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La Coctelera

Categoría: Pintura

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A Lavadeira, 4

Ao conhecimento do
homem normal, contudo, nada mais é dado do que aquilo que a mente é capaz de
ordenar objectivamente. A verdade
interior da Lavadeira escapa-se-lhe para sempre. Não pode ser ela, fazer
a experiência dela, a não ser que esta o contagie, a não ser que a ela
se una de tal forma que ela deixe de ser, para ele, um objecto do conhecimento.
Apenas a pode alcançar se for capaz de nela reconhecer a sua própria verdade
interior, a sua própria experiência. Aquém deste silêncio do pensamento, aquém
desta dissolução da Lavadeira como objecto exterior ao sujeito (que com ela
passa a identificar-se), tudo se reduz à presença do objecto que, tal como uma
proibição, se interpõe entre o sujeito e a sua própria verdade – como,
paradoxalmente, um convite à transgressão e à comunicação.

Tal como o mundo
está fora da casa e apenas acede à silhueta da Lavadeira por detrás dos
reflexos do vidro, também o observador da tela que, apesar de tudo,
praticamente se introduz no interior da casa, não lhe pode tocar. Dentro e fora
do quadro, mil e uma maneiras de profanar aquela inacessibilidade seriam
capazes de se insinuar nos espíritos menos encarcerados na recusa dos
pensamentos libertinos, nas mentes menos escravas da regularidade e da ordem do
trabalho, naquelas capazes de romper a duração do tempo e de mergulhar num
instante em que apenas um silencioso nada se oferece

à representação. Mas, à reentrada do mundo ordenado, aquele que pôde ainda reunir
as águas revoltosas do seu próprio ser individual, trás consigo o angustioso
sentimento ligado à incapacidade de resgatar tudo o que fica para sempre no
instante de que regressa – e é natural que tudo faça de forma a prolongar um
pouco mais aquilo cuja definição é não se subordinar ao tempo nem ao seu
prolongamento futuro. Evocá-la na solidão da noite ou escrever são disso bons
exemplos. Exemplos de profanações que, ao procurarem reter o sagrado que emana
da obra de arte, ao nele introduzirem a mancha do tempo profano, consagram os
momentos em que decorrem à busca desesperada de si.

A Lavadeira que
nos provoca com uma indiferença deliciosa, na sua pausa instantânea, preside ao
mundo em que Toulouse-Lautrec a situou. Cá fora adivinha-se a cidade, sugerindo
organização, ordem, cálculo, trabalho e negócio. A sugestão é avivada pelo ócio
em que a pintou o autor. Aquele momento que a imortalizou não se votou à
servidão, não obedeceu a nenhuma vontade de crescimento ou lucro. É pura perda
– ou, pelo menos (na medida em que a imobilidade não acarreta as mesmas
necessidades energéticas do que o movimento e o trabalho), indiferença pelo
ganho. Isso mesmo chega a ser sugerido pelo olhar que não se vê mas se adivinha
perdido no infinito da paisagem. Nada na sua posição obriga a pensar que vota a
sua atenção a algum aspecto particular. Pelo contrário, parece abandonar-se à
contemplação de uma vaga diluição dos contornos da cidade.

FM

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A Lavadeira, 3

Olhando para o exterior através do vidro da janela, oferecendo o rosto ao mundo, impede-lhe ao mesmo tempo que o veja. E mesmo ao observador, fora daquele mundo em que seria efectivamente perigoso e fascinante cruzar os olhos com os da Lavadeira, apenas são dados os contornos objectivos de um perfil. Apenas a ruptura dos limites do observador o colocariam na posição milagrosa de encontrá-la face-a-face. Apenas um ser sobrenatural, verdadeiramente acima da limitação que circunscreve a humanidade aos limites da descontinuidade do ser poderia perder-se na vertigem daquele rosto. Mas até mesmo o mais soberano dos homens, o mais despreocupado com a acção, o mais desinteressado pelo futuro, o mais apto a votar a sua vida à intensidade do instante, a mais não poderia aspirar do que ao encontro incompleto com a verdade do ser, proporcionado pela arte e pela poesia. O único meio de possui-la verdadeiramente seria destruirmo-nos, deixarmos de ser os observadores que somos, para mergulharmos na torrente brutal da vida – da vida que se alimenta dos seus próprios mortos e a cujos filhos é imposta a necessidade de, nos limites que lhes são dados, tomarem consciência da existência que lhes coube, antes de eles próprios serem devorados pelo movimento que os reconduzirá à continuidade fervilhante de que, no fundo, apenas em aparência e temporariamente saíram.

(Toulouse-Lautrec: A Montrouge-Rosa la Rouge)

(Aqui a reencontramos numa das cabines telefónicas de Ernest Pignon-Ernest, a que nos referimos a propósito de "Napoli´s Walls" de Louis Sclavis. Sobre a transmigração da alma na arte seria preciso um novo ensaio. Mas no que aqui mais nos interessa, fica prometida para mais tarde nova referência aos diferentes nomes da Lavadeira na obra de Toulouse-Lautrec).

FM

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O pensamento musical da cor, 1

Monet

«...todas estas coisas pensam através de mim, ou eu através delas (pois na grandeza do sonho, o eu perde-se depressa!); pensam, sim, mas musicalmente e pitorescamente, sem argúcias, sem silogismos, sem deduções.» Baudelaire