Dino Vitallico escreve que “o tango não é apenas um ritmo de dança. É toda uma filosofia de vida” – filosofia germinada a partir do desenraizamento, do estranhamento, a experiência daquele que se sente estrangeiro onde quer que esteja. Expressão de uma nostalgia de uma origem perdida e irrecuperável, veiculada pelas agridoces melodias do bandoneon, instrumento, supõe-se, criado pelo alemão Heinrich Band – curiosa metáfora histórica da questão da identidade!
O autor desta missa – certas metáforas tendem a concretizar-se da forma mais surpreendente – é de origem judia e inevitavelmente marcado pela experiência histórica da diáspora, da nostalgia do paraíso perdido, da esperança sempre adiada de um regresso a casa. Obteve o Óscar de melhor banda sonora em “O Carteiro de Pablo Neruda”, realizado em 1994 por Michael Radford.
Missa Tango, obra de 1997, traduz também a experiência do desenraizamento e da estranheza, o que é, desde logo, evidente no título da obra, no qual se conjugam a solenidade espiritual cristã e a sedução sensual própria da sonoridade do tango. Além disso, é a dança que é chamada ao templo divino, após séculos de afastamento do cristianismo. Mas a estranheza é ainda associada à própria vida, o que Bacalov expressa ao optar por um texto em espanhol, um espanhol das periferias, a língua viva que é falada na Argentina. Não segue à risca, além disso, a estrutura definida pelo Concílio Vaticano II, preferindo, antes, enfatizar, como o próprio escrevia em 1999, “a participação de pessoas que não tenham necessariamente as mesmas crenças, sublinhando os aspectos de Deus que são comuns a cristãos, judeus e muçulmanos”.
É uma peça de que é difícil uma pessoa desligar-se (ouvir excertos aqui). Os cerca de trinta minutos da sua duração parecem converter-se, ao longo da audição, num instante de abertura à eternidade. Eternidade, contudo, que apenas se deseja que termine para que se possa partilhar toda a beleza que dela se colheu com o resto da humanidade.
Com o próprio Luís Bacalov ao piano, Héctor Ulisses Passarella no bandoneon e as vozes de Plácido Domingo(tenor) e Ana Maria Martinez (mezzo-soprano), com o Coro e Orquestra da Academia Nacional de Santa Cecília, dirigida pelo maestro Myung-Whung Chung, e com a etiqueta da Deutsche Gramofone, é uma daquelas gravações que, certamente, muitos ouvintes gostariam de incluir na banda sonora das suas próprias vidas.
Como corolário do cd, Bacalov presenteia-nos ainda com um tango (“Tangosaín”) de sua autoria e com duas orquestrações magistrais de “Adiós Nonimo” e “Libertango”, do inesquecível Astor Piazzolla.
FM
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