Escutemos uma vez mais a Loucura: “E porque não hei-de falar abertamente convosco, como é o meu costume? Pergunto: é com cabeça, com a face, com o peito, com as orelhas, com as partes do corpo denominadas honestas que os deuses e os homens procriam?” A pergunta é ridícula e remete para o ridículo. E é tão despudorada que pode ser tida como piada brejeira ou comentário de mau tom. Sim, suscita o riso. Suscita-o porque, confrontado com ela, o homem se sente como se estivesse caindo no vácuo, como se não lhe fosse possível detectar no horizonte qualquer corrimão a que se agarrar, nem nenhuma plataforma, nem nenhum fundo que ponha fim à queda. É desse aperto frio e fininho na barriga que surge a náusea, mas também a gargalhada incontida ou, de forma mais subtil, o intenso sorriso em que os músculos do rosto se contraem como as paredes de uma bisnaga, fazendo subir as lágrimas aos olhos. Nas entrelinhas da pergunta está toda a questão do ser, o seu início e o seu fim, o lado palpável das suas margens. Ela contém o silêncio opaco da voz de que cada um é eco.
Não é o visível, o que se mostra, o que é tolerável, o que está aí e se pode controlar, que põe a vida no mundo, mas o seu contrário, aquilo que se esconde e que o homem e a mulher escondem uns dos outros, as partes desonestas, o que ora se perspectiva como tão ridículo que dá vontade de rir, ora se sente como força incontrolável exercida entre o macho e a fêmea. A humanidade civilizada, sem disso dar conta esconde tais partes de si como de si esconde a razão da sua vinda ao mundo. Talvez porque essa sua vinda ao mundo é a profecia incontornável do regresso ao mundo.
Bataille enriqueceu o álbum das imagens humanas com as suas Lágrimas de Eros. Desde então, é impossível omitir que o choro do amor é como o oceano que produz as ilusões de eternidade que são as gotas que nele se tornam a unir ao todo. Bataille referia ainda esta ambiguidade de uma natureza humana atravessada de uma ponta a outra pela tensão entre o desejo de transgressão e a necessidade de proibições, recorrendo a uma outra imagem: a da “pequena morte”, tecitura riquíssima do significado existencial do orgasmo. No ponto mais intenso da relação amorosa, cada amante perde um pouco da sua individualidade, sai para fora de si, à beira da perda da consciência. Tais lágrimas de felicidade são como que uma última esplanada sobre a eternidade, uma antevisão da morte em plena vigília e o sinal da plena conjugação entre a virilidade e a exposição efeminada, entre a força geradora de vida e a extrema incapacidade de responder ao resto do mundo.
Erasmo escreveu o que lhe pareceu ser resposta adequada àquela pergunta da Loucura: “Não é. A propagatriz do género humano é uma parte do corpo tão estulta e tão ridícula, que não pode ser nomeada sem riso.” Que se oferece, pois, ao riso nessa parte do corpo, senão o segredo da própria origem, o indizível não ser que tanto perturbou Shaekespeer? Que se esconde sob essa forma subtil de transgressão que é o riso sobre o que de mais aterrorizante se pode imaginar: a total desconfiguração, a mais completa ausência de sentido? Não será essa a mais profunda articulação que se pode descortinar entre o medo da nudez e o riso que deriva de tudo o que a invoca?
FM
Imagem: Angeli, in: Chiclete com Banana, n.º 6
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Gosto de olhar a arrogância em nós, que pelo mundo se passeia aos milhões, com a verdade deste texto: sim, por enquanto, somos todos frutos de uma queca (efectiva ou simulada).