Impressões de leitura, 1
Carlota Joaquina, a rainha que amou de mais, Alexandre Honrado, Guerra e Paz Editores, 2006. 1. Apreciei, e muito, o humor e a ironia deste livro - e sobretudo o modo como estes funcionam enquanto órgãos eficazes para as viagens que o autor efectua no tempo ao longo do volume: passado e presente iluminando-se mutuamente, com uma luz clarividente, quase sempre crítica, por vezes crua. Não será esta uma das menores virtudes do livro: pensar o humano, através do pensamento da História. Com uma mais-valia: consegui-lo de forma leve, atractiva, num estilo ágil e despretensioso.
2. Outro aspecto que realço positivamente é o informação útil que fornece a quem não conhece suficientemente esse período fascinante da História de Portugal, repleto de mudanças e convulsões. Sem exageros: compreendo hoje melhor o país actual, graças à leitura de Carlota Joaquina, a rainha que amou de mais, de Alexandre Honrado.
3. E depois há pormenores deliciosos no livro. Se a História está cheia de
homens de visão deslocados do seu tempo ou de conhecimentos desperdiçados que apontam um futuro de maior humanidade (não falo, obviamente, das máquinas de guerra de Leonardo), o que se divulga na página 37, quando o autor se refere à amamentação, é exemplo acabado disso. Aí se colocam os nomes de Francisco José de Almeida e de Francisco de Melo Franco, justamente, ao lado de Jean-Jacques Rousseau, autores de uma obra com o mesmo nome - Tratado da educação física dos meninos -, na qual defendem que a criança recém-nascida devem mamar da mãe e que é a mesma que os deve criar. Isto surge no contexto histórico de rainhas que não amamentavam os seus filhos, mas vai ao encontro da puericultura mais moderna.
4. Confesso: na sombra da História é uma ideia que me persegue obsessivamente. Mesmo quando se trata de figuras históricas (as únicas de que conhecemos alguma coisa, de resto), como é o caso de Carlota Joaquina, que se destacaram por feitos ou Fado do imenso anonimato dos defuntos da História. No que a isso diz respeito, a frase que o autor cita do seu amigo José Júlio Gonçalves - «os seres humanos, vistos de perto, são mesmo muito diferentes e normalmente mais atraentes.» - é lapidar. Não fosse o objectivo principal desta biografia a desmistificação da figura de Carlota Joaquina - que, afinal, não foi a «bruxa» que as várias histórias, anedotas, lendas e Histórias quiseram fazer crer...
PC
