Filosofia e Felicidade
Introdução, 5
Em muitos países – entre os quais Portugal – o reconhecimento social e político da filosofia parece estar em vias de extinção. Ter um diploma de licenciatura em Filosofia não é chave que mereça estar no chaveiro. Não abre as portas ao emprego nem ao prestígio. É provável que a anotação da expressão “licenciatura em Filosofia” num currículo provoque o riso do empregador; achará graça, talvez, mas dar-se-á ao trabalho de convocar o licenciado para uma entrevista? Fora o já sobrelotado ensino, que outras portas se abrem ao filósofo? O jornalismo e a política seriam boas apostas, não estivessem já praticamente circunscritas à procura de técnicos. E à medida de que se perdem talentos, cresce a noção de que a filosofia não passa de um luxo dispensável.
Por outro lado, a própria filosofia, de modo paradoxal, converteu-se ela própria numa “especialidade”. O problema é que estes “especialistas” não podem entender-se quanto à definição do seu objecto de estudo e sentem muitas dificuldades em mostrar ao mundo o interesse do seu campo de investigação. No entanto, como sempre desde o início, a filosofia continua a produzir obras de excelência acerca de temas que têm tanto de essencial como de actual.
É claro que estes bons resultados resultam de muito esforço, o que pode ser um problema, pois, uma ideia filosófica é tão difícil de construir para o seu autor como para todos aqueles que procuram seguir a sua exposição. Assim, tem a seu desfavor o facto de se tornar pouco atraente num mundo que exige tantos cuidados pragmáticos e que oferece tantas oportunidades recreativas.
Há, contudo, em diversos sectores da sociedade, a convicção de que a filosofia é importante, sobretudo na formação dos jovens, o que se reflecte na obrigatoriedade do seu estudo no ensino secundário ou nas recentes propostas de inclusão no currículo de uma vertente de filosofia para crianças. Concluído este período da formação, porém, o que coincide mais ou menos com a entrada na vida adulta, a sociedade trata a filosofia e os filósofos com um desdém que faz lembrar o Cálicles, sofista imaginário que se confronta, no célebre Górgias de Platão, com Sócrates, atirando-lhe à cara que quando vê um adulto a filosofar se sente no direito de o chicotear.
O desprezo pela filosofia não significa, no entanto, a morte das questões filosóficas, o fim do espanto, da dúvida, da inquietação existencial. A necessidade de estabelecer uma relação filosófica com a vida não desapareceu. Cada homem continua a representar o mundo a partir de uma perspectiva que é a sua e que interiormente o compromete com a solicitação indeclinável de se constituir, espontaneamente, como filósofo, isto é, como portador de uma certa visão do mundo.
Em certos momentos, porém, o mundo trai a visão que dele formamos, abalando as nossas crenças, fazendo ruir convicções, provocando o gaguejar das rotinas, desmoronando o tácito sentido que formamos da nossa presençana existência,como se toda essa construção não passasse de um castelo de cartas. Em momentos assim, deixamos de nos sentir auto-suficientes e chegamos a sentir a falta de algum auxílio exterior que nos ajude a recompor no barro que somos a figura do nosso espírito. São momentos – como todos os outros realmente importantes – carregados de riscos. Mas também de possibilidades. Há sempre o perigo de novos bezerros de ouro, mas também da redescoberta da pessoa de umoutro como elemento solidário da construção de nós próprios.
FM
