figura diferente. É uma experiência que faz lembrar a do amante que descobre que a sua amada guarda para si segredos inconfessáveis. Simplesmente, o confronto com o louco leva cada indivíduo a desconfiar de si mesmo. Não se trata apenas da dúvida de saber de qual dos lados está a loucura, se do lado do eu ou do lado do outro, visto que tal dúvida não afecta as consciências mais seguras de si mesmas nem aqueles que, em momento algum, chegam a pôr em causa qualquer uma das suas convicções. E muito menos afecta os loucos. Mais do que isso, a presença do louco transtorna porque ela representa a mais secreta vocação para a auto-afirmação, para a procura da satisfação de todos os desejos, o que é evidente quando o sistema perceptivo despreza os dados do mundo e nenhum mecanismo selecciona, inibe ou orienta para fins alcançáveis os impulsos motivacionais. A noção de que os mais loucos apenas dispõem de uma consciência muito diminuta coincide com a ideia comummente aceite de que os loucos, como os embriagados, dizem sempre a verdade. Dizer que o louco está fora do mundo, é quase o mesmo que afirmar que está fora de si, isto é, que o seu verdadeiro eu se exteriorizou e não lhe pertence completamente. Assim, parte do segredo a que o louco faz apelo diz respeito ao tácito assentimento de que ele se realiza mais do que o normal, pois a sua mente contorna com menos dificuldade os obstáculos que se colocam à afirmação das suas tendências mais básicas. Aquele que se tem por superior ao louco porque julga ser capaz de controlar os seus impulsos, de se auto-dominar, de avaliar situações e decidir autonomamente, ao chocar com o louco, sente com angústia que nunca poderá abandonar-se à vida e à procura de satisfação como o faz o louco – e sente-o mesmo quando se apercebe que o modo de procurar satisfação do louco é um caminho arriscado demais, ou mesmo quando descobre que o louco chega a poder satisfazer-se através do sofrimento. O louco é aquele que está fora de si, aquele que não obedece a nenhum comando consciente, aquele que arrisca tudo o que tem e é sem se importar com isso, aquele cujos laços consigo mesmo não têm mais resistência que teias de aranha. Assim, para além de imagem perturbante da verdade mais íntima de todos os homens, o louco é também uma figura de morte, uma espécie de fantasma invertido, uma realidade sem imagem, tangível mas não visível. O riso do louco é arrepiante – ou cómico – porque é o riso da indiferença pela própria vida. Por isso, o louco raramente trabalha, no sentido produtivo do termo, e mais parece dedicar-se a jogos. Neste sentido, ele é invencível, pois não sente a necessidade de sacrificar o instante presente em função de um objectivo posterior ou exterior, uma espécie de herói para o qual a própria vida é uma ninharia que pode ser desbaratada se a satisfação exigida num determinado instante assim o decidir. Precisamente por isso, muitos loucos são admirados, respeitados e até invejados pelos outros, aqueles cuja mente se constituiu como sociedade em que os polícias correm atrás dos ladrões e em que os ladrões congeminam e agem dissimuladamente e no maior segredo. Mas, que a loucura se procura a si mesma é ainda verdade em muitas manifestações de jactância pessoal ou colectiva, senão em todas. Todos os homens precisam de um pouco de auto-estima para resistirem ao suicídio. Aquele que nada de positivo encontra em si, tem uma vida insuportável e talvez procure matar-se ou desista de se esforçar por se manter vivo. A vida é um caminho muitas vezes espinhoso cujo fim é a sua própria anulação. Uma anulação prometida à partida e a mais fiável de todas. Matar-se é atalhar caminho, chegar ao mesmo termo muito mais rapidamente, sem tanto esforço e com maior simplicidade. Manter-se vivo é uma tarefa que exige sacrifícios e que requer, portanto, contrapartidas. Permanecer na vida sim – mas desde que valha a pena. E, para que valha a pena, é preciso, pelo menos, acreditar que se é capaz de realizar alguma coisa com valor. Ora, a este nível, todos os que desejam viver foram abençoados pela Philautia e, desse modo, recebem a simpatia da Loucura. O amor pela própria vida, contudo, é um amor destinado à traição. Como diria Milan Kundera, um dia todos saímos da fila. O ponto que somos desliga-se da recta e torna-se indistinto do imenso espaço informe que lhe confere o indispensável contraste, sem o qual seria tão indistinta como a vizinha vastidão. Há, portanto, algo de bazófia nos gestos e discursos de todos quantos fazem do dia seguinte a razão de ser do agora actual, e dos que se apresentam no mundo como portadores do projecto de vida mais acertado, ou que se vangloriam das suas capacidades ou das suas conquistas. Os argumentos com que cada um procura justificar para si mesmo os passos que deu ao longo do dia, ou mesmo as justificações para as repreensões que cada um dá a si próprio, evidenciam sempre uma certa fanfarronice. Louco é também aquele que não se apercebe que todo o ser separado é uma espécie de inesperado desvio do destino comum a toda a existência, uma efémera fagulha de um incêndio cósmico. Louco é o náufrago que se agarra a si mesmo como se de uma gota de água do oceano da vida pudesse fazer una tábua de salvação. Louco é também, por conseguinte, quem mais a sério toma o mundo, pois, ao contrário do outro louco, cujo verdadeiro eu está fora de si, mantém a sua verdade interior tão comprimida dentro de si, que acaba por agir e pensar de forma alienada.

Sob a influência da Philautia, portanto, todos os homens são loucos, ora porque são incapazes de pertencerem a si próprios, ora porque acabam por ficar encerrados, como objectos, fora de si mesmos e se lhes torna impossível acederem ao que há de mais íntimo e sincero em si. Vistos deste ângulo, estes loucos narcisos são como que porções falantes de um guisado feito com restos de comida, mas que se tomam a si próprios como verdadeiros gourmets.
