1.

A situação é esta: vivemos um tempo de becos. Acreditar neles é suicidário, e suicidária a evasão para antigas ou novas Utopias. E, no entanto, não nos resta senão optar entre resignar e apodrecer ou agir ao encontro de uma saída. Como resignar é outra forma de suicídio, resta-nos resistir: seja a escavar um túnel, a lançar uma corda para o telhado, a furar paredes, a descobrir alçapões. «Descobrir alçapões» é bem a metáfora que convém à tarefa a que nos propomos. Através do humor, da imaginação artística, do puro prazer da leitura ou do ilusionismo, descobrir o que não estava previsto. Um alçapão é também sempre uma armadilha? Que, não obstante, permite iludir. Quem? Como sempre, a morte. Por mais algum tempo. Ainda que por mais algum tempo apenas.

2.

O mundo actual está prenhe de diagnósticos negros e de prognósticos terríveis. Uma forma de os contrariar tem sido o debate democrático e dialogante. Tem a sua função, mas é estéril se se fica pelas opiniões, pelo contraditório e, pior, pelos tais diagnósticos. No caso português, além desta inoperância da discussão, existe ainda um outro obstáculo: uma maledicência tagarela, que se apresenta como forma de fugir à acção concreta que leve à resolução do problema. Uma falta de coragem para o compromisso (que não teria de ser necessariamente militante; bastaria que fosse cívico).

Aqui, pretendemos que o diagnóstico dos problemas seja apenas um meio - para prosseguir na via aberta pela criatividade. Uma criatividade que tente escapar às soluções envenenadas, ou seja, aquelas que já estão previstas na Cultura (dominante), nas inevitabilidades do pensamento lógico ou na Tradição e que não são senão formas de ensarilhar mais o que já é complexo e intrincado.

Há outras soluções a evitar. Não duvido que o Impossível e o Utópico possuem em si virtualidades geradoras de bem-estar e realizações (mesmo quando não são, como nunca o são,o bem-estar e as realizações idealizadas). O resultado depende do rumo e da bondade do que se coloca lá como sendo desejável. Conhecendo a História, há que escutar a lição do perigo e do limite, usar de uma certa precaução activa: é preferível acreditar no inactual possível. (Até porque, desse modo, talvez seja possível recuar a tempo, quando se justifica.) Mas é preciso permanecer, e tenazmente, nesse ensaio da solução.