Os demónios, de Dostoievski

Tenho ouvido dizer – mas não houve ninguém que me garantisse a verdade do dito – que Dostoievski escrevia um russo tosco e que nas traduções sai favorecido. É possível, se bem que, em geral, as traduções se limitem ao «português correcto» e ao vocabulário tipicamente romanesco. Seja como for, Dostoievski, embora domine virtuosisticamente as técnicas da narração, parece pertencer a outro grupo de criadores que não o dos formalistas. Ele pertence ao grupo daqueles que questionam, antes de mais, o homem, a partir da sua situação existencial concreta. A forma é, neles, um meio para atingirem o conteúdo: e o conteúdo é o essencial. Neste grupo talvez se inclua Kafka, Hermann Hesse e Céline com certeza... o que não é de desprezar.

Na obra Os Demónios, Dostoievski continua a explorar extensão a alma humana até aos seus mais recônditos e tenebrosos espaços. Mas de forma diferente de um Céline, por exemplo, ou de Hesse. Estes utilizam frequentemente a primeira pessoa, conferindo ao enredo uma pungência às vezes trágica. Em Dostoievski, essa tragicidade está presente, mas por entreposta pessoa, o narrador-testemunha. Este facto redunda num tom por vezes artificioso e novelístico, mas eficaz. Porque, apesar do estilo jornalístico (às vezes, voyeurista) – ou graças a ele -, Dostoievski consegue criar uma atmosfera de mistério e de intriga policial que agarra o leitor. Nomeadamente nesta obra, o suspense é mantido por muitas e muitas páginas, sem que o desfecho (ou desfechos) se possa claramente antever. Aliás: são tantas as surpresas e tão inusitadas as peripécias que, às tantas, o enredo se torna inverosímil. Mas a verdade é que, no fim, tudo bate certo.

Pelo meio, Dostoievski parece injectar nas discussões das personagens as suas próprias angústias. Porém, também aí alcança sucesso – porque essas são não raras vezes as nossas angústias. E talvez esse não seja um dos seus menores méritos: o de conseguir criar um cenário gigante, onde a vida se representa; cenário quase sempre desmontável, no fim – como Gabriel García Márquez, no seu Cem Anos de Solidão. No entanto, em Dostoievski, os personagens não são alegorias. Ainda que, de quando em vez, possam aparecer como «tipos» (e aí reconhecemos uma veia satírica muito fina), eles são, sobretudo, indivíduos. Estêvão, Bárbara, Pedro, podem ter o seu quê de típico, mas são também por isso mesmo pessoas que conhecemos. E Chatov, Nicolau ou Kirolov, fomos nós já, um momento qualquer da nossa vida. Tudo isto nos mostra o mais genuíno Dostoievski. A conjuntura revolucionária ou subversiva em que vivem os personagens é apenas pretexto para o confronto inadiável com a vida e com a morte. Porém, mesmo em termos estritamente romanescos, a obra contém cenas inesquecíveis como a da chegada da Coxa à igreja, a da festa, a do incêndio, a da «fuga» de Estêvão Verkovenski.

Mas uma questão fica sempre no ar: os excessos dos personagens serão um espelho fiel do temperamento russo, ou ensaios do escritor (epiléptico, como se sabe) aos territórios proibidos da acção humana? Desde a leitura de Crime e Castigo que faço a questão; e a leitura de Os Irmãos Karamasov só intensificou a perplexidade. Mas ocorre-me, agora, que, atendendo à vida do autor e nomeadamente ao seu exílio, talvez o ambiente revolucionário do livro não seja tão arbitrário como se afigurara no início (não o é certamente): em tempo de crise, as ideias fervilham e tudo parece possível. Dostoievski limita-se a antecipar os efeitos dos axiomas. Se defendo o suicídio, quais as inferências a retirar daí? Se vivo mergulhado na inércia dos ideais passados, que me acontecerá? Se perco a fé no homem, que me espera? Kirilov e Nicolau, Estêvão, Chatov, cada um na sua carne, respondem respectivamente a cada uma das perguntas. Com uma agravante: no caso dos últimos três, o amor não os salva! Se bem que cada um se salve antes do naufrágio, nos excessos próprios. É eterno o momento em que Chatov acompanha a mulher antes e após o parto, por exemplo. Uma das chaves interessantes para a compreensão do livro, aliás, está precisamente no seu título. Todos os demónios do livro pereceram à sua maneira, todos se afogaram, como os porcos do Evangelho, nos seus ideais ou nos seus sistemas de ideias. Como se esse suicídio colectivo fosse necessário, para que a Rússia se purificasse. Fica a dúvida: acreditaria Dostoievski verdadeiramente nessa regeneração ou simplesmente desacreditava dos da sua geração?

Em todo o caso, é tão poderosa a sua linguagem (ou pelo menos o significado do seu idioma) que admira que dostoievskiano não seja um adjectivo pelo menos tão popular como kafkiano. Será por ser demasiado extenso e complexo? Mas não é assim também – complexa e extensa – a vida interior e intransmissível de cada ser humano?...

PC