Introdução, 6
O desespero, a infelicidade, a miséria, a dor, sempre foram “produtos” muito atraentes. Eles encaixam perfeitamente na lógica do lucro e chegam a gerar em torno de si gigantescas indústrias. Facilmente nos cruzamos com uma proposta de felicidade dirigida a todas as formas de infelicidade. Não faltam soluções para os males da humanidade: adivinhação, feitiços e mezinhas que tudo curam, desde a maledicência à impotência sexual, passando pela toxicodependência e pelo cancro; psicologias caseiras ensinam como ser bem sucedido no trabalho, como conseguir um aumento, como evitar a infidelidade; psicologias menos caseiras oferecem conselhos a adoptar com os adolescentes “problemáticos”, os estudantes difíceis, o temperamento irascível, ou apresentam terapias para acabar com a depressão, o pânico, a insegurança ou a instabilidade emocional; ciências médicas definem quadros sintomáticos ou apontam causas biofisiológicas para o mal-estar psicológico em articulação com laboratórios farmacológicos que sintetizam remédios contra a dor moral, contra o sofrimento do luto, contra a pressão do trabalho; inúmeras religiões, seitas e movimentos esotéricos apontam as causas ocultas do mal e apresentam caminhos inquestionáveis para a salvação…
FM

Porque os nossos dias reflectem, também, uma necessidade de manutenção do sentimento de se ser infeliz, que complementa na perfeição – e perpetua – a lógica do lucro de que falas. Se nos dias que correm, não são muitas as razões para nos sentirmos felizes, então, se não estamos infelizes é porque somos insensíveis. Pior. Se não estamos infelizes é porque não temos a capacidade de nos questionarmos sobre as desgraças do mundo, e então, não somos minimamente inteligentes. Se não sendo infelizes, somos tolos, então, se não estamos infelizes, somos perfeitamente desinteressantes. Se não estamos infelizes, também não nos podemos queixar, e então não somos dignos de atenção. Sem os infelizes, algumas das grandes obras de arte que hoje conhecemos jamais teriam sido produzidas. Sem os infelizes, não haveria filosofia possível sobre a felicidade. Se não estamos infelizes, simplesmente não temos motivo para procurar a felicidade. Ser infeliz é um mal necessário. Ser infeliz é mais lógico. Por isso transformámos uma das quatro emoções básicas – a tristeza – em depressão e desespero crónicos. E por isso, a sociedade sabiamente comercializou a felicidade em pacotes vários, iguarias, comprimidos, adereços, vestimentas, psicoterapias, obviamente nunca num formato demasiado eficaz. Senão ninguém fazia compras. E os psis não tinham trabalho... :)
Edite: obrigado pelo comentário. A tua reflexão é muito pertinaz. Ao confrontar-me com ela, apercebo-me que nas entrelinhas do meu texto se dissimulam as grandes coordenadas da tragédia e da comédia. A relação que estabeleces entre o conhecimento e a afectividade dá que pensar. Entre elas, do lado da razão, assiste-se a um imemorial combate; do lado das paixões, insinua-se o lado lúdico da vida. Mas, a forma como as relacionas de certa forma as concilia, pois, como sugeres, de nada vale o conhecimento que não nos sensibiliza.
O lado trágico está em que as mais inteligíveis formas de representação do real tendem a conduzir-nos à visão abstracta do mal, ao passo que a representação emocional parece fixar-se melhor na memória pela experiência do mal e do sofrimento concretos. Ainda que muitos pensadores forcem uma visão optimista da existência, fazem-no por oposição aos aspectos que tomam por negativos. Em momentos de grande sinceridade, alguns filósofos reconheceram que o uso sistemático da razão nos seca, torna indecisos, paralisa e amargura.
O lado cómico está em que apenas os verdadeiros críticos chegam à crítica da razão e da sabedoria. A figura do Louco, no término da série dos arcanos maiores do Tarot, é a este propósito muito sugestiva, antes e depois do Mago e imediatamente colado ao Mundo, eternamente caminhando com os olhos postos num algures a que parece impossível chegar.
Sendo o cómico tão essencial à compreensão de nós próprios, devemos perguntar-nos porque não cede finalmente a razão ao riso. Penso que a resposta está em que rir é perigoso e que se esconde um terrível idioma na expressão “morrer de rir”. É uma das aberturas para fora de nós mesmos e é por isso que todas as civilizações o procuram dosear, isto é, conter. (Os programas cómicos da televisão que já trazem gargalhadas são patéticas tentativas de produção de uma ligação entre o espectador e a figura do ridículo, patéticas porque é verdade que o riso é um dos mais fortes elos entre pessoas, mas também porque quando é preciso gravar gargalhadas é porque a comunidade se tornou demasiado séria e já não é sensível ao ridículo de si mesma…)
Do meu ponto de vista, mas isso não aparece em nenhum ponto do texto que comentas, toda a felicidade individual é um complexo que reúne, sem os superar, os termos contraditórios desta oposição. Assim, não acredito que a Filosofia possa ou deva renegar o papel que o sofrimento ocupa na vida humana ou escamoteá-lo com elevadas tentativas de glorificação da perfeição do universo. Tampouco se deve permitir a si mesma o comprazimento com a dor e a pena de si mesmo.
Sozinha, ela apenas serve para atormentar os pensadores. Mas pode contribuir para ampliar a percepção (incluindo a emocional, visto que as representações mentais, mesmo as mais abstractas, ao contrário do que David Hume escrevia, podem dar origem às mais diversas químicas dos afectos) e conduzir o homem ao lugar situado entre o mundo e o pensamento, conduzi-lo lá, justamente, sem o afastar em demasia nem da clareza cognitiva, nem da tangencialidade da experiência sensível dos objectos e, sobretudo, aproximando-o da capacidade de realizar a experiência íntima de si mesmo e da comunhão do mundo sem que esta perca o seu sentido profundamente humano.
Pode ser que a Filosofia chegue a construir-se de tal forma que venha a desempenhar aqui um papel importante, em especial neste tempo em que, como dizes, há razões para temer o pior. Mas isso não acontecerá certamente se ela se converter em debitadora de orientações éticas, e muito menos se se reduzir à análise dos problemas da lógica e do discurso. Ela deve saber que a procura humana da felicidade não tem a implacável estreiteza da necessidade de crescer, ganhar força, ser bem sucedido nos negócios ou invencível na guerra, pois, em cada situação concreta, como diria Georges Bataille, se confrontam sempre os impulsos de crescimento com os de despesa sem contrapartida, sem que um dos lados esteja intencionalmente ao serviço do outro mas com especial benefício da despesa.
Para terminar, deixo-te uma breve passagem de um texto absolutamente extraordinário que tive a sorte de reencontrar e reler por estes dias:
“Sou (a Loucura), como estais vendo, a verdadeira dispensatriz da felicidade que os latinos denominam Stultitia e os gregos Moria. (…) Não dissimulo no rosto o que sinto dentro do peito. Sou sempre idêntica a mim própria, e não posso dissimular como aquelas pessoas que para si reivindicam os títulos da máxima sabedoria, que passeiam como macacos vestidos de púrpura ou como asnos cobertos com pele de leão.
(…) Para que a vida dos homens não fosse inteiramente triste e tétrica, Júpiter deu-lhes mais paixões do que razão – na proporção de um grão para meia onça. Além disso, relegou a razão para um canto estreito da cabeça, deixando o resto do corpo entregue às paixões. À razão opôs ainda dois tiranos violentíssimos: a ira, que tem a sua sé no peito e a concupiscência cujo império se dilata até ao baixo-ventre.”
Trata-se, claro do Elogio da Loucura, de Erasmo de Roterdão
Na última página, escreve o autor:
“Também eu já me esqueci de mim, porque ultrapassei os limites. (…) Lembrai-vos, porém, daquele provérbio grego: “às vezes um louco raciocina bem” (…). Um velho ditado: “Odeio o convívio de boa memória”. Agora um novo: “Odeio o ouvinte que nada esquece.”
(…) Posto isto, adeus. Aplaudi, vivei e bebei, ó amigos celebérrimos da Loucura!”
Até breve.
FM