Introdução, 2

Se um extra-terrestre visitasse este nosso planeta, após séculos de observação da vida humana numa nave espacial, vindo a deparar-se com o que foi dito no texto anterior, ficaria perplexo. Como é que é possível – talvez pensasse – que a procura da felicidade esteja presente em todos os aspectos da vida humana? Aquilo que eu vejo é uma sequência interminável de calamidades, ofensas e agressões. Guerras, perseguições, torturas, crimes, injustiças para todos os gostos! Violência entre pais e filhos, homens e mulheres, povos e Estados. Repressões, escravaturas, genocídios. Fome e doença e lixo, de um lado; excesso e luxo do outro. Instrumentos de destruição massiva cada vez mais aperfeiçoados e infalíveis. Políticas ambientais suicidárias, elevação de muros e cortinas de arame farpado entre países. Bancos invernais de jardim cobertos de sonhos em lençol de papel de jornal. Idosos abandonados como cães nas férias… Procura da felicidade? – perguntaria com uma certa ironia.
O nosso visitante extra-terrestre teria ainda muito mais com que se espantar. De facto, visto por fora, o nosso mundo parece ser completamente indiferente à procura da felicidade e até um pouco hostil à mesma. Mas as coisas vistas por dentro são muito diferentes. Bastaria que um pedaço de vida humana houvesse no interior deste visitante para que imediatamente sentisse como a felicidade é importante. Como qualquer humano dotado de um mínimo de inteligência e afectos, não deixaria de fazer aquelas mesmas perguntas. Somente deixaria de considerar o tema com a frieza do repórter que fotografa aquilo que se vê sem se sentir.

FM