Que me perdoem os que vieram ao engano: aqui não há Sade para ninguém. Há frades, sim, mas não tão devassos como os da obra do Divino Marquês. Podia ser outro, o título, como por exemplo Por debaixo do sino das saias, um badalo irrequieto, mas ocupava muito espaço, o título... além de que a vírgula, esse pêlo, fica sempre mal à cabeça de um texto polido. Os frades e o sexo era outra hipótese, mas pecava por tanta originalidade – arriscar-se-ia a levar com um processo em cima pelos produtores da série americana quase homónima. Cabeças de frade seria de uma tal ordinarice que só por distracção o leitor culto lhe pousaria os olhos. Ocilício e o falo talvez fosse mais feliz, mas diria quase tudo, pelo que o texto acabaria redundante. Daí Os infortúnios da virtude. Noutro sentido que o da obra de Sade, convém esclarecer, mas com a vantagem de este não poder reclamar direitos de autor. Além disso, é apelativo e bem gamado. Furto por furto, sempre se trata de um clássico...
E é de frades clássicos que quero falar. Se agora os noviços usam slips gitane, cuecas abanderado ou boxers, é lá com eles. Penso nos outros, nos coitados (que «coitados» não podiam ser, mas enfim...), nesses infelizes da Idade Média que, passados os rigores do Inverno, se viam a braços (mais exacto seria dizer «a mãos») com um instrumento tosco, soprado pelas brisas mornas da Primavera, ao dependuro entre as saias do hábito. Na melhor das hipóteses seria contido por exígua braga; na pior, por fio atado ao prepúcio e cingido à cintura. Qualquer uma delas, horrível! Porque pense-se só que os pobres frades (mesmo que mendicantes não fossem), além da Natureza saltitando abaixo do umbigo, tinham ainda uma cela solitária, tempo de sobra, e um passado sabe-se lá habitado de que imagens de luxúria. É de mais para um pobre humano! Pelo que, da próxima vez em que se falar de cilício e o ímpeto primeiro da sua língua for para exclamar «obscurantismo», pense duas vezes. Mas não pense três. A sua imaginação não tardaria a atribuir a estes pacatos homens – a mãos com a sua Virtude (palavra proveniente do termo latino vir, de que vem também virilidade) – a origem dos jogos sexuais do sadomasoquismo e do fetichismo. Calma no imaginar, portanto!... Porém, se a nossa imaginação, tão destreinada quanto inábil, nos pode levar tão longe, imagine-se, se conseguir, um homem Pobre frade! Quantos sacrifícios, quantas tonsuras na vaidade, e aquele sacana sempre a sair da gola alta, humilde (porque já careca), mas demoníaco como um chouriço tentando o esfomeado! Não seria de admirar que alguns tenham desviado a disciplina das costas ensanguentadas para esse enchido de sangue. E também é possível que dele se tenham apiedado, como do Cristo da Paixão, cuspido e vergastado. Entre lágrimas, suor e sangue, talvez um vómito branco tenha dado alívios momentâneos a estes heróis da Virtude, suspensos entre o Paraíso e o Inferno por decisão própria. Perdoemos-lhes pois, como Cristo perdoou os seus carrascos! Já que usaram de misericórdia, sejam julgados misericordiosamente! Assim seja! Amén!
Aulus Orvallus
Escribe un comentario
Los comentarios están cerrados