Apanhei a ponta final da entrevista. Era na Antena 2 e o entrevistado, Jorge Silva Melo. Falava-se ao que parece de Sophia, ou mais exactamente da curta metragem de João César Monteiro, Sophia de Mello Breyner Andresen, em que Jorge Silva Melo participara como assistente de realização. Seguiu-se o que julgo tratar-se de um excerto sonoro dessa curta-metragem. Sophia lê o seu conto infantil A Menina do Mar (para uma criança, ou várias, não se percebe). No fim pergunta:
- Gostaste, A.?
Um miúdo responde:
- Gostei; menos do tom da sua voz.
- Do tom?
- Gosto mais com fala natural; assim não parece a sua voz.
- Não parece a minha voz?
A poetiza, que um dia escreveu o conhecidíssimo e também belo poema Epidauro 62
Oiço a voz subir os últimos degraus
Oiço a palavra alada impessoal
Que reconheço por não ser minha
não teve aqui tempo para a mistificação. Por um segundo não se deteve no sentido do que acabava de dizer («Não parece a minha voz?»), mas na dor que a franqueza da criança lhe devolvia. Instantes antes, não lera, mas declamara o conto, inebriada com a sua própria voz e preocupação de «dizer bem» (a linhas tantas tropeça mesmo na conjugação de um verbo, o que, sendo absolutamente natural, no seu caso denunciava o automatismo e a artificialidade da leitura). A criança acertou: a declamação é sempre onânica e afectada. Pelo contrário, dizer com voz natural um poema (ou um conto!), utilizar o tom neutro, anulando ao máximo a infecção do timbre pela colocação da voz, deixa o poema ser na sua nudez. De João Villaret a Ary dos Santos, passando por grandes poetas como Sophia, Torga e Eugénio, abundam os declamadores nossa tradição de leitura de poemas. Ultra-cientes do «alto e nobre estatuto da poesia», muitas vezes acabam por estragá-la, pelo tom ostentoso, teatral, que imprimem à voz. Definitivamente, não gosto de outra Sibila ou de outro Orpheu que não os ficcionais.
E já que se falou dele, deixo, por contraste,os monólogos de João César Monteiro no início do seu filme Recordações da Casa Amarela.Não sendo um exemplo brilhante, é pelo menos uma ilustração de como o «tom prosaico» pode servir melhor o texto (poético ou não) que o «tom declamado».
PC



Carlota Joaquina, a rainha que amou de mais, Alexandre Honrado, Guerra e Paz Editores, 2006. 1. Apreciei, e muito, o humor e a ironia deste livro - e sobretudo o modo como estes funcionam enquanto órgãos eficazes para as viagens que o autor efectua no tempo ao longo do volume: passado e presente iluminando-se mutuamente, com uma luz clarividente, quase sempre crítica, por vezes crua. Não será esta uma das menores virtudes do livro: pensar o humano, através do pensamento da História. Com uma mais-valia: consegui-lo de forma leve, atractiva, num estilo ágil e despretensioso.