Um hino homérico considerava Pã fruto da união entre Hermes e a filha de Dríope. Filho de Hermes: não será o que quer dizer Hermeto?
Miles Davis, com quem trabalhou, chamava-lhe «Crazy Albino». E tinha razão. Hermeto Pascoal possui a loucura que permite reconhecer e actualizar a fraternidade que partilhamos com os outros animais. É um ser profundamente religioso, no sentido mais profundo da religião. Ele sabe que pode comunicar com as rãs, e comunica. Sintomaticamente, através da música. Ele ainda não perdeu o anel, não repudiou de si aquilo que o liga ao Uno Natural. Para si o infra-humano não é infra-humano, mas possibilidade.
O Grande Pã não morreu. Vive na música das rãs e na flauta de Hermeto Pascoal. Ou, simplificando: vive na música.
(A mistificação é, a um tempo, desejável e indesejável. Se atira o eu para um patamar desligado do outro, do mundo, do cosmos, caracteriza-se por um escapismo perigoso, estéril, esteticista, eventualmente destrutivo; se une o eu ao que está para além dele mas o constitui, se o «altera», o torna outro, maior, na relação com o todo, caracteriza-se por uma inteligência perigosa (lucidez báquica do vinho), mas potencialmente criativa. Dialogando com o último post do Filipe, permito-me aqui mistificar, esperançado que o faço do modo criativo. Numa outra tradição, uma lúbrica Penélope, repudiada por Ulisses a quem traira, une-se a Hermes e dá à luz o monstruoso Pã. Como que a dizer: quando falta a memória, quando falha a palavra escrita (o contrato, de casamento ou outro), quando o pensamento é só consciência esbatida pelo tempo, resta a música. «Música da carne», chamava-se à luxúria na Idade Média (daí aparecerem tantas representações dela em Bosch);«o ritmo casou», dizia Hermeto, no fim do vídeo do primeiro post que aqui coloquei acerca dele. E o ritmo é a sensualidade da música, o que incita à dança dos corpos, à fecundidade. Penélope entregou-se à noite, casou com o ritmo, e gerou Pã.)
PC
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