A Loucura afirma-se filha de Plutão e da Mocidade (ou Frescura). Tal aparato geneológico é motivo suficiente para suscitar o mais vivo interesse por ela. Do pai, a Loucura recebeu a significação de riqueza; da mãe, a eterna jovialidade.

Que magnífica conjugação na filha: riqueza sempre regenerada, que nunca fica decrépita, que vence todos os obstáculos. Riqueza que não se reduz à posse do objecto valioso, mas à própria possibilidade de existirem todos os objectos valiosos.

Plutão personificava, para os Gregos, a Fecundidade da Terra, mas era um deus subterrâneo, infernal, indomável e implacável apreciador de sacrifícios, especialmente de animais negros, e castigador dos condenados à morte. O seu poder devia ser imenso, pois tanto era senhor da vida como da morte, ora providenciando o nascimento, ora apoderando-se das almas defuntas. Sob todas as coisas visíveis, e não separadas em divindades independentes, vida e morte são, em Plutão, representadas como uma só e mesma realidade, no que faz lembrar o antigo Titã Cronos que, concedendo tempo aos seres, se alimentava dos próprios filhos. O inferno plutónico sugere da existência humana que tudo o que nela se encontra dividido forma uma unidade subterrânea. Ou, para retomar a expressão de Georges Bataille, todo o ser surge contínuo, se se abandona a perspectiva restrita que coloca a consciência diante e na descontinuidade entre os seres. Dito de outra forma, Plutão é um outro nome de contradição e paradoxo. Ele é o inimigo e o inimigo do inimigo, o obstáculo diabólico e a possibilidade divina. É o símbolo em si mesmo diabólico da promessa de vida e da condenação da morte, sem separação efectiva entre uma e outra. A Plutão eram oferecidos os condenados à morte – mas não é verdade que, condenados à morte, somos todos? E não é também verdade que só o somos graças à Fecundidade que permitiu termos sido gerados?

Mocidade ou Frescura era sua mãe. Se o ímpeto paterno iniciou o movimento da Loucura, esse movimento, como acontece a todos os movimentos a que, como no caso da existência humana, se opõem obstáculos, deveria abrandar com o tempo e, finalmente, cessar. Mas isso não acontece com a Loucura, que nunca envelhece. A sua riqueza, portanto, não se confunde com qualquer forma de dignificação forçada deste ou daquele objecto, pessoa, instituição ou ideia. Ela é o contrário do aprisionamento na palavra e na consciência, a sua força não se confunde com a do Estado, das armas, das certezas e das convicções, embora esteja presente em todos estes elementos da vida humana. Mas ela é o eterno fugitivo que rompe todas as amarras, que ri da seriedade e faz escárnio da idolatria. A Loucura é a imagem da existência na sua dimensão mais enigmática, na sua verdade mais absoluta e surpreendente.

FM