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La Coctelera

a arte do perigo

«...o Jogo tem os seus perigos. Por isso precisamente é que gostamos dele, para os caminhos sem perigos mandamos só os fracos.» Hermann Hesse

19 Enero 2007

A propósito do referendo ao aborto

Convite à participação dos leitores d' A Arte do Perigo

Concorda com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, se realizada, por opção da mulher, nas primeiras dez semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado?

Hoje torna a estar no centro da discussão pública o tema do aborto. São inúmeras as questões que se colocam e a que se podem acrescentar muitas outras. No entanto, tantas questões parecem apenas contemplar duas possibilidades de resposta: ou sim ou não.

A forma como o debate volta a ser desenvolvido não está a conseguir corrigir as anteriores deficiências e a consulta pública tornará a ser alvo das mais surpreendentes tentativas de manipulação político-partidária e ideológica.

Desde logo se poderia questionar o calendário – trata-se de um momento em que a legislatura está a conduzir importantes reformas sociais, institucionais e políticas e, com isso, a provocar o descontentamento de muitas pessoas. Algumas destas pessoas vivem uma situação realmente difícil, ligada ao desemprego, à descida do poder de compra, à insegurança no emprego, à mobilidade tantas vezes imposta, etc.. Outras pessoas sentem-se atingidas nas suas expectativas ou na ameaça de redução ou supressão das prerrogativas que adquiriram na nossa História recente. Sejam quais forem os motivos das angústias de cada um, a verdade é que o País se enche de protestos um pouco por toda a parte e em quase todos os sectores. Não obstante, os principais canais de comunicação dão cada vez mais importância ao tema do referendo.

Este facto não é apenas uma imposição mediática. As pessoas, os cidadãos vulgares e anónimos estão a discutir o aborto no local de trabalho, à hora de almoço, no transporte público, na intimidade familiar. E é aí que a discussão mais se mostra capaz de gerar paixões.

É preciso perguntar o que tem este tema de tão apaixonante e o que nele leva as pessoas a deixarem-se inflamar ao ponto de, tantas vezes, manifestarem os seus pontos de vista de forma quase explosiva.

De um lado e de outro da questão, o que parece estar em causa é um impulso de defesa da vida. Os defensores do não acreditam que só eles estão a defender a vida; mas isso acontece também do lado do sim. A principal diferença está em que os primeiros se posicionam do lado da criança, e os segundos do lado da mãe. Mas ambos os pontos de vista, não obstante as constantes amputações do problema e das respectivas respostas consumadas de um lado e do outro, comportam qualquer coisa de universal. Assentam no pressuposto de que o ser humano é uma entidade digna de respeito, como diria Kant, um fim em si mesmo. Por ser irrepetível e única, cada vida humana, ou, como escrevia Hannah Arendt, porque cada nascimento representa a introdução de algo novo no mundo, o sim e o não recusam a ideia de que o ser humano pode ser legitimamente alvo de ofensas.

O não vê essa ofensa na interrupção voluntária de um projecto de vida humana já iniciado e considera o aborto uma forma de redução das pessoas ao estado de objectos utilizados para alcançar finalidades que lhes são exteriores. Para o não, é isso que acontece quando o embrião ou o feto são destruídos como meio de evitar o sofrimento, seja o do próprio feto, seja o da mãe ou qualquer outro.

Para o sim, o que está em causa é a protecção da vida na sua dignidade, posicionando-se contra o aborto clandestino, os perigos e o mercado negro que ele alimenta, e tomando como premissa que a legislação não se adequa à realidade de todas aquelas mulheres que, por qualquer motivo, não procuraram ajuda médica legal ou às quais não foi reconhecida legitimidade legal para a interrupção da gravidez; é esta a base daqueles que não admitem que a prática do aborto possa desencadear processos judiciais e condenações.

É claro que a fragilidade do sim reside no fato de ser muito difícil conciliar a ideia chave de que todos os seres humanos são em si mesmos dignos de respeito e de que, por isso mesmo, nenhuma mulher ou casal deveria ser obrigado a aceitar uma gravidez que não deseja. A fragilidade do não, ao querer aumentar o seu argumentário, é que acaba por cair, ao defender que os indivíduos devem ser protegidos graças ao seu potencial, nas críticas de redução do homem ao estado que coisa que dirige ao não, além de que mantém a sua crítica no plano dos ideais, como que pairando acima da realidade concreta.

Embora apresentem mais aspectos em comum do que aqueles que são vulgarmente reconhecidos, as duas posições são efectivamente diferentes e têm consequências diferentes. Mas poderão os Portugueses responder em consciência (mesmo ao nível político isso é apresentado como fundamental, como uma “questão de consciência”) à pergunta que lhes será feita no referendo? Ou este assunto que todos consideram tão importante que se sobrepõe nos media a tantos outros acontecimentos de relevo deverá ser abandonado aos instintos e às paixões?

Nota: é provável que no dia do referendo apenas uma pequena parcela de cidadãos se dirija às urnas e que seja a abstenção a falar mais alto; as paixões de café tendem a atenuar-se no momento do esforço. Até lá, no entanto, há ainda algum tempo para a reflexão. É possível que os media prefiram dar ênfase às polémicas emocionadas e talvez isso até seja benéfico para a nossa sociedade. Mas isso não deve anular as possibilidades de uma discussão menos apaixonada e mais tranquila.

A Arte do Perigo deixa, assim, aos seus leitores o desafio de um debate crítico acerca do aborto provocado, e convida todos aqueles que desejam apresentar uma perspectiva pessoal sobre o assunto a enviarem os seus textos para o seguinte endereço: artedoperigo@hotmail.com , a fim de aqui serem publicados e discutidos. Ou então a participar deixando aqui os seus comentários...

FM & PC

servido por artedoperigo 10 comentarios compártelo

10 comentarios · Escribe aquí tu comentario

José Eduardo Ferraz

José Eduardo Ferraz dijo

No Referendo que aí vem, irá ser-nos colocada uma questão que quanto a mim não faz sentido.
O paradoxo está a montante, visto a questão ser intencionalmente complexa e portanto desinformativa.
De facto a actual lei já permite a IVG até às 12 semanas( quando a grávida corre perigo de vida ou de lesões psíquicas graves), dilatando-se para o dobro quando se prevêem doenças graves ou malformações( podendo prolongar-se até ao fim da gravidez se o feto for inviável). A Violação também está prevista na actual lei podendo a gravidez ser interrompida até às 16 semanas.
Então o que é que está aqui em causa neste referendo senão a liberalização total. Seria o relativizar total da vida.
Mais os defensores do SIM e o próprio governo dizem que tentam defender as mulheres, que é um caso de saúde. No entanto morre uma mulher por dia de cancro do útero sem que a sua vacina seja comparticipada.
Mais, onde no meio disto tudo está o papel do Pai. Não é ouvido nem achado. É a sociedade em que vivemos, em que as relações egoístas vencem. Em que o amor o sacrifício e o altruísmo são palavras escondidas em baús da memória.

21 Enero 2007 | 09:44 PM

Sofia M

Sofia M dijo

E eu pergunto:

Concorda com a despenalização da interrupção voluntária da vida do homem do talho, do chefe das finanças, ou da cabeleireira ali do lado, se realizada, porque sim, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado?

O princípio não é praticamente o mesmo?...

A palavra ABORTO provém do latim ab-ortus, ou seja, "privação do nascimento"...

Teremos esse direito sem que haja razões sérias para tal? É que essas já vêm contempladas na Lei...por isso não estou bem a ver o que falta...Ou por exemplo uma noite bem passada com um tipo giro sem qualquer precaução é uma razão séria?... Ou o «que se lixe!» também é uma razão séria?...

Quanto a métodos contraceptivos, não me parece que haja poucos e o acesso a eles também não me parece difícil...basta ir a um centro de saúde...

O aborto será mais um... sempre o foi, mas se o sim vencer será de acesso muito mais fácil...

Com as listas de espera nos hospitais publicos , o melhor será alterar a lei para as 40 semanas....

Alguns métodos contraceptivos:
Contracepção hormonal oral (vulgarmente conhecida como pílula)
preservativo feminino (não comercializado em Portugal);
dispositivo intra-uterino (DIU);
contracepção hormonal injectável;
diafragma;
espermicida;
adesivo contraceptivo;
implantes dérmicos;
anel vaginal;
contracepção de emergência (Pílula do dia seguinte, ABORTO...)

Ainda não percebi o que pretendem...

23 Enero 2007 | 10:03 PM

Mãe

Mãe dijo

Se me perguntam se voto sim ou não, eu respondo: Voto sim à vida.

23 Enero 2007 | 11:03 PM

PC

PC dijo

Obrigado aos leitores que participaram até ao momento.

Acrescento algumas notas, que desejavelmente suscitarão polémica.

1. É verdade que a pergunta do referendo está armadilhada. Em princípio, diz-se, todos somos pela despenalização. Então, o resultado deveria ser 100% no SIM. Porém, destes 100%, alguns teriam sido enganados (os que não sabiam que estavam a votar, de facto, na liberalização do aborto), enquanto outros saberiam que estavam a liberalizá-lo. O leitor José Eduardo Ferraz chama a atenção para isto. Também o site de Marcelo Rebelo de Sousa (http://www.assimnao.org/) surge por esta razão. Mas a questão será assim tão simples? É com base na simplificação que um defensor do NÃO como o economista João César das Neves vaticina, com palavras aberrantes, que a liberalização do aborto será seguida de "uma cultura abortista, em que este passa a ser uma coisa normal, como um telemóvel". Mas as aberrações estão de ambos os lados que se digladiam. Também há defensoras do SIM que se vangloriam de terem feito vários abortos, como se isso fosse a coisa mais natural e desejável do mundo.

2. Em princípio, diz-se, todos somos pela despenalização. Mas seremos? Do lado do NÃO, quem defende que o aborto é homicídio não deveria ser consequente com o que diz? O que espera judicialmente os homicidas, não é a prisão? Com atenuantes, mas a prisão. (Muito importante: não é o que defendo!) E papel do progenitor nisto tudo? Não é parte na decisão? E quando força a mulher ao aborto, não deveria ser também condenado? E do lado do SIM, quem defende que a mulher faz o que quer do seu corpo, pode acaso dizer sem hipocrisia que o aborto é um drama? Drama para elas que o podem fazer em condições, ou para aquelas a que se referem como vítimas sociais? Neste caso, o altruísmo parece uma desculpa para a sua irresponsabilidade. Ou o acto de gerar um filho não implica qualquer responsabilidade, ou seja, cuidado pelo que se gerou?

3. Sofia M. Não vejo como a contracepção seja uma solução para este problema. Que tal solução, ou minimização do facto, passe pelo planeamento familiar e pela educação sexual (não apenas técnica, mas que inclua uma educação para os afectos) sim, já me parecem respostas mais capazes.

4. Há assuntos que gostaria de ver debatidos ou mais debatidos.

4.1 Caso vença o SIM, não se prevêem, tanto quanto sei, centros de aconselhamento dos progenitores, para mostrar que há alternativas, como a adopção ou o apoio de instituições sociais após o nascimento da criança. Isto é uma desresponsabilização do Estado, que diz garantir a Saúde Pública, mas não o apoio à «saúde privada» dos seus cidadãos.

4.2 Pouco se fala no combate às causas sociais do aborto. Caso vença o SIM, como combaterá o Estado essas causas? Criará, para além secções de aborto nos hospitais, instituições de apoio à grávida em risco?

4.3 Uma mulher que corre o risco de perder o emprego por engravidar é antes de tudo vítima da sua condição de mulher. O não exercício livre da maternidade, devido às ameaças dos empregadores, não será também crime?

Voltarei, se se justificar, com outras notas, mas para já recomendo a quem ainda não leu a leitura do texto Referendo sobre o Aborto, de Anselmo Borges (http://dn.sapo.pt/2007/01/21/opiniao/referendo_sobre_o_aborto.htm...)

24 Enero 2007 | 06:02 PM

Mariana Lx

Mariana Lx dijo

Até agora ainda não percebi a argumentação do SIM... Mas afinal, o que é que se pretende? Pensava que os argumentos pelo SIM defendidos já estavam quase todos previstos na lei!... Só se objectivo não for bem o de evitar determinadas situações. Parece-me mais que se está é a impedir o crescimento da nossa população. Em muitos dos outros países gratifica-se quem tenha filhos, aqui incentiva-se exactamente o contrário. Ora, parece-me natural que qualquer dia sejamos já uma mistura de chineses com romenos e ucranianos, do que propriamente portugueses.Se os outros povos continuam a entrar e nós não aumentarmos, o desfecho não será muito diferente disto!
Qualquer dia a nossa raça é que entra em extinção!
Defendem-se as baleias, os tubarões, o crocodilo não sei-de-onde e o piriquito chinês... e o ser Humano? Não seria lógico sermos pela preservação da nossa espécie?
Mariana

25 Enero 2007 | 04:31 PM

anonimo

anonimo dijo

Visão masculina do tema:

numa sequência de palavras, sentidos, visões paralelas.

Português é mistura faz muito e como todo ser humano em vias de extinção: com o aquecimento global talvez mais outra geração, de qualquer modo irrelevante.

Vivo neste (admirável?-mundo?-novo?) canto LATINO de lusitanas façanhas a recordar: conquista do território a sangue frio; expansão do império negreiro; a fogueira cultural jesuita; sambinha na boite do interior; e outros quadros mais recente.

Alguns apanhados, outros não; alguns julgados, outros nem tanto; alguns condenados, outros nem por isso.

Todos sofrem, principalmente o bode expiatório.
(Desde que seja democrático? Vamos a votos outra vez!)

EMOÇÃO - ACÇÃO - RAZÃO
(maldito ser social que responde por conta própria)

O mundo é melhor?
O velho vive só?
A velha informada?
O outro julga?
A outra aponta?
O homem será pai?
A mãe será mulher?
O menino tem medo?
A menina brinca?
A criança é feliz?
A vida já começou?

Haja AMOR em demasia por cada ser que chega, AMOR por cada um que parta, AMOR por todos os outros.

AMOR para todos vós.

P.S: obrigado por vossas ideias, palavras e acções.

27 Enero 2007 | 02:52 AM

João B

João B dijo

Realmente este é um assunto muito discutível, de difícil decisão. Parece-me, no entanto, que o centro da questão não será o SIM ou o Não, mas o que será feito a acompanhar a decisão que os Portugueses tomarem.

Irá existir mais educação sexual? Irão existir mais meios/centros de acompanhamento? Irão existir mais meios de apoio às grávidas? Irão existir mais meios de apoio às mulheres que abortam?

Prevenção/acção são duas questões que estão sempre na minha mente e que, feliz ou infelizmente, eu não consigo responder (especialmente olhando à cultura Portuguesa...).

E deixo como exemplo o que ouvi outro dia:
"Eu há uns anos pensava de uma forma, mas agora, escutando as minhas amigas, mães de filhas de 15 e 16 anos que já tiveram de ir a Espanha fazer abortos, penso de outra forma..."
Sem comentários...

Não sei o dia de amanhã, mas eu, garantidamente, na minha condição actual, voto pela vida e condição humana!!!

João B.

2 Febrero 2007 | 07:32 PM

Edite Q.

Edite Q. dijo

Tenho acompanhado com interesse este debate, tal como o fiz aquando do último referendo. Mais uma vez, e tal como nessa altura, faz-me imensa confusão que a discussão derive para aspectos que não constituem o cerne do problema.
Acho que a melhor forma de reflectir sobre isto é abordar o assunto da forma mais linear e terrena que nos seja possível. Senão, a malta perde-se em considerações tangenciais que não levam a nada e só servem para aumentar a desarrumação mental.
Os partidários do NÃO voltam mais uma vez à carga com questões que se prendem com a definição do conceito de Vida. Na ausência de um argumento científico, biológico, empiricamente comprovado, que nos permita afirmar com toda a certeza quando começa a Vida Humana, só posso concluir que essa questão tem obrigatoriamente que ser discutida na subjectividade do plano individual. Ora a Vida, meus amigos, está nos olhos de quem a vê e no coração de quem a sente. Em termos da psicologia individual, é uma atribuição. Dito de outra forma, um feto/embrião de 14 dias pode ser uma Vida para uma mãe que o tenha desejado, planeado ou que, pelo menos, o sinta como muito bem vindo, enquanto que, na ausência de todas estas condições, pode não ser considerado uma Vida muito para lá das 10 semanas. Assim sendo, é uma questão que só diz respeito a cada um, neste caso, a cada uma. Logo, é um ponto que não deveria estar sequer em debate.

Por falar em 10 semanas. Alguns partidários do NÃO têm questionado o estabelecimento do prazo para a IVG nas 10 semanas. Porquê 10, dizem? Porque não 15 ou 18? Não sei explicar o motivo deste prazo, é coisa que me ultrapassa, lamento a minha ignorância. Mas uma coisa vos garanto, pelas razões que acima adiantei, quanto a mim tanto me faz na medida em que passa por uma decisão da mulher, logo não é o prazo que está em causa.

Mais uma coisa que me aborrece. Tenho ouvido como argumento de alguns partidários do NÃO que a questão sob refendo nada vai fazer pelas mulheres que praticam abortos clandestinos, sabe-se lá em que condições, e que os abortos clandestinos não irão sequer diminuir. Pois, que o resultado do referendo – caso seja positivo – não terá consequências imediatas, sei eu. Um preconceito leva um segundo a nascer e eternidades para se diluir. E nós somos notáveis na manutenção de preconceitos. A mudança de mentalidades levará tempo, dará muito trabalho, terá obrigatoriamente de ser acompanhada da introdução e/ou melhoramento de uma série de infra-estruturas (educação sexual, planeamento familiar, aconselhamento, etc.). Mas será que a certeza de que os abortos clandestinos continuarão a ocorrer poderá servir como argumento para deixarmos de legislar pela possibilidade de um dia vir a acontecer o contrário? Não me parece.

Ligado a isto tudo está o argumento da preservação da dignidade da Vida humana. Aqui, mais uma vez, fico confusa. Como podemos nós pretender preservar a dignidade de quem – ou de algo – que ainda cá não, está em detrimento da dignidade, do livre arbítrio, da liberdade a todos os níveis, de quem já cá anda? Eu sou pela protecção da Vida e pela preservação da dignidade, mas em primeiro lugar das mulheres, na certeza que só elas, cada uma delas, terá uma palavra a dizer sobre o seu corpo, as suas opções, as razões que as fundamentam, enfim, sobre a sua Vida que, volto a reforçar, só a elas diz respeito. Na minha opinião, a única forma de preservar a dignidade de alguém – ou algo, repito – que ainda não nasceu, passa precisamente pelo direito a optar por não levar a termo uma gravidez indesejada. Digo eu.

Por último, deixemos por um minuto de lado os casos das mulheres de poucos recursos, de baixos níveis socio-económicos, que praticam abortos em condições indescritíveis, muitos deles com tremendas consequências para a sua saúde, podendo inclusivamente comprometer a possibilidade de uma gravidez futura ou a própria Vida. Falemos agora das mulheres que tiveram acesso a uma educação – académica e sexual –, que têm alguns, ou muitos, recursos económicos, que são sexualmente activas, que estão plenamente informadas e que, em consciência, utilizam um qualquer contraceptivo para prevenir uma gravidez indesejada. Ora como toda a gente sabe, não existe por enquanto no mercado nenhum contraceptivo que possamos dizer que é 100% seguro. No caso de uma falha na eficácia de algum destes métodos, no contexto da sua correcta utilização, que tenha como consequência uma gravidez indesejada, não terão estas mulheres o direito a decidir se querem ou não levá-la em diante? EU sou uma destas mulheres. Ninguém me venha convencer que eu não teria uma palavra – a palavra – a dizer. Ou então, assuma-se que só devemos ter relações sexuais com a finalidade de procriar, como o fez o deputado do CDS João Morgado (no debate de 1982, sobre a legalização do aborto) – "O acto sexual é para ter filhos". E convido-vos a ler ou a reler (no final) a resposta de Natália Correia :)

Por último, a pergunta. Enfim, a pergunta do referendo pode eventualmente não ser a mais objectiva, pode levantar dúvidas, pode até gerar o que os ‘Gatos Fedorentos’ chamariam ‘problemas derivados da questão’ (de facto, até penso que os gera). Mas o que está em causa na pergunta, a meu ver, é só isto: Quer ou não quer o eleitorado português criar condições para acabar com o aborto clandestino? Eu quero.

Bom. Por tudo isto e mais alguma coisa, voto SIM.
Edite Q.

-------------------------------------------------

Já que o coito - diz Morgado -
tem como fim cristalino,
preciso e imaculado
fazer menina ou menino;
e cada vez que o varão
sexual petisco manduca,
temos na procriação
prova de que houve truca-truca.
Sendo pai só de um rebento,
lógica é a conclusão
de que o viril instrumento
só usou - parca ração! -
uma vez. E se a função
faz o orgão - diz o ditado -
consumada essa excepção,
ficou capado o Morgado.

NATÁLIA CORREIA

4 Febrero 2007 | 07:14 PM

anónima

anónima dijo

Na verdade, quanto mais se discute mais haverá a discutir...o assunto encerra sempre as mesmas questões.
Também sou pelo sim à vida, mas de quem? Já algum de vós teve uma amiga quase a morrer devido a uma interrupção da gravidez mal feita? Pois. O que chamam feto que ainda não o é deixa de ter qualquer relevância. A vida da minha amiga estava por um fio! Logo não era uma vida mas duas...
Minha opinião: cada um deve decidir por si próprio e ninguém deve interferir. Cada um é dono do seu próprio corpo. Entre o casal muitas vezes é o pai que decide, não só a mãe.
Minha sugestão: fazer como no resto da europa (menos na irlanda), a mulher decide até às 12 semanas de gravidez sem ter que apresentar nenhuma justificação.
Fim da humanidade? Isto não é nenhuma justificação! Nós já somos demais e andamos a destruir a nossa TERRA!!!

7 Febrero 2007 | 11:07 PM

ricardo vaz trindade

ricardo vaz trindade dijo

Sei que já passou esta história do aborto, o último comentário vem de 7 de fevereiro. Posto o refernedo fechou-se a gaveta, agora deve-se falar, sei lá, a OPA também já foi, então, talvez o Benfica, como último reduto da conversa portuguesa.
Agora num registo mais sério.
Foram caminhos diagonais que me trouxeram a este blog e, como a discussão sobre o aborto está longe de ser consensual, embora o parlamento a vá consensualizar num decreto-lei, não me parece mal continuar. E continuo porque vi muita gente com argumentos válidos, mas um deles continua a parecer-me tão legítimo como disparatado, como antes me parecia. Essa ideia de que cada grávida faz o que quer com o corpo parece-me ser de fácil reivindicação. Nada contra. Mas então digo eu, queres fazer um aborto? Pois bem, fá-lo. Vá. [tempo] Então? [tempo] Estás à espera de quê? [mais tempo, a mulher não se atira da escada abaixo] Anda, vá.
Pois, não me parece que seja esse a finalidade de quem exige ser dona do seu corpinho. Porque ao fim ao cabo, queremos um médico, uma maca, umas enfermeiras simpáticas, um preço acessível, higiene!! [ai se não está tudo a brilhar!], queremos segurança emocional e segurança social, e depois, se a coisa corre para o torto [ainda assim], até queremos um tribunal que meta o Dr. no xilindró [às tantas alegamos que nos matou o menino] e nos dê uma boa maquia para arranjar o desarranjo. Sabe-se lá o que queremos mais. Parece-me então esse argumento da propriedade sobre o corpo uma questão demasiado hermética, porque o nosso corpo, como a nossa mente tem responsabilidades sobre e na sociedadezinha em que vivemos, em que não escolhemos viver, está certo, mas da qual também nos vamos aproveitando sempre que calha. Portanto, revogue-se essa argumentação, a meu ver, falsa. Porque se levanta com ela a questão da liberdade, que é um assunto bem longo e demorado. E assim, resumindo, fica a ideia de que realmente o aborto é uma questão pessoal, sim, mas sobretudo social: o filho daquela mulher toca-nos a TODOS, somos todos um pouco responsáveis por ele, pela sua psique e pelo seu corpo.
Mas desengane-se quem pensou até aqui, que eu defendo o Não. Defendi e defendo o Sim. Não porque me pareça bem, parece-me obviamente mal, o aborto. Sim, pela mesma razão que ouvi, um dia, alguém na defesa da liberalização das drogas leves. Sim, porque a situação actual é má, pelas razões invocadas em todo o lado e aqui também. E se está mal tem que mudar. Concerteza que não mudará de mal para bem. Mas decerto que mudará para melhor.
Abraços

8 Marzo 2007 | 08:20 PM

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