Se o meu pai ligasse mais ao futebol, hoje poderia ser uma estrela da bola. Mas o meu pai nunca fez muita questão de me instruir nessa área. Por exemplo, se hoje pertenço ao mesmo clube que ele, isso não se deve a qualquer insistência por parte dele, mas à coincidência de o meu melhor amigo de infância também pertencer a esse clube aquando da minha escolha. Só muito mais tarde soube que era o clube da família. Assim, a minha carreira futebolística acabou por ser mais curta que a da maioria dos portugueses (que, como se sabe, aprendem a chutar a bola enquanto aprendem a andar). Serei por isto um português anormal? Neste aspecto, não fui uma criança portuguesa típica, pelo menos. Na Escola Primária, com muito mais frequência me encontrariam a jogar ao caça ou ao ringue que à bola. Só por volta dos dez anos abandonei essas «brincadeiras de meninas» e me rendi ao desporto favorito dos portugueses. Sou, portanto, uma vocação tardia, e neste sentido, apesar de bastante regular, a minha carreira acabou por ser «fulgurante». Ainda assim, tive, como em todas as carreiras, os meus momentos de glória e os meus momentos de desaire. Recordo com saudade uns e outros. Há momentos inesquecíveis: não esqueço que ela (a minha carreira) começou praticamente com um auto-golo, num jogo de futebol-salão, e terminou comigo marcando dois golos num jogo de futebol 5! Pelo meio, houve ainda aquelas duas ocasiões em que me isolei a partir do meio-campo, em jogos de futebol 11, e falhei o golo com a baliza aberta. Aliás, a minha «fulgurante» carreira resume-se a estes momentos excepcionais; o resto foi bastante mais uniforme: aos onze anos era titular de uma das duas equipas da escola, por necessidade numérica, e sempre como última ou penúltima escolha; não fosse não ter evoluído nada em termos técnicos durante os anos seguintes, aos vinte, teria pertencido à equipa de solteiros, no torneio de solteiros-casados da minha terra, torneio em que os casados ganhavam quase sempre...

Não foi assim com todos os meus colegas. Alguns foram federados, que era coisa que dava direito a fama a nível concelhio. Ou mesmo distrital - se adregava chegarem a iniciados do Beira-Mar. João Ceboleiro, Paulinho Venezuela, Zé o Chalana-Pernas-Tortas, alguém os conhece? Pois foram alguns que de entre nós se distinguiram e tiveram o seu quinhão de notoriedade.

Quanto a mim, infelizmente, nunca estive perto de jogar «nos federados», como dizíamos. Equivale isto a dizer que nunca estive perto de envergar um equipamento completo e coerente. Camisola numerada, meias da mesma cor, descaídas, chuteiras de pitões-de-aço, caneleiras, era para uns poucos privilegiados tocados pelo destino. Eu, como a maioria, era mais sapatilhas, calças de fato-de-treino que, apesar de não querermos, cobriam as meias brancas Sport compradas pela mãe na feira, e uma T-shirt simples. Também equivale a dizer que nunca soube muito bem qual era a posição que ocupava na equipa, quando não era remetido para guarda-redes, para não estorvar. Era defesa, claro, mas nunca soube se central, se direito, se esquerdo. Equivale a dizer também que nunca conheci outra estratégia de jogo a não ser a de «todos à bola», que nunca vesti joelheiras ou luvas de guarda-redes, que nunca soube (senão muito mais tarde, quando tal já não era necessário) que se podia distrair o ponta-de-lança pondo-lhe um dedo da luva no olho-do-cu, que nunca tomei três cafés antes de um jogo. Joguei, é certo, em quase todos os tipos de piso que eles jogaram – em irregularíssimos campos pelados sem marcações, em poeirentos pavilhões de cimento sem bancadas, em campos com ervas daninhas e lama -, mas que abismo entre os nossos jogos e os deles! Basta lembrar que quando caíamos e esfolávamos os joelhos, ou ficávamos a gemer no chão devido a uma canelada do adversário, «aleijávamo-nos», enquanto eles ficavam «lesionados»! E os jogos deles tinham árbitro! Um árbitro a sé-rio, a quem se podia chamar nomes! Lembro-me até de um jogo desses em que um velho coxo entrou pelo campo de naifa em riste em direcção ao senhor de calções pretos. Foi só o prenúncio do que se seguiu: o homem do apito retido nos balneários, depois de uma corrida em que bateu o recorde dos 100 metros para fugir às agressões. Por fim, lá veio a polícia para o resgatar...

Antes de alguém ascender a tão alto escalão, contudo, era preciso distinguir-se na técnica da finta. E a técnica de alguns era tal que haver defesas ou não haver era a mesma coisa. Passavam sempre. Apenas se atrasavam um bocadinho mais com os empatas. Aliás, sempre foi essa a minha função dentro do campo, a de empata. E de tal modo assim era que não poucas vezes os melhores da minha equipa me tiravam a bola com uma finta «para não perderem tempo» e avançarem para o contra-ataque. Embora reclamasse insistentemente uma oportunidade para mostrar o que valia à frente e assim poder evoluir, tudo o que conseguia era chegar ao fim do jogo com os bofes de fora, após ter corrido que nem um doido num imenso campo de futebol 11 e ter dado dois ou três toques acidentais na bola. Como consolo havia, por vezes, a alegria da vitória para a qual em nada contribuíra. Outras, nem isso. E então tinha a tristeza da derrota da qual era culpabilizado com os demais aselhas da defesa.

Enfim. Posso ter falhado a Grande Medalha de Mérito do Português Típico, mas pelo menos não recebi o título desonroso do Português que Nunca Jogou Futebol ou que Dele Não Gosta. Tal ignomínia corresponde, como se sabe, praticamente a uma deserção, a um crime de lesa Pátria, e eu tenho orgulho de ser português. Posso não ter feito a recruta convenientemente, mas quantos, fazendo-a, chegaram a oficiais de alta patente? E quantos sargentos-federados ficaram pelo caminho na defesa das cores clubísticas ou nacionais? Por isso, não guardo qualquer rancor. E é até curioso que presentemente, quando vibro com o futebol erigido a arte, é com as fintas e a estratégia que vibro! Curioso que, quando discuto futebol no café ou na barbearia, é o espírito de equipa que celebro! Curioso que, quando me emociono positivamente com o futebol, é pelo fair-play de alguns profissionais!

(Publicado pela primeira vez no fanzine Zundap.)

Pedro Torneiro