Filosofia e Felicidade
Introdução, 1
Todos os seres humanos desejam tornar-se felizes. Ser feliz é uma experiência de que ninguém se farta ou uma ambição de que não é possível desistir sem que imediatamente se perca o sentido e a vontade de viver. É uma exigência intemporal mas histórica, universal mas concretizada no particular, ousada mas imprescindível. Uma exigência audível nos mais diversos registos, épocas, lugares, contextos. Está presente na consciência de cada um, em casa, na rua, no trabalho, no lazer, na política, na economia, na ciência, na religião, na filosofia. Dela se ocupam ainda o poeta, o artista, o bobo e muitos outros humanos criativos, abraçando-a cada um de seu modo, acariciando-a cada um como pode, sabe e sente. A procura da felicidade pode descobrir-se nas ruínas escavadas pelos arqueólogos em cada projecto humano que a poeira dos tempos inumou. Em cada expectativa, preferência, ou princípio; em cada motivo, em cada moção, em cada decisão, em cada acção. Ela está ainda, como a sombra que apenas surge com a luz para a desenganar, na miséria, na pobreza, no sofrimento, no crime e na morte. Ela é o açúcar do sal da vida, tornada urgente pela função do contra-gosto, da resistência, do obstáculo; está no vento que insufla a vela da embarcação em que cada um navega, ora como ameaça de tormenta, ora como esperança de horizonte. Procurá-la é, por isso, um grito de humanidade, a afirmação de um querer que não consente tudo aquilo que lhe acontece, uma recusa inesperada ao cativeiro da necessidade zoológica.
FM
