Introdução, 2
Se um extra-terrestre visitasse este nosso planeta, após séculos de observação da vida humana numa nave espacial, vindo a deparar-se com o que foi dito no texto anterior, ficaria perplexo. Como é que é possível – talvez pensasse – que a procura da felicidade esteja presente em todos os aspectos da vida humana? Aquilo que eu vejo é uma sequência interminável de calamidades, ofensas e agressões. Guerras, perseguições, torturas, crimes, injustiças para todos os gostos! Violência entre pais e filhos, homens e mulheres, povos e Estados. Repressões, escravaturas, genocídios. Fome e doença e lixo, de um lado; excesso e luxo do outro. Instrumentos de destruição massiva cada vez mais aperfeiçoados e infalíveis. Políticas ambientais suicidárias, elevação de muros e cortinas de arame farpado entre países. Bancos invernais de jardim cobertos de sonhos em lençol de papel de jornal. Idosos abandonados como cães nas férias… Procura da felicidade? – perguntaria com uma certa ironia.
O nosso visitante extra-terrestre teria ainda muito mais com que se espantar. De facto, visto por fora, o nosso mundo parece ser completamente indiferente à procura da felicidade e até um pouco hostil à mesma. Mas as coisas vistas por dentro são muito diferentes. Bastaria que um pedaço de vida humana houvesse no interior deste visitante para que imediatamente sentisse como a felicidade é importante. Como qualquer humano dotado de um mínimo de inteligência e afectos, não deixaria de fazer aquelas mesmas perguntas. Somente deixaria de considerar o tema com a frieza do repórter que fotografa aquilo que se vê sem se sentir.
FM

Filipe, não creio que um extra-terrestre com o mínimo de senso pudesse passar assim tanto tempo a observar o nosso planeta sem correr sério risco de se entediar. A nossa história é assim um pouco para o repetitiva, no que concerne à proliferação do terror.
Não deixa de ser curioso a tua antropomorfização da criatura imaginada, um pouco de humanidade no "bicho" e eis que se abrem às portas à compreensão.
Não interessa aqui a ingenuidade que subjaz toda a questão, o importante será a tua reflexão relativamente a essa tendência tão humana de tudo humanizar...aproveito para esclarecer que não fiz o mesmo, logo no início do comentário, quando falo de senso, nao falo necessariamente do nosso e relativamente ao tédio porventura sentido, parte da convicção que tal estado não é exclusivo à nossa condição.
Fiquei com curiosidade em saber qual o entendimento que tens relativamente à felicidade, mas a aproximação do conceito à Filosofia, levanta-me as maiores dúvidas, isto claro na sua dimensão individual.
Um abraço Filipe e votos para dias felizes.
Parabéns pelo blog!
Fly
Fly:
Obrigado pelo comentário à secção 2 da Introdução do artigo “Filosofia e Felicidade”.
A figura do extra-terrestre é um recurso estilístico obviamente muito limitado para apresentar um ponto de vista que, formulado abstractamente, ganharia outro rigor. Vista de fora, a História da nossa existência tem qualquer coisa de paradoxal, talvez os Gregos lhe chamassem trágico. Sejam quais forem as atrocidades que os homens cometem, estou em crer (é uma fé, chamemos-lhe assim), nunca andam muito longe de um desejo de felicidade. É evidente que uso este termo na mais lata das acepções, antes de qualquer determinação que a venha a situar nos planos estético, ético, político, religioso ou a tome na esfera individual, interpessoal, social, inter-estadual ou global, e antes, portanto de ser insuflada de conteúdo. Não é meu objectivo, ao longo do artigo (que contará ainda com muitas mais secções) definir a noção de felicidade. Tampouco me atreveria a propor que a Filosofia deva estar ao serviço de qualquer procura de felicidade. Fico-me pela defesa da perspectiva de que a Filosofia implica o exercício de competências que podem ser úteis para a clarificação do projecto de vida de cada indivíduo, oferecendo-lhe, com isso, a possibilidade de reflectir acerca do que poderá significar para si mesmo a felicidade e dos meios de a procurar. A compreensão de que o “bicho” se torna capaz não tem aqui qualquer orientação ética e muito menos moral. Somente cada um de nós sabe como vive interiormente as suas guerras. É aí que aparece a questão da felicidade como urgência (deste ponto de vista, a ética é já qualquer coisa de “exterior”, “objectal”). As éticas mais severas são as primeiras a partir deste ponto essencial de que ela (a sede de felicidade) move cada um de nós. Em geral, são os heróis, os santos e os mártires aqueles que mais resistem à vontade de felicidade. Mas, se se realizam nessa resistência, então já é difícil perceber que tipo de resistência é essa. Além disso, se acabam por ser tomados como exemplos de vida pelas multidões, é porque são glorificados, o que mostra que aqueles que os imitam desejam pelo menos uma parte de tal glória.
Um abraço também para ti. Aguardo novas intervenções. São elas que enriquecem e dão sentido ao projecto da Arte do Perigo.
FM
Já passa da meia noite e encontrou-me em frente ao computador a pensar nas tuas palavras. Imprimes no texto, uma densidade filosófica, que não posso nem pretendo desenvolver.Há muito que o divórcio entre mim e a Filosofia se estabeleceu e pelo menos essa guerra está terminada.
A perspectiva de que a Filosofia implica o exercício de competências que podem ser úteis para a clarificação do projecto de vida de uma pessoa, é sem dúvida, uma perspectiva acertada, para mais, porque não cais no embuste, de a pôr ao serviço de qualquer arquétipo de felicidade.
Aparte as grandes loucuras da história humana, nao me parece que a tua crença no desejo de felicidade, seja uma ideia desapropriada de sentido, muito pelo contrário, descortino coerência relativamente a essa aspiração.
Creio contudo que ao aproximarmos a Filosofia ao conceito de Felicidade, de um certo modo, caímos necessariamente numa aporia.
Não podemos levar a sério a " felicidade" dos ignaros, é por natureza uma felicidade parva, impeditiva de percorrer um caminho para alguma coisa minimamente bela da vida.
Neste sentido, creio que a vivência de momentos felizes e de uma aproximação à felicidade, só é possível, por intermédio do conhecimento e de preferência, de uma reflexão sobre o que conhecemos e por isso podemos eventualmente compreender.
Afectada pelo conhecimento, pela reflexão, por uma eventual compreensão, a felicidade humana é sempre inquieta, incómoda, por vezes importuna, quanto mais não seja, por uma questão de pudor.
Por agora termino.
Um abraço.
Fly