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La Coctelera

a arte do perigo

«...o Jogo tem os seus perigos. Por isso precisamente é que gostamos dele, para os caminhos sem perigos mandamos só os fracos.» Hermann Hesse

24 Marzo 2007

Louca sapiência, 1

Erasmo escutou e deu voz à Loucura no campo, em viagem, cavalgando entre a Itália e a Inglaterra, longe, portanto, da cidade, das suas normas, leis e chefias...

Enaltecendo-se a si mesma, a Loucura começa por se apresentar, o que é um acto louco, se se tiver em conta o que ela própria afirma logo de seguida: Descrever-me, representar-me, pintar-me, também não vale a pena, porque estou presente e porque me vedes com os vossos olhos. Séculos mais tarde, o louco de Nietzsche correria em pleno dia com uma candeia. Todos me desejam, todos gozam dos meus favores, auto-elogia-se a Loucura. O problema é que a loucura sem clareza é invisível para o louco. E com demasiada clareza torna-se o louco demasiado sério para a reconhecer em si.

A seriedade, aquela que caracteriza os homens que vivem no mundo como se vivessem na oficia ou na fábrica, tem normalmente a vantagem de ocupar tanto tempo do dia-a-dia que raramente os conduz à periferia da sabedoria, ao arrabalde em que se deforma o eco da voz atirada contra a montanha, devolvida sob a forma de dúvida, inquietação e até aborrecimento. Felizmente, para a maioria das pessoas, o dia é tão cansativo que não sobra energia para semelhante confronto. Ainda assim, é ela que vai sendo capaz de expulsar das almas o tédio vil. Verdade seja dita, porém, que o campo, a floresta, a montanha, constantemente invadem a urbe, para surpresa geral. São, em geral, turbulentas tais investidas. E não deixam lugar à indiferença, pois o que é próprio do reencontro com a loucura é o sentimento de que algo nos toca profundamente, nos arrebata, nos põe fora de nós próprios duma forma tão paradoxal que chega a ser possível sentirmo-nos mais verdadeiros e próximos de nós mesmos ao ausentarmo-nos, desta maneira, do que quando consideramos o que tomamos como o que nos é próprio.

É o sentido deste reencontro com a dissolução de todos os limites a que nos habituaram a razão e a técnica que já se adivinhava no Elogio da Loucura: Sou, como estais vendo, a verdadeira dispensatriz da felicidade. E isto dizia-o ela, aquela a quem sempre foi grato dizer tudo quanto me vem à boca, à revelia da divisão do discurso.

Nietzsche não andou muito longe desta louca sapiência. Eis uma das mil e uma formas como cantou a alegria:

Canção de Embriaguez

Ó Homem! Atenção!

Que diz a funda meia-noite?

“Estava a dormir, a dormir – ,

De um sonho fundo acordei: -

O mundo é fundo,

E mais fundo do que o dia pensava.

Funda é a sua dor –,

A alegria – mais funda ainda que o pesar:

A dor diz: passa e morre!

Toda a alegria, porém, quer eternidade –,

- quer funda, funda eternidade!”

FM

servido por artedoperigo 1 comentario compártelo

1 comentario · Escribe aquí tu comentario

PC

PC dijo

Será o trabalho (vil) a loucura do nosso tempo? Teremos de chegar a casa esgotados para não termos que enfrentar o tédio? Uma sociedade lúdica, com menos que fazer, com menos a que almejar, com menos nas mãos e mais terra para os pés percorrerem - será essa a ideia de loucura do homem-funcional?

25 Marzo 2007 | 12:25 AM

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