Ao conhecimento do
homem normal, contudo, nada mais é dado do que aquilo que a mente é capaz de
ordenar objectivamente. A verdade
interior da Lavadeira escapa-se-lhe para sempre. Não pode ser ela, fazer
a experiência dela, a não ser que esta o contagie, a não ser que a ela
se una de tal forma que ela deixe de ser, para ele, um objecto do conhecimento.
Apenas a pode alcançar se for capaz de nela reconhecer a sua própria verdade
interior, a sua própria experiência. Aquém deste silêncio do pensamento, aquém
desta dissolução da Lavadeira como objecto exterior ao sujeito (que com ela
passa a identificar-se), tudo se reduz à presença do objecto que, tal como uma
proibição, se interpõe entre o sujeito e a sua própria verdade – como,
paradoxalmente, um convite à transgressão e à comunicação.
Tal como o mundo
está fora da casa e apenas acede à silhueta da Lavadeira por detrás dos
reflexos do vidro, também o observador da tela que, apesar de tudo,
praticamente se introduz no interior da casa, não lhe pode tocar. Dentro e fora
do quadro, mil e uma maneiras de profanar aquela inacessibilidade seriam
capazes de se insinuar nos espíritos menos encarcerados na recusa dos
pensamentos libertinos, nas mentes menos escravas da regularidade e da ordem do
trabalho, naquelas capazes de romper a duração do tempo e de mergulhar num
instante em que apenas um silencioso nada se oferece
à representação. Mas, à reentrada do mundo ordenado, aquele que pôde ainda reunir
as águas revoltosas do seu próprio ser individual, trás consigo o angustioso
sentimento ligado à incapacidade de resgatar tudo o que fica para sempre no
instante de que regressa – e é natural que tudo faça de forma a prolongar um
pouco mais aquilo cuja definição é não se subordinar ao tempo nem ao seu
prolongamento futuro. Evocá-la na solidão da noite ou escrever são disso bons
exemplos. Exemplos de profanações que, ao procurarem reter o sagrado que emana
da obra de arte, ao nele introduzirem a mancha do tempo profano, consagram os
momentos em que decorrem à busca desesperada de si.
A Lavadeira que
nos provoca com uma indiferença deliciosa, na sua pausa instantânea, preside ao
mundo em que Toulouse-Lautrec a situou. Cá fora adivinha-se a cidade, sugerindo
organização, ordem, cálculo, trabalho e negócio. A sugestão é avivada pelo ócio
em que a pintou o autor. Aquele momento que a imortalizou não se votou à
servidão, não obedeceu a nenhuma vontade de crescimento ou lucro. É pura perda
– ou, pelo menos (na medida em que a imobilidade não acarreta as mesmas
necessidades energéticas do que o movimento e o trabalho), indiferença pelo
ganho. Isso mesmo chega a ser sugerido pelo olhar que não se vê mas se adivinha
perdido no infinito da paisagem. Nada na sua posição obriga a pensar que vota a
sua atenção a algum aspecto particular. Pelo contrário, parece abandonar-se à
contemplação de uma vaga diluição dos contornos da cidade.
FM