
O dia-a-dia processa-se sem que sintamos muita necessidade de reflectir criticamente. Apesar de, passo a passo, tomarmos decisões que decidem em parte o futuro, raramente nos deixamos cansar em longas deliberações. Agimos e pronto, o que não é obrigatoriamente mau.
O problema começa quando nos sentimos convocados para tomar posição em relação a assuntos mais sérios. Em especial, quando os temas que nos apelam dizem respeito ao Homem e à sociedade, parece-nos que sabemos o que é preciso saber e espantamo-nos com o facto de existirem disciplinas como a sociologia ou a psicologia e ainda mais com a filosofia.
Opinamos quase sempre sem atendermos à avalanche que nos faz rolar montanha abaixo. Perdemos de vista o todo e acabamos por nos surpreender com as consequências daquilo que nós próprios dissemos – umas vezes por darmos conta dos absurdos que os nossos pontos de vista continham; outras vezes porque nos apercebemos tarde de mais de que partíamos de conhecimentos errados ou os perspectivámos mal; outras vezes ainda porque, sem querer, nos tornámos intolerantes e professámos o que condenaríamos se tivéssemos sido capazes de reflectir melhor.
É por isso que pensar é difícil: a crítica não se confunde com a censura negativa nem com a coerência forçada que leva a seguir uma determinada linha de pensamento mesmo quando a realidade a desmente em todos os sentidos.
Hegel, que nunca aceitou a via da crítica negativa, foi, no entanto, acusado de construir o seu sistema à revelia da realidade. Mas são suas as palavras que a seguir se reproduzem:
“Nos indivíduos, nos Estados, na condução do mundo, é mais fácil discernir os defeitos do que o verdadeiro conteúdo. Na censura negativa permanece-se com um ar altaneiro e superior sobre a coisa, sem se adentrar por ela, isto é, sem a ter compreendido, sem ter captado o que ela tem de positivo. A censura pode decerto ser fundamentada; só que é muito mais fácil descobrir o deficiente do que o substancial (...).
“É um sinal da máxima superficialidade achar por toda a parte o mau, sem aí ver nada de afirmativo e autêntico. A idade, em geral, torna-nos moderados, a juventude está sempre descontente; na velhice, o que faz tal é a maturidade do juízo, que não só consente no mau por desinteresse, mas, instruída mais profundamente pela seriedade da vida, foi encaminhada para o substancial, a solidez das coisas; não é uma benevolência, mas justiça.”
(A Razão na História – Introdução à Filosofia da História Universal)
FM

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