Datado de 2003, este trabalho dirigido pelo mestre dos saxofones e clarinetes, Louis Sclavis, e com as participações de Vincent Courtois (violoncelo e electrónica), Médéric Collignon (trompete de bolso, vozes, trompa, percussão e electrónica) e Hasse Poulsen (guitarra), é constituído por dez temas inspirados na pintura mural de Ernest Pignon-Ernest, em Nápoles, o que justifica o título.Como afirma o pintor, a sua intenção, entre 1987 e 1995, foi a de evidenciar os traços nem sempre visíveis da memória da cidade, “um elemento de ficção que deve exacerbar esta realidade”, o que ensaiou pintando centenas de imagens ao longo de “percursos simbólicos, cujos temas fulcrais representam a morte semeada em redor do Vesúvio, a feminilidade da cidade, os elos entre os cultos pagãos e os cultos cristãos. No fundo, para o autor, estava em causa uma investigação sobre os fundamentos da cultura mediterrânica e da “harmonia essencial que se forja entre os homens e os mitos, entre a vida e as representações da vida… e da morte”.

Quanto a Sclavis, considera a música como possibilidade de construção biográfica das experiências fragmentadas e nem sempre coerentes em que se funda a identidade, o queajuda a compreendero sentimento de unidade obtido nesta obra pela conjugação das duas diferentes artes. É também isso que explica a estranheza que resulta da fruição da obra: entre a visão e a escuta, é como se cada um se escondesse de si próprio no momento em que julga estar a descobrir-se. Tanto mais que tanto as imagens estão tão carregadas de elementos sonoros como os sons convocam fantasmas.

Sugere-se o vídeo que se segue (não deve o leitor desistir ao fim dos primeiros compassos, mas sim deixar-se surpreender até ao fim).

Aconselha-se ainda a visita ao Site Oficial de Ernst Pignon-Ernst, do qual se colheram as imagens:

La Mort de la Vierge…


Epidémies

e Donna con Lenzoulo...

FM