Os alunos do ensino básico (terceiro ciclo) foram hoje chamados a participar na fase distrital do jogo “Parlamento dos Jovens”. O tema sobre o qual deveriam reflectir era o do impacto da televisão nos jovens. Cada escola representada deveria apresentar três medidas de resolução concretas para problemas igualmente concretos.
Os problemas apontados podem resumir-se ao seguinte: publicidade enganosa e intervalos demasiado longos, informação fraudulenta, noticiários demasiado apostados no sensacionalismo associado à violência, omissão de “boas notícias” (como descobertas científicas, por exemplo), fraca qualidade dos conteúdos de telenovelas e problemas decorrentes da mimética de pobres e desajustados estereótipos, pouca atenção dos horários nobres à educação/formação dos jovens e incidência de conteúdos violentos e eróticos em horários acessíveis às camadas mais novas.
Não foram muito diversas nem imaginativas as soluções apresentadas (já o realismo das mesmas não era obrigatoriamente desejável num jogo de cidadania dirigido a pessoas do destas idades). Pode mesmo dizer-se do seu conteúdo que era pouco arrojado e conformista – para não dizer conservador.
Os representantes das escolas inscritas (apenas sete num distrito que conta com muitas mais) defenderam, por exemplo, mais controlo da programação por parte do Estado, proibição de apresentação de programas com cenas de sexo ou violência, exclusão de imagens violentas dos noticiários, proibição, por parte dos Pais, de ver televisão depois de uma certa hora da noite. Mais inovadora (embora certamente ingénua) foi a proposta de que, nos intervalos, fosse exibido num canto do écran o tempo que falta para serem retomados os programas – a proponente defendeu que essa era uma melhor maneira de o estudante controlar os seus tempos de estudo: em vez de ficar agarrado ao televisor, poderia fazer os t.p.c. durante os intervalos. A assinalar ainda a proposta de serem realizadas acções de formação destinadas aos jovens sobre as formas de descodificação ou interpretação dos conteúdos televisivos, em particular no que toca à distinção entre “a ficção” e a “realidade”.
É nítido que, entre estes jovens, existe a convicção de que há uma “programação correcta” e uma “programação incorrecta”. São ainda incapazes de perspectivar os fluxos de interesses que percorreriam qualquer concretização de uma ou de outra via. Lembram, deste ponto de vista – e com isso não podem deixar de atrair alguma ternura – o Parménides e a sua via da verdade. Ao mesmo tempo, contudo, evidenciam uma mentalidade (em formação, dizem uns, em deformação, dizem outros) pouco disponível para a responsabilidade, ao presumirem a necessidade de uma Autoridade exterior que os impediria de verem os “programas maus” ou de verem televisão em excesso. De certa forma, fazem-me lembrar um estudante universitário que um dia se queixava de não haver faltas às aulas do seu curso porque isso o tinha levado a faltar às aulas e a perder vários anos.
Ortega y Gasset, na sua “Psicologia das Massas”, datado de 1895, escrevia: “Não é a necessidade de liberdade, mas a de servidão que acaba sempre por dominar a alma das massas. A sua sede de obediência faz com que se submetam instintivamente a quem se declara seu mestre.” Certamente sem o ter lido, um jovem com cerca de treze ou catorze anos pediu a palavra para dizer que as pessoas não procuram todas as mesmas coisas e que os media deviam permitir a possibilidade de escolha. Um outro jovem pedia ainda a diversificação de conteúdos. O seu propósito era a salvaguarda da livre escolha. Mas se Ortega y Gasset tivesse estado presente, não hesitaria em mostrar, justamente, que nestes dois casos era o pensamento individual que falava. Talvez por isso mesmo foram duramente abafadas as suas propostas pela ruidosa corrente do pensamento de uma pequena massa que não as considerou sequer dignas de resposta.
FM
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