Salazar é o mais votado no concurso televisivo que procura eleger o maior português de sempre. Os portugueses, em tempos mornos quanto à actividade mediática da selecção de futebol, sempre amantes do jogo e da opinião, aderiram ao concurso e deram o seu voto ao antigo ditador. Parece absolutamente necessário que haja uma selecção de grandes homens que possam ser idolatrados. Estou curioso para saber se haverá, como no festival da canção e no futebol uma competição europeia entre as várias selecções nacionais ou uma disputa por lugar equivalente ao de “melhor jogador”.
Para além do folclore, muitas pessoas se devem estar interrogando acerca das causas deste fenómeno que atribui a Salazar posição tão privilegiada no panteão dos grandes portugueses. Há quem sugira que o facto de, a par de Salazar, os portuguesesterem escolhido Cunhal, indicia uma movimentação de bastidores, uma máquina partidária que pretende mobilizar as massas para um reacender do conflito ideológico que pôs o mundo em chamas na primeira metade do século XX. Se assim for, é possível que muitos votos sejam repetidos e que uma pequena franja de militantes e activistas de um lado e outro da barricada estejam a aproveitar o momento para espevitar as últimas fagulhas. Neste caso, seria triste que toda uma população acabasse por ser falsamente representada pelos votos em Salazar e Cunhal. Triste e eventualmente perigoso, pois, se é isso que está a acontecer, o propósito de ambas as partes deve ser o de se fabricarem e fortalecerem argumentos contra a democracia representativa e a liberdade, o que, conjugado com os já tradicionais níveis de abstenção e falta de participação cívica dos Portugueses, dá uma mistura potencialmente explosiva.
Mas pode ser que esta votação seja mais representativa das múltiplas frustrações sofridas por grande parte da população, talvez sobretudo pelas chamadas classes médias. Desemprego, descrença na Justiça, na Política, na Economia e Finanças; instabilidade na Saúde, deriva na Administração Pública, atentado à dignidade de Professores e Alunos na Educação; perda de direitos sociais conquistados há não muito tempo mas que se consideravam por toda a parte justos... Ou pode tratar-se de um efeito geracional: os velhos de hoje são os que brincaram ontem em pleno Estado Novo e nele estão, portanto, afectivamente ancorados; os de meia idade, ou são os que acreditaram que o 25 de Abril traria um mundo mais digno, justo e igualitário e agora se desiludem, ou são os que por ele foram prejudicados e tudo fariam para voltar atrás no tempo; devia também reparar-se que muitas pessoas que não eram beneficiadas pelo Estado Novo também não o passaram a ser pela Democracia. Pelo contrário, muitos remediados de então continuaram a sê-lo ou passaram a viver pior. Devem ainda apontar-se todos aqueles que perderam tudo o que tinham e foram obrigados a refazer as suas vidas depois da morte do Império, incluindo-se entre estes tanto os que eram servidos pelas estruturas do Estado Novo como o povo simples que nasceu nas colónias e aí tentava ir vivendo, como ainda todos aqueles cidadãos africanos, os"de segunda", que a guerra obrigou a procurar refúgio em Portugal. Quanto às crianças, essas ouvem falar do Estado Novo e do 25 de Abril, bem como da Revolução Russa, da Segunda Guerra Mundial ou da Guerra Fria como se se tratasse de acontecimentos do Paleolítico, demasiado distantes e apenas fossilizados nos livros ou nuns quantos filmes documentários a que assistem entre dois bocejos. Cresceram já no mundo dos ideais decaídos, não acreditam nos políticos nem na política, acham-na aborrecida e incomparavelmente menos atractiva do que as suas consolas de jogos ou os seus heróis do wrestling.... Pode ser que as representações destas categorias (artificiais e demasiado generalizantes, é certo) se estejam a conjugar para darem tanto peso mediático a vozes que, dizendo o contrário uma da outra, partilham o mesmo idioma. Nesse caso, o que se manifestariaseria talvez aquilo a que Freud chamava a “saudade do pai”, quer dizer, o efeito causado pelas perturbações que derivam da liberdade, o que, no nosso caso, depois de décadas de autoritarismo e desresponsabilização burocrática, deve ser muito acentuado pela fragilidade da consciência moral individual, agora sem a estrutura óssea da religião e sem a camisa de forças da polícia política. Como dizia Sartre, não é fácil ser livre. Há semanas, João Lobo Antunes, em Câmara Clara, na TV2, afirmava que os Portugueses se começavam já a habituar à liberdade mas não acediam ainda ao significado prático da responsabilidade. Ao que parece, a nossa democracia e suas estruturas políticas, jurídicas e judiciais não estão a ser capaz de despertar o fervor e confiança necessários à paixão ou a uma mística da liberdade. Longe do pau descansam as costas e regressa a saudade da autoridade.
Nietzsche descreveu as metamorfoses que o homem deveria sofrer até ser capaz de viver como homem livre: o camelo deveria suportar o fardo da submissão e dizer sim como o escravo, até ao dia em que tivesse a coragem e a força para dizer não e rebentasse com as correntes que lhe diminuíam a humanidade. Este seria o tempo do rei da selva, penoso e amargo, pois assentaria na descoberta de que nada, para além da vontade de poder, justifica a condição do rebanho à mercê do leão que sobre ele saliva. Mas seria o percurso necessário para atingir o plano da afirmação radical da vida na manifestação do eterno retorno do novo, isto é, o estádio da criança que diz sim à vida para nela se arriscar como num jogo.
Hoje, no momento em que os principais acontecimentos do nosso mundo reclamam capacidades de uma relação mais ousada com o novo, o Portugal televisivo mostra como estamos tão pouco preparados para enfrentar o futuro e como as nossas crenças se afundam no pântano do passado tal e qual plantas que procuram em vão encontrar chão para as suas raízes.
Enfim. Até as crianças se fartam um dia da disputa “o meu pai é melhor que o teu” e partem para a brincadeira a sério. Pode ser que haja alguma verdade naquele ditado que afirma que há uma criança em cada homem.
FM

Excelente, Filipe! Dizes... mas muito melhor... algumas das coisas em que tenho pensado! :)