Estamos incluídos no movimento que os nossos sentidos percebem e os nossos juízos valoram. Aquilo que percebemos é o valor que lhe damos a partir das nossas próprias deslocações no interior desse movimento com o qual não coincidimos embora com ele prossigamos. A esta forma de trazer o mundo nas plantas dos pés pode chamar-se andamento. Ou, noutro sentido, desencontro. A experiência do mundo e de si próprio é o lugar imaginário que substantiva as nossas aspirações de imobilidade e domínio. Quando a imagem que formamos da circunstância em apreço nos aproxima do cumprimento das exigências que nos reconhecemos a nós próprios, o mais comum é nem sequer disso apercebermos. Frequentemente, porém, em algum grau, o agrado é a tonalidade mais óbvia com que tais representações se assomam. Diz Schopenhauer que o prazer é a ausência da dor e que só por contraste lhe damos valor. Não pretendendo refutá-lo, apontaria, no entanto, que, mesmo assim, se formaram palavras que dão a entender que até mesmo esse vazio seria possível desejar que se fixasse de uma vez por todas. Desde a banal "refeição", que paralisa a corrente do tempo e da acção que luta contra a falta dolorosa de alimento, ao "beijo", espécie de imaginário templo no interior do qual todas as insuficiências que levam os pecadores a sentirem-se abandonados por deus parecem ter sido suspensas, permitindo-lhes a condição de amantes - quantos são os sinais de uma imposição à partida derrotada da medida do passo humano à existência? E ainda que do lado de lá da dor mais não haja do que o "tédio" - como não vislumbrar aí mes-mo a contradição do desencontro entre o correr do tempo e a representação cristalizada de que tudo se repete e nada é digno de atenção. De qualquer forma, parece ainda possí-vel falar de certos instantes em que todo o valor do tempo se condensa numa gotícula de eternidade. Mas, justamente porque ver uma imagem implica a acção e o tempo em que a mesma decorre, o instante é uma espécie de estátua coberta com um pano. Um pano que esconde o invisível e mostra um corpo incapaz de se consubstanciar. O beijo, o riso, a lágrima, o poema, o orgasmo, a morte, podem muito bem ser exemplos de palavras que procuram esculpir esta mesma ideia. Andamento e desencontro são como ondas de algum modo pintadas pelo movimento de um barco prestes a precipitar-se nas profundezas da maré. Mas a música das águas é impossível de escrever e a própria profundidade se decidirá ora em pés ora em braçadas. A ideia de valor ligada à de tempo tem, pois, o aspecto duplamente curioso de uma engenharia incapaz de ligar a porca ao para-fuso e de, apesar de tudo, emaranhar uma rede tão estruturada que dela nenhum humano sai vivo.
FM
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