Um grupo de turistas americanas viaja pela Europa. Do programa consta uma visita a uma capital por dia. Quando as senhoras chegam a Paris, detectam que o que lhes aparece aos olhos já o haviam visto. O aeroporto é exactamente igual ao de Roma, as ruas são as de Hamburgo e os candeeiros de rua assemelham-se aos de Nova Iorque. Nesta cidade, cruzam-se com uma multidão de gente, na qual se conta o sr. Hulot.
Aparentemente simples no seu argumento, “Playtime” é um verdadeiro ensaio sobre o mundo moderno, onde as imagens, mais do que os diálogos, intensificam a visão crítica que Tati tinha relativamente ao deslumbramento colectivo sobre o novo.
Neste sentido, “Playtime” é um filme de planos gerais que exigem que apressemos o nosso olhar no processo de assimilação de tudo o que se vai passando na tela. Deixa-nos tontos. Tal tontura será, porventura, o principal efeito da vida moderna, feita carrossel, diz-nos Tati pelas imagens.
Gente que veste igual e se deixa, passiva e facilmente, maravilhar com o “novo” – o sr. Hulot (espécie de Chaplin a descobrir uma cidade) é uma das poucas excepções – carros estacionados do mesmo modo, utilização de palavras de origem inglesa, máquinas com mil e três botões, edifícios planos e envidraçados, eis alguns ingredientes do cenário.
Uniformidade, organização e massificação – do espaço e do homem – são, deste modo, as características fundamentais do mundo moderno que Tati aqui nos mostra e questiona. Em alguns momentos, a modernidade representada chega a significar caos, como, por exemplo, na cena onde o sr. Hulot, dentro de uma empresa demasiadamente organizada, se perde – num labirinto - quando procura um dos executivos dessa empresa.
Neste contexto, o vidro assume um papel preponderante. Símbolo excelso do modernismo, o vidro é algumas vezes personagem principal no filme. A cena que nos convida a assistir, enquanto voyeurs, ao que se passa no interior da casa do amigo de Hulot que o convida a entrar, é-nos apenas acessível através do vidro que serve de parede à casa. Ao lado, observamos, como se passássemos em frente a estas vivendas, uma outra família a ver televisão. A privacidade é, deste modo, roubada a estas pessoas pelo vidro. Tati leva aqui aos limites as «brilhantes» potencialidades do vidro e mostra-nos como este pode tornar um espaço ambíguo, ao invés de o tornar transparente. Estas imagens são, neste sentido, de uma ironia extraordinária, chegando a colocar a arquitectura moderna em causa.
No final de “Playtime”, há uma retunda repleta de carros a moverem-se lentamente. Dificilmente não haveria melhor imagem para ilustrar este novo mundo - um mundo que se quer acelerado e que é obrigado a ser prudente quando algo não funciona como desejado. E em círculo...
Tiago Carvalho
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