Continuamos à procura da nossa verdade interior, o nosso instante. Não aquele da fama pop, mas sob a plástica do quotidiano, algures junto ao horror magmático que nos corre nas veias. Perguntava Freud de que serviriam os interditos se os objectos sobre os quais recaem não fossem secreta e intensamente desejados: ao rasgar-se, a vida guincha, mas a festa atinge o auge. Logo depois, o banquete. Platão via nele a ocasião de uma elevação ao amor ideal. Mas é em redor da concreta carne do animal que a embriaguez conduz o tango. Beijos com navalhadas, chouriços e gargalhadas. Baixamos à Terra. 108000 km por cada hora em tono do Sol; 1600 km por segundo em torno do eixo terrestre. Por trás do ruído que a Pitágoras parecia música de esferas (mas que qualquer pândego perceberia imediatamente não passar de cacofonia), nada para além de silêncio. A linguagem da carne é surda como água que ferve e derrama, e propaga-se como as ondas e as serpentes. O porco morre para dar lugar ao humano. Mas nada está limpo por muito tempo. A sujidade pertence-nos, como pertencem o sangue e os excrementos, isto é, como o que recusa pertencer-nos e se ri de nós. É esse outro lado de nós que nunca abandonou verdadeiramente os nossos pesadelos que nos confronta na violência da morte. Mas é também aí que nos reencontramos, muito antes de os deuses nos terem separado uns dos outros, quando o oceano era ainda uma mesma onda e a serpente era ainda ovo, antes de Babel, enquanto dançávamos como se fossemos um só corpo e a água não se evaporara do fogo, antes da expulsão do paraíso e antes da era da saudade. Chegou o tempo de erguer as taças e brindar ao ano do porco. Depois matamo-lo, como sempre o fizemos. Generosamente, o sangue corre. Há que oferecê-lo à sede, antes que torne a coagular.

FM

Foto: Ricardo Lima