No que a ambiente diz respeito há já irreversíveis. Neste limiar, o desejo de um bom ano de 2007 deveria conter necessariamente o compromisso mundial pela cessação dos disparates cometidos até aqui e a tentativa de remediar o remediável. Como texto de abertura deste ano, deixo um texto que publiquei na revista Outras Ideias da Universidade de Aveiro há meia dúzia de anos, mas cujo conteúdo está ainda mais actual que na época.
Ei-lo de novo, o título [o título a que se refere o texto era o do artigo: A Oportunidade do Perigo], a cabeça da serpente textual, sempre pérfido para quem escuta, sempre ruinoso para quem diz: esfíngico. Aí, o enigma e o destino conspiram. (Foi assim com o pai delas, Édipo; será assim com elas?) Este título, porém, é de natureza ainda mais enigmática e paradoxal. O duplo genitivo, essa cabeça de Jano, aponta duas direcções opostas: a do perigo que aproveita o ensejo da falta de cautela para cumprir ameaças; a da salvação que o perigo faculta a quem está atento. Em torno da escrita, a epígrafe [o texto tinha como epígrafe a conhecida apóstrofe de Hölderlin: «Lá, onde está o perigo, está também a salvação»] faz uma aposta pascaliana nesta última direcção – mas não será insensato esquecer o outro sentido que os olhos de Jano também fixam?
Vejo duas irmãs que falam. As filhas do malogrado rei. Vêm dos lados do Palá-cio Real de Tebas. Uma é a face da docilidade e da prudência; a outra, a face da indignação e do desafio. Só à passagem dos transeuntes disfarçam – e mal: na primeira estampa-se a aflição, na segunda permanece a tenacidade.
Antígona, a indómita, recusa-se a aceitar o édito que a proíbe de enterrar o irmão morto às mãos do outro irmão; Ismene, a prudente, lembra o sinistro fim para tal desobediência. Embora não pareça, ambas conhecem o cuidado. Mas são duas as atitudes. A da primeira fá-la desabafar: «Deixá-lo assim, não carpido, o insepulto, doce tesouro à mercê das aves de rapina que espiam nas alturas, ávidas de sustento!» A da segunda, dizer: «Pensa no ignominioso fim que nos espera, se violarmos o que está prescrito, se transgredirmos a vontade dos que nos governam; que me perdoem os nossos mortos, mas quanto a mim penso obedecer às autoridades.»
Também parecem ser duas as atitudes que estas duas palavras expressam: a do Livro do Génesis, quando se ordena: «Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a; dominai sobre os peixes do mar, as aves do céu e todos os animais que rastejam sobre a terra» (1, 28); a do Tao Te King de Lao Tsé, quando se adverte: «Quem procura modificar o mundo, vejo, não o conseguirá. O mundo, vaso espiritual segundo um crítico, evocação de algo muito frágil, imprevisível e terrível, não pode ser modificado. Quem o modela, destruí-lo-à. Quem o possui, perdê-lo-à.» (XXIX). Sim, os exegetas conciliadores, os teólogos diplomatas e a ortodoxia sempre justificativa, falaram em co-criação, invocando a bela imagem da tradição javista do homem como jardineiro do Éden. Mas, quer se queira quer não, a palavra tinha sementes do progresso que nos conduziu à quebra do «vaso espiritual» de que nos fala o livro dos taoistas. Porque «submeter» e «dominar» não são propriamente sinónimos de «cuidado». Aliás, o aviso é dado ainda no Génesis. Há um sinal que aponta para a hipótese de que, depois do Dilúvio, as relações entre o homem e a natureza pioraram: «Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra», diz-se de novo; mas acrescenta-se: «Sede o medo e o pavor de todos os animais da terra e de todas as aves do céu, como de tudo o que rasteja sobre a terra e de todos os peixes do mar: entrego-os ao vosso poder» (9,1).
Obviamente, não interessará aqui discutir «o verdadeiro espírito do texto» (que não existe em texto algum), mas sim as repercussões que a tradução de palavras como estas tiveram no Ocidente. Porque, se é certo que, na História do homem, não vai longe o tempo em que ele era ainda um «jardineiro» (dois séculos é o tempo que o Dilúvio tem) ou pelo menos não interferia na Natureza ao ponto de a desequilibrar, também não é menos verdade que, assim que atingiu um determinado grau técnico e tecnológico, pôs em causa a continuidade da vida sobre a Terra e a sua própria sobrevivência. No entanto, os seis mil milhões de habitantes que presentemente somos e os cerca de onze mil milhões que se prevê que sejamos em 2050 – com tudo o que isso implica em termos de recursos e organização social –, é um número que nos impede também de sonhar um ponto de retorno. Apesar da sabedoria ecologicamente fértil das palavras de Lao Tsé, seria ingenuidade romântica desejá-lo ainda. Seria escusado dizê-lo: uma sociedade puramente recolectora é coisa que nos está vedada para sempre. Digamo-lo, contudo, para que, na contraluz, melhor se definam os traços do seguinte quadro factual: 1. modificámos o íntimo da matéria: a cisão e a fusão do átomo e consequente energia atómica. 2. podemos manipular a matéria ao nível genético: a clonagem, os trangénicos. 3. ferimos de morte o planeta: o esgotamento dos recursos naturais, as catástrofes ecológicas, o «buraco do ozono», o excessivo índice de CO2 na atmosfera, o aniquilamento da biodiversidade vegetal e animal, a criação de resíduos tóxicos e de desperdício não reconvertível. Também seria escusado dizer: o homem tal como o conhecemos no século XIX desapareceu. Diga-mo-lo, contudo, para que sejam mais claros os traços doutro quadro factual: 1. a população humana cresceu assustadoramente: as novas doenças provocadas pelo urbanismo, os problemas sociais e a insegurança nascidos da falta de espaço 2. o poder económico suplantou o político: as novas formas de colonialismo, a tirania económica das multinacionais e das transnacionais, o fascismo publicitário, o aumento do fosso económico e dos níveis da qualidade de vida entre o Norte e o Sul. 3. criámos novas e ambíguas formas de comunicar e de ser com os outros: a rádio, os directos em televisão, o computador pessoal, a internet, o telemóvel, a realidade virtual.
Impõe-se, então, não pensar nestes exemplos de forma saudosista ou maniqueísta. Mas, diante destes quadros, é impossível ignorar que a partir de agora todos os gestos se tornam graves, porque «de longo alcance». Como o de Antígona, a audaciosa; como o da inércia de Ismene, que por isso perdeu a irmã e os seus (nós diríamos: «os nossos filhos que nos perdoem», mas não se pode perdoar o irreversível!); como o de Creonte, que já não pode voltar atrás na sua decisão de enterrar viva Antígona. Hans Jonas fala da ética da responsabilidade: temos responsabilidade perante as gerações futuras pelo mundo que lhes deixarmos; Hans Kung e outros falam de uma ética global: os problemas têm de ser pensados e resolvidos globalmente, assegurando o respeito pela diferença. Mas o que nos dá hoje esta lucidez é a iminência do perigo de podermos soçobrar. É a oportunidade que o perigo nos oferece, caso estejamos atentos.
Como sobreviver – e com alguma qualidade de vida – é a questão que se põe. Porque, apesar de ser uma pena a aniquilação da vida sobre a Terra, não é a Terra que precisa de nós, somos nós que precisamos dela. No seu sábio equilíbrio de ciclos (mesmo quando é cruel e mata uns filhos para alimentar outros) a Mãe-Natureza cuida. Daí se revelar sonsa e de mau-gosto a iconografia que representa mãos humanas em sinal de protecção à Terra. Se esse é um cuidado, é o cuidado da má-consciência, do remorso de Creonte. Porque essas mãos estão tingidas dos crimes cometidos contra quem agora protegem. E digo «quem», porque se trata de uma «pessoa»: a pessoa donde vimos. Agredir a Terra é um esquizofrénico suicídio. Serão pois, essas mãos, mãos que protegem o planeta de mãos humanas? Tenhamos ao menos a má-consciência? Em todo o caso, é uma emenda – não o esqueçamos –, um recomeço pós-diluviano, não um génesis. E quanto ao cuidado que alguns homens arvoram ter por outros... todo o cuidado é pouco: são os mesmos que largam bombas atómicas, os mesmos que compram cotas de poluição a países pobres, os mesmos que exploram a crendice, as emoções, a ignorância e a boa-fé, os mesmos que falam em nome de Deus, para de consciência tranquila revelarem a sua vontade mesquinha e tirana, os mesmos que, os mesmos que...
Estamos diante do abismo. Daremos oportunidade ao perigo ou permaneceremos atentos? Prontos para o suicídio colectivo ou para a criatividade salvífica? Os poetas exortam-nos neste sentido. Saint-John Perse fala assim: «De forma alguma as civilizações que amadurecem morrem das angústias de um outono, limitam-se a mudar. Só a inércia é ameaçadora. Poeta é o que rompe em nossa intenção o hábito. E assim é que o poeta, sem querer, também se vê ligado ao acontecimento histórico. E no drama do seu tempo nada lhe é estranho. Que a todos claramente fale do gosto de viver este tempo forte! Porque a hora é grande e nova, com muito de novo onde nos agarrarmos.»
E Hölderlin outra vez nos conforta: « ...e de novo um ano da nossa alma começa!»
PC
Escribe un comentario
Los comentarios están cerrados