4.
É notável a forma como a introdução do professor titular que desabitua o estudante a confrontar a pluralidade e tende a apresentar um mundo plano apenas capaz de suscitar a percepção dos mais extremados contrastes – em risco de esquecer as pequenas variações do real – se vem acrescentar à intenção de um movimento de crescimento acelerado. E tudo isto quando à Europa e à América começa a faltar para onde crescer e se arregimentam e fortalecem em uníssono as suas forças militares. Também aí está Portugal, contribuindo com homens e técnica.
Num tempo em que alguns já suspeitam de que no mundo se prepara um enorme esbanjamento de sangue, Portugal sente-se sufocar e ressurge aos olhos de todos na sua imemorial idiossincrasia, tomando para si o objectivo do crescimento, embora não podendo deixar de reconhecer o seu atraso. O problema é que o nosso País não dispõe da força necessária para crescer. Resta-lhe, portanto, a esperança de que a sua esperteza lhe permita ir sobrevivendo no enorme saco de gatos em que o mundo se tornou.
A ideia de um professor tutor parece já um indício dessa esperteza. Com isso, Portugal conseguirá mais uns tostões a médio prazo, o suficiente para que a metade superior da pirâmide social se vá satisfazendo com algum bem-estar, garantindo-se assim alguma calma. Ao mesmo tempo que procura captar investimento estrangeiro e procura abrir nichos de mercado para as empresas com participação portuguesa mais bem sucedidas em países como a Índia, forma “pessoal indiferenciado” que estará à disposição das forças económicas internacionais em expansão, retirando daí também alguns dividendos.
A ideia do professor tutor é um sinal dos nossos tempos. É preciso perscrutá-lo. Captar os múltiplos sentidos e variações deste movimento global de fundo, mesmo que para isso tenham que se chamar à reflexão os mais distintos e aparentemente desligados fenómenos. Estar disposto a fazê-lo implica reconhecer a existência como risco, aprender a arte do perigo, desafiar as certezas e estar pronto a desiludir-se se a visão que se construiu do mundo ruir como um castelo de cartas.
(Fim)
FM
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