A contemplação demorada da Lavadeira convida à exuberância da imaginação, talvez mesmo no sentido mais ardente e proscrito. É fácil imaginar-se uma desejada fusão. Mas, poderá tal sentimento ocorrer sem consigo trazer uma certa angústia? Ou crescerá o desejo na mesma medida em que aumenta repulsa e se intensifica o horror da verdade contida na fusão desejada?

A Lavadeira de Toulouse-Lautrec apresenta o mesmo aspecto enigmático da pirâmide egípcia: sendo um dom do seu autor, resultado de uma despesa de energias que a nenhum fim útil se subjugou, acaba por ter a vantagem de permitir experimentar, “por procuração”, aquela verdade final de que nunca se fala com indiferença, e cujo paradoxo significa que a repulsa expressa nas proibições que se colocam ao desejo não evitará que as mesmas sejam transgredidas. A união que a Lavadeira faz sonhar, mais do que simples lascívia, tem qualquer coisa de sagrado: como o fogo que arde, maravilha e horroriza.

De perfil a apreciamos, ligeiramente inclinada para a frente, apoiada nos braços esticados e nas mãos que a sustentam, pousadas sobre o seu instrumento de trabalho. Nesta posição, cai-lhe a camisa para a frente e logo se nota que está desabotoada. Se ao menos a pudéssemos ver de frente! Que milagre presenciaríamos – talvez um pouco da macia pele da barriga, quem sabe o buraquinho insinuante do umbigo ou algum trapo indecente a fazer de roupa interior.

Da alvura da camisa imaculada e pura sobre as trevas da negra saia, sobressai o prolongamento da parte inferior, escondida, inspiradora dos mais intensos impulsos de profanação do corpo. O cabelo mal apanhado atrás, deixa cair desordenadamente a rebeldia de algumas madeixas sobre a testa e os olhos. Por cima de uma boca comedida e silenciosa, um nariz gracioso dá-lhe a respiração como sintoma de vida. A intimidade dessa vida está irremediavelmente vedada ao observador. Mas o vermelho vivo que discretamente o autor apontou na orelha da Lavadeira indica aos mais atentos a presença dessa interioridade – que pensamento, que sentimentos a teriam levado a corar de forma tão subtil? A orelha rubra é sem dúvida o sinal dum movimento em que assomam os espíritos do sangue teimosamente à cabeça para, uma vez acesa a luz nem sempre clara da mente, refluírem no jogo ritmado em que sobem da carne ao espírito e regressam vivificando a carne.

Ver aquele rosto, encontrar-se com ele, perder-se nele – que perigo, que fulgor e que desastre.

A impossibilidade deste encontro, a sua proibição tácita, confere ao rosto fora da perspectiva do observador a certeza do seu poder arrepiante e contagiante, a verdade de algo que se escapa ao olhar como algo que, de tão maravilhoso e perigoso, é impossível não ser simultaneamente desejado e temido.

FM