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Grande parte da expressão cultural ocidental teve, na segunda metade do século XX, em comum a defesa do concreto, do individual, levando a questão a um tal ponto que a própria noção de identidade, nos seus planos individual, social e político, foi desmontada em pequenas peças, por vezes tão pequenas que a própria capacidade de pensar conceptualmente ficou comprometida.

Aos poucos, percebia-se que grande parte dos chavões da Modernidade, como por exemplo os de nação, soberania, povo, civilização, etc., abriam, afinal, as portas para coisa nenhuma. Até mesmo as noções de sujeito e eu foram postas em causa.

A heterodoxia passou a poder ser contemplada como parte constitutiva de todos os domínios do saber e da actividade humanas. Isso esteve patente ao nível religioso, científico, filosófico e artístico.

No plano histórico, as tecnologias da informação e da comunicação puseram (como aliás é reconhecido no indefinido “you” a que a Time atribui o prémio de personalidade do ano) em primeira evidência a diversidade. A ideia de uma globalização em curso, com todos os perigos que lhe são apontados é disso uma outra manifestação. O assunto não poderia ser esgotado nestas poucas linhas.

Convém acrescentar que, enquanto a sociologia se tornou num campo de estudo absolutamente central para todos os outros saberes e a psicologia se abriu ao social, no plano filosófico um sem número de autores enfatizaram como nunca antes o papel do outro, agora secularizado.

Em todos os sentidos, desenvolveu-se a ideia de que a diferença é algo de fundamentalmente humano, para o bem e para o mal. O papel e a importância concedidas à socialização atravessam todos os sectores. Não apenas como saber estar ou saber ser, mas sobretudo como saber reconhecer-se nos outros e mover-se como pessoa no seio de outras pessoas.

Ao nível do nosso sistema de ensino, alguns dos enunciados que as correntes de pedagogos vão buscar à filosofia, à psicologia e à sociologia evidenciam este reconhecimento de que só na relação com o outro tomado como outro eu se pode conduzir os jovens, preparando-os para a vida futura. A ideia das turmas mistas é disso um exemplo. A negação do uso de uniformes nas escolas públicas, da ostentação de símbolos religiosos, a escolha de critérios de selecção de professores indiferentes à sua origem sócio-económica e sensibilidade religiosa, estética e política, são outras tantas ilustrações reais.

FM