Lux Aeterna (ouvir trechos aqui) retoma o imemorial tema da eternidade que, ao longo dos últimos milénios, percorre na forma de esperança de salvação as mais variadas expressões religiosas da humanidade.
A metáfora da luz é uma das mais ricas metáforas do conhecimento e do bem; liga-se à esfera do sagrado mesmo nas actuais sociedades (aparentemente) apostadas na profanação do mundo e da existência humana. Percorre toda a História da literatura, está presente na Música, na Pintura e em muitas outras artes. Encontramo-la, todavia, a maior parte das vezes, expressa sob a forma de esquemas dualísticos de representação do mundo, como solução harmoniosa e final de uma existência que permitiu a entrada do mal, a ignorância, as trevas.
É este “ou…ou” que se rompe na obra de Rypdal. Não parece haver nela nenhuma aspiração de subordinação da dignidade terrena a um plano superior, perfeito e livre de contradições e angústia. Com efeito, a Lux Aeterna apenas pode ser pressentida na forma de livre fruição de texturas musicais em que se entrelaçam correntes de esperança e dúvida, fluxos etéreos e redemoinhos inquietantes, solenidades majestáticas ou sacerdotais e fragilidades humanas, infinita beleza e gelada presença da morte, harmonia divina e agressividade terrena.
A união de contrastes é o elementos chave da experiência desta obra, ao longo dos seus 5 movimentos, presentes nas fortes variações temáticas entre as partes, na progressão das linhas melódicas de cada uma dos andamentos,e no intenso diálogo entre as afastadas regiões tímbricas, desde a guitarra eléctrica (distorcida) ao trompete (tocado a maior parte do tempo com um sopro em “pfff”), passando pelo órgão de igreja, o canto (soprano), o piano, a percussão, o contrabaixo, o violoncelo, a viola eo violino.
Acerca do segundo movimento, conta o autor: “enquanto escrevo estas notas, a montanha de Rongja está à minha frente. É limitada por picos elevados, pelo que, no topo, sente-se que se está numa catedral de montanhas. O meu pai nasceu mesmo abaixo de Rongja e nós vínhamos sempre para cá, de Oslo, nas férias de Verão (…). Por qualquer motivo agora esquecido, eu queria dar uma lição aos meus pais. Tinha 9 ou 10 anos. Encontrei um trilho de ovelhas - muito íngreme – e trepei rapidamente pela montanha. Lá em cima, durante um bocado, senti uma conexão muito especial com a montanha (e ainda sinto). Ao princípio, senti-me deveras corajoso, mas depois uma forte ventania começou a assustar-me.Foi este sentimento que tentei capturar no segundo movimento – pode-se escutar o vento a aproximar-se. Chamo-lhe “Fjelldapen” (baptizado pelas montanhas). Desci a montanha e quando cheguei cá a baixo, à quinta, descobri que ninguém sentira a minha falta. Nem eles acreditariam que eu tinha ido lá acima tão rapidamente.” (cf. o caderno que acompanha o CD).
Interpretada na Igreja de Molde (Noruega), a obra foi encomendada pelo Festival de Jazz de Molde, para celebrar a instalação do novo órgão. Foi o pretexto deste feliz encontro entre músicos de formações e percursos tão ricos como diferentes, que acabou por resultar no fascinante cd que convido a escutar.
Terje Rypdal – guitarra
Palle Mikkelborg – trompete
Iver Kleiva – órgão
Ashild Stubo Gundersen – soprano
Orquestra de Câmara de Bergen, dirigida por Kjell Seim
FM
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