Louca sapiência, 3
Na sua manifestação mais intensa, a Loucura irradia uma força de natureza semelhante àquelas que Georges Bataille apelidaria de inter-repulsão, ou Roger Caillois designaria por sagrado. Dela emana um poder tão intenso que, nas suas proximidades, é impossível determinar um objecto como desejável ou repelente. Da mesma forma que o fogo fascina e atemoriza, ou o precipício causa uma mistura de medo com desejo de cair, a Loucura aterroriza e apaixona, provoca o ajuntamento de multidões mas também faz cessar o pensamento, atrai pessoas mas também as vota à descriminação e à solidão. Os amantes sofrem pela mais ínfima distância que os separa e desejam tornar-se um só, por isso, se dizem loucos de amor. Mas, ao assassino torna-se insuportável a presença de outro no mundo e o mesmo impulso de aproximação culmina na mais radical das separações. E quando isto acontece sem qualquer outro motivo e finalidade para além da inexplicável necessidade de matar, diz-se do assassino que ele é louco. Hitler e Estaline, dizem muitos dos estudiosos das suas vidas e, sem o terem estudado afirmam os que sofreram na pele ou receberam sob a forma de testemunho esse sofrimento, eram loucos. Mas arrastaram multidões. Em todas as aldeias do mundo há também aquele louco que, possa embora receber alguma condescendência se não for demasiadamente excessiva a inquietação que produz nos outros, vive isolado, à margem do grupo ou, quando muito, desengonçando-se como um cãozito vai seguindo descompassadamente a caravana.
O homem tanto cresce como se aninha quando a mulher lhe diz: “pões-me louca”. Se faz o que não queria ter feito, diz que estava louco. Se aquilo que fez ultrapassou as suas expectativas e o gozo foi tanto que já lhe parece até que não foi ele que o obteve, diz: “foi uma loucura”. E, de todas estas vezes, está em jogo a proximidade a qualquer realidade que tem tanto de irresistível como de temível. FM
Foto: Carla Reis
