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La Coctelera

Categoría: O doente do siso

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O Cão e o Tu

Foto: Carla Reis


O meu cão e eu tornámo-nos grandes amigos. Segue-me para toda a parte e fica realmente ofendido quando tem que ficar em casa. Se deve permanecer no carro, embora contrariado, acata a missão de aguardar por mim, e sempre deve sentir que não foi totalmente excluído dos meus projectos.

Conhece-me melhor, chego a acreditar, que a minha própria mãe. Por vezes, parece ler-me os pensamentos. Por isso, quase nunca sinto a necessidade de lhe levantar a voz e só o faço quando as nossas personalidades entram em conflito, o que, a maior parte das vezes, corresponde àquelas situações em que, para mim, o perigo é evidente, como, por exemplo, quando um dos gatos da vizinha o provoca atravessando a estrada movimentada, ou quando providencialmente um prato de comida apetitosa se lhe oferece aos sentidos na berma do passeio ou à beira de algum portão de casa, levantando-me suspeitas. Fora isso, nenhum dos dois sente a necessidade de se impor ao outro. Assim, a nossa relação, apesar de íntima, é discreta.

O meu cão não é um cão de guarda. Tampouco um cão pastor ou cão de corridas. Estou em crer que nem sequer gosta de caçar (quando persegue as pombas na praça, é com uma espécie de sorriso meio apaixonado, acabando por regressar com ar interrogativo, porque elas nunca querem brincar com ele).

Por vezes, na brincadeira, digo-lhe que ele é um cão de luxo, porque não serve para nada. Aliás, se mudei para esta casa, foi principalmente porque o regulamento do prédio anterior não permitia cães. Foi por isso que disse ao tipo do banco que me fez o empréstimo que esta era a casa do cão.

Embora, dos dois, só eu tenha a capacidade de falar, tenho a certeza de muitas coisas que ele me diz com o olhar, com o movimento da cauda ou, o que é raro, com algum ganido. Sei sempre se tem sede ou fome, se quer ir passear ou prefere dormir a sesta, se algum dos meus amigos lhe desagrada ou se na varanda está calor demais para se esticar.

Estou, portanto, convicto de que, tal como eu o entendo sem que ele fale, também me há-de compreender a mim quando lhe falo. Quer dizer, algures entre o falar e o silêncio nos encontramos como iguais.

É claro que somos iguais um pouco diferentes, pois eu tenho que trabalhar e ele não. A verdade é que os dias dele – dias de ócio, contemplação, brincadeiras, sestas, corridas atrás de pombas, festinhas e papinha feita e servida a tempo e horas – são uma espécie de conclusão ideal dos meus próprios dias.

Naturalmente, a mim cabe-me tomar decisões e assumir responsabilidades, por isso, tendo a ter-me na conta de ser livre, o que me proporciona algum orgulho na minha pessoa; enquanto ele, com a sua vida desafogada e despreocupada, acaba por estar condicionado pelas minhas escolhas. Não é – este exemplo ilustra (quase) tudo – alguém a quem se possa dar a chave de casa.

Nisto ia eu discorrendo silenciosamente, nesse fim de tarde, a caminho do morro onde o meu cão gosta de dar umas corridas a seguir a fazer as suas necessidades, quando apareceu um homem com uma criancinha pequena. Quase não preciso dizer que o meu cão, que adora crianças (seja qual for a sua espécie – humanos ou animais, adora-os a todos) se lançou na sua direcção. A menina assustou-se um pouco, mas o pai, e eu próprio, sossegámo-la: “não morde”.

Enfim, nós que não nos conhecíamos de lado nenhum, de repente estabelecíamos um contacto proporcionado pelo cão. Sem ele, eu seria completamente indiferente a estas pessoas e elas a mim. Talvez nem tivéssemos reparado uns nos outros.

A certa altura, a menina tratou-me por tu. O pai, atrapalhado, corrigiu – “não se trata o senhor por tu”. O pai desculpava-se, dando o exemplo, e tratava-me por “você” e por “senhor”.

Ao meu cão, entretanto, ambos tratavam por tu, como se o conhecessem desde sempre.

O “tu” tornou-se, então, uma questão para mim, pelo que me pus a pensar o que poderia ele significar e porque razão há pessoas a quem é preciso tratar por senhor e outras em fica melhor tratar por tu. Lembrei-me, por exemplo, que muitos pais tratam os filhos por tu, enquanto estes têm que os tratar na terceira pessoa, como se não pudesse haver uma relação directa entre eles. O mesmo em relação às crianças e às pessoas mais velhas. Ou em relação a patrões e empregados, ao padre e aos paroquianos, ao polícia e ao ladrão, ao professor e ao aluno, ao príncipe e à plebe.

É evidente que certas relações de “terceira pessoa” traduzem muito mais proximidade do que outras em que o “tu” é aceite. Por exemplo, o excesso de carinho pode levar os pais a tratar os bebés por "você"; o mesmo acontece entre os amantes ou em certas amizades que o tempo aprofundou retirando o carácter formal da formalidade do tratamento. O contrário também é frequente. Por exemplo, os espanhóis mantiveram o “usted” mas reservam-no para situações particularmente formais. Em contrapartida, pessoas que não se conhecem de lado nenhum, acabam a tratar-se normalmente por tu.

Mas o tu, pareceu-me, não é apenas um sinal de igualdade de estatutos. Com efeito, duas pessoas que se tratariam por “você” numa situação normal, podem acabar tratando-se por “tu” em certas circunstâncias menos felizes, como por exemplo, quando sentem necessidade de se ofenderem umas às outras. No trânsito da cidade, isso é tão comum…

Pareceu-me, então, que o tu serve também para humilhar o outro, para o fazer sentir-se menor, menos importante, ou mesmo menos humano. Em certas ocasiões, tratar por tu é quase como excluir da comunidade dos seres humanos, uma atitude de desprezo.

E foi isso que me irritou naquele encontro com o pai e a filha. De repente, pessoas que não conheço de lado nenhum, dispunham-se a tratar-me por “senhor”, mas não tinha qualquer escrúpulo em tratar o cão por “tu”. Pura e simplesmente, não reconheciam qualquer dignidade ao meu cão, não admitiam o valor que eu lhe atribuo intrinsecamente. Colocavam-se, parecia-me, levianamente, numa posição de superioridade, e faziam-no – pior ainda – sem se darem ao trabalho de reflectir sobre isso, como se o natural fosse esperar deles isso mesmo.

Entretanto, o seu comportamento – sim, o do pai também – não se adequava a este quadro de superioridade. Pelo contrário, a criancinha dava beijinhos ao cão e abraçava-se a ele como a um irmão. E o pai, tão composto no vestuário, tão educado no tratamento, tão adultamente civilizado, descia à infância e, com a filha, atirava paus e dizia “busca”, corria, fintava-o, usava expressões carinhosas com voz de falsete. Visto de longe, dir-se-ia ser um retardado.

Foi então que compreendi a especificidade do “tu”, deste “tu” aplicado ao cão. A brincadeira com o cão foi uma espécie de regresso ao passado, a um estádio anterior da consciência, diferente da racionalidade e da formalidade do adulto civilizado. Um regresso a estruturas primitivas de um ser que há muito não se diferenciava a si mesmo dos restantes animais e que, por isso mesmo – ainda que os caçasse para comer –, os considerava elementos sagrados, sujeitos a todo o tipo de tabus, dignos de serem gravados na perenidade das rochas de uma gruta qualquer. Neste caso, tratava-se de um “tu” de saudade”, de reencontro, de procura de si mesmo. Um “tu” que produziu laços inquebrantáveis (pela brincadeira com o cão) entre o pai e a filha que, nesses instantes, pareciam de facto um só – ainda que se venham a tornar a dividir e a separar quando o cão a que se uniram abandonar o seu horizonte e o pai tiver que regressar às preocupações mundanas, ao trabalho, à formalidade dos papéis sociais…

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Louca Sapiência, 10

Mnemosyne, por Dante Gabriel Rossetti, 1828-1882

É importante não esquecer que a “ felicidade consiste em querer ser o que se é” (Erasmo, Elogio da Loucura), o que quase obriga a perspectivar a vida como resistência, como contínuo confronto entre inimigo e inimigo do inimigo. Levado ao extremo, um mundo destes é inabitável; o maior desígnio de cada ser individualmente perspectivado como ser que quer, que deseja realizar-se naquilo mesmo que é, queda irremediavelmente perdido, pois, esse querer que define a felicidade, reduzir-se-ia ao querer manter-se em luta e realizar-se enquanto sobrevivente. Acontece que até mesmo os homens guerreiros, os que se satisfazem e realizam pelo combate, procuram mais do que a luta. Desejam, no mínimo, algum reconhecimento por parte dos adversários, desejam ser temidos, ambicionam glória, aspiram a ser tidos como vencedores. Necessitam, por isso, periodicamente de tréguas, a fim de terem oportunidade de fruir e ostentar as suas vitórias. Precisam, além disso, de cúmplices, pelo que são obrigados a fazer cedências, se quiserem manter-se numa posição de dominação.

Sozinho, o homem nunca teria surgido no mundo. A resistência dos elementos e das espécies à vida humana só pode ser suplantada pela distribuição das tarefas da sobrevivência e apenas pela comunicação das aquisições resultantes da partilha de experiências se desenvolveram as capacidades e competências que têm permitido ao homem sobreviver. Num tempo em que se fala tanto da urgência da felicidade, tende-se a esquecer que a realização que os primeiros homens ambicionavam era a sobrevivência. Mas foi a sua natureza gregária que assegurou essa realização
básica, ainda que frequentemente às custas de inúmeros sacrifícios, muitos dos quais significaram a morte de seres humanos.

Não é difícil admitir, contudo, que o tempo jamais tenha rasurado definitivamente este aspecto da vida e que, em patamares muito distintos se perpetue ainda esta necessidade de afirmação sobre o outro. Ainda não há muito tempo, no coração da Europa civilizada, milhões de pessoas a conheceram de forma impressionante. Primo Levi relatava: “Aprendemos que tudo serve; o arame, para apertar os sapatos; os farrapos, para fazermos deles panos para os pés; o papel, para forrar o casaco (abusivamente) contra o frio. Aprendemos, por outro lado, que tudo pode ser roubado, ou melhor, é automaticamente roubado, mal a atenção diminui; e para o evita tivemos de aprender a arte de dormir com a cabeça apoiada num embrulho feito como o casaco, e contendo tudo o que possuíamos, desde a marmita até aos sapatos.” (Primo Levi, Se Isto é Um Homem) É claro que os campos de extermínio são realidades extremas de um terror ensaiado até às últimas consequências e que, felizmente, a maioria dos habitantes da Europa Ocidental vive hoje em circunstâncias muito mais favoráveis. Em certo sentido, é útil que a experiência do totalitarismo tenha sido esquecida e arquivada na memória académica. Estivesse ela ainda viva e com a força de outrora nas emoções dos homens, talvez nenhuma confiança pudesse ser restabelecida entre eles. Depois destes crimes do homem contra o homem, a maior loucura é nele depositar a mais diminuta confiança.

Mas não seria necessário regressar aos tempos dos primeiros homens ou invocar, de entre todos os actos humanos, os mais bárbaros. Até mesmo em tempos de prosperidade, de paz, de tolerância e de liberdade, é fácil mostrar como o esquecimento é importante. Por exemplo, em relação à relação entre os pais e os filhos: a certa altura da vida, os filhos para quem os pais são figuras divinas, omnisapientes, moralmente íntegras, invencivelmente protectoras, sentem-se desiludidos, traídos, perdidos. A descoberta de que eles se enganam, erram e têm fragilidades gera uma crise de identidade e de sentido da vida, em muitos casos inultrapassável por toda a vida. Para que se mantenha o amor filial, é preciso uma certa dose de esquecimento, sem a qual este ressentimento se poderia traduzir nos piores dissabores. Um outro exemplo poderia ser o dos amantes que devem esquecer o passado amoroso um do outro para que tal recordação não se fixe como uma farpa de ciúme. O mesmo acontece no caso de uma injúria, de uma ofensa, de uma desatenção. O esquecimento tem que surgir pela ocasião do perdão concedido, da confiança restabelecida, da paz acordada, do amor retomado, da celebração da amizade. Todos os homens têm, no fundo, razões para desejar que os outros esqueçam alguns dos seus gestos, ditos ou omissões.

Mais do que isso, porém, todos os homens precisam de esquecer muito de si próprios, sob pena da angústia e do remorso. E precisam, sobretudo, de esquecer grande parte daquilo que desejam quando desejam ser felizes. É a única forma de acolhimento hospitaleiro do outro, a única arma capaz de realizar a conversão do inimigo em convidado. A Psicanálise chamou a atenção para o papel do recalcamento em relação à possibilidade de se manterem no tempo os laços interpessoais e sociais, e Freud escrevia, em A Civilização e os Seus Descontentamentos, no conturbado período entre as duas guerras mundiais, que “a sublimação do instinto é uma característica particularmente notável da evolução cultural; é isto que torna possível às grandes operações mentais, actividades científicas, artísticas e ideológicas desempenharem um papel tão importante na vida civilizada. (…) É impossível ignorar a dimensão da renúncia dos prazeres dos instintos sobre a qual se ergueu a civilização. (…) Esta privação cultural domina todo o campo das relações sociais entre os seres humanos.” (Freud, A Civilização e os Seus Descontentamentos).

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Louca sapiência, 9

Companheira da Loucura é também Kolakia, “aquela que ri com os olhos e aplaude com as mãos”. Porque ri com os olhos? Talvez porque um riso silencioso seja uma manifestação de regozijo verdadeiro e tranquilo, confiante, ainda que, por vezes, triste. Uma forma de assentimento, de aceitação e de compreensão tácita do acordo entre o real e o vivido, sem ressentimento, mas também sem falsa esperança. Verosímil, mas descomprometido, não tão ostensivo como a gargalhada – que, mais do que suscitada por um objecto cómico, tem uma relevância tributária, no sentido em que pode ser usada como moeda para comprar a pertença a um grupo restrito que, por meio dela, manifesta a sua vontade de se destacar como comunidade que acede em uníssono à mesma distribuição da realidade por patamares que ascendem do cómico ao sério. O sorriso não tem esta dimensão grupal, não visa agradar mas expressa agrado, pelo que está mais próximo do que há de universal na humanidade. Antes de aprender quem é e a quem pertence, o bebé sorri. E todos os que têm a sorte de estar na direcção desses sorrisos se perguntam por que mistério lhes calhou a eles tamanho elogio por parte de quem ainda não sabe fazer contas nem cálculos e quem, portanto, ainda não assimilou as regras da boa convivência que ditam que deve ser retribuído ao outro o bem que ele nos fez.

Pela mesma razão, Kolakia aplaude infantilmente com as mãos, sem os agradecimentos rococó, as vénias e os salamaleques com que os adultos gostam, quando lhes não convém a briga, de se brindarem uns aos outros. A diferença entre aplaudir com as mãos ou erigir um panegírico sob a forma de discurso é que o aplauso não obriga a curvar a cabeça nem a ajoelhar. A violência do aplauso não é ainda a que produz os medos e os sonhos maus. A sua eloquência não pertence ao mundo das hierarquias, não é gerada nem pelo interesse nem pelo cinismo. E, embora possa ser usado – como tudo o resto – para produzir um qualquer efeito desejável e previamente calculado, originariamente o aplauso é uma linguagem do inútil, visto que nele é retirado às mãos qualquer serviço, qualquer trabalho ou mesmo qualquer fim artístico. O aplauso é, portanto, uma suspensão do cálculo e do interesse e, como o sorriso dos olhos por contraposição à gargalhada ostensiva, uma expressão de concordância radical com a existência, o que é especialmente visível nas palminhas do bebé. É, além do mais, contagioso, como o sorriso e, como ele, capaz de criar um efeito rítmico impossível de transcrever numa pauta e, todavia, tão nítido que as palavras apenas podem prejudicar.

Kolakia é o nome do elogio de que é digno o turbilhão que traz e arrasta consigo todas as coisas, mudando umas em outras, separando-as para as tornar a reunir e a separar, indiferente a protestos e providências, a promessas e responsos. É a dignidade própria dos soberanos que nunca se curvam nem têm que despender a mais ínfima parte do seu tempo ou energia a converter o seu modo de existir num meio ao serviço ou em função de qualquer finalidade exterior. Kolakia é o nome da impagável – e tão à partida cobrada – dívida de todos os seres condenados a pagar com a vida a vinda ao mundo. Quebrada como todas as palavras, o nome Kolakia pertence tanto aos que exultam diante da comédia da vida como aos que sofrem como numa tragédia – e que geralmente são os mesmos. Pois, que é chorar, lamentar-se, desejar morrer, se não e ainda o aplauso da vida a si mesma?


Ilustração de Hans Holbein, nas margens de uma edição antiga do Elogio da Loucura

É certo que todas estas notas aproximam o elogio à Loucura. Mas, como ela própria canta: “Nem que as minhas línguas fossem cem, cem as bocas, férrea a voz, poderia eu dizer todos os nomes da estultícia”. Não é, pois, de espantar que Kolakia seja mimada por todos quantos privam com o hálito da Loucura. É possível detectar a sua influência em todas as esferas da actividade humana. Seriam possíveis relações duradoiras entre homens e mulheres, entre pais e filhos, e patrões e empregados, entre governantes e governados e até entre mortais e deuses, sem o elogio? Sem a capacidade de adular e regozijar por se ser adulado, por quanto tempo suportariam os homens a presença uns dos outros? Objectar-se-á que não é por falta de esforços diplomáticos que os Estados se deixam arrastar para a guerra, que não é pela ausência de prendas que os filhos se revoltam contra os pais, que não é pela falta de vencimento que se opõem os trabalhadores aos empregadores, que não é por faltarem promessas que as populações derrubam governantes, que não são os ditos omissos de amor que afastam os amantes. É uma objecção importante, a que se deve prestar a maior atenção. Mas o que ela revela é a distância abíssica que vai do sorriso infantil à gargalhada do adulto, ou do aplauso descompassado da criança ao ritmo previamente ensaiado do discurso interesseiro. E se, descendo ao longo dessa distância, o elogio perde a sua voluptuosidade, é porque se vai tornando coisa demasiado séria, logo, incapaz de gerar a paixão intensa do puro jogo. A criancinha que brincava com a roca já não se encanta tanto com ela quando passa a precisar de fiar para subsistir. O livro que se é obrigado a ler torna-se enfadonho. O acordeão que se toca para pedir esmola acaba por se confundir com a odiada cegueira.

Philautia e Kolakia são companheiras inseparáveis da Moria, e, enquanto a “Filáucia passa a mão pelo próprio rosto, a Adulação acaricia a cara dos outros”, tornando, assim, a vida um pouco mais fácil e atractiva. “Se me excluísseis – conclui a Loucura sob o signo de tais companhias – não poderíeis suportar o próximo, e contra vós próprios sentiríeis desgosto.” E isto porque é dela que advêm a tolerância e a indulgência, a amizade e o amor, sem os quais estaria cada homem condenado à morte por isolamento ou numa guerra constante de todos contra todos.

FM

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Epigramas da áspide, 3


Constato, aliviada, que terminou a excelente série documental do sociólogo António Barreto sobre o que fomos e o que somos. Ou: Portugal ao espelho pela milésima vez. Não vai sendo tempo de abandonar estes exercícios de masoquismo, partir os espelhos e investir a energia que nos resta no que ainda podemos vir a ser? (Esta minha brandura é sinal evidente que preciso de ler Vasco Pulido Valente JÁ!)

A.

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Louca sapiência, 8

De quem se rodeia a Loucura, que companhias aprecia, que influências recebeu na sua morada natal, para além da dos pais? Ela própria faz questão de apresentá-las, como se fosse incapaz de suportar qualquer distância em relação às suas amizades.


A primeira a ser enumerada, no Elogio da Loucura, é Philautia, conhecida por todos quantos privam com o amor-próprio. Dela recebeu certamente a Loucura a tendência para se desejar a si mesma e o hábito de se insinuar na vida dos homens como jactância.


O irracional, o absurdo, o ilógico, detestam a razão, o sentido, o conclusivo, visto que, ao serem apanhados nas suas malhas, são tratados como o contrário daquilo que são. Não desejam, por isso, unir-se a qualquer coisa que não a si mesmos. Por isso, o louco está sempre convencido que as coisas, tal como as vê, só podem ser como as vê, e não pode ser convencido de que o seu tempo acontece na alucinação sem deixar de ser louco. Os seus actos, e as suas emoções e pensamentos, se os expressa, só podem parecer irrazoáveis aos outros, para os quais são sempre presenças estranhas. Assim se diz dos loucos que vivem num mundo à parte, alheados da humanidade normal, da comunidade – que é, por definição, o único lugar em que a comunicação e o reconhecimento são possíveis.


A presença do louco produz um sentimento semelhante ao que a maior das pessoas experimenta ao escutar a sua própria voz gravada: uma mistura de reconhecimento com desconhecimento. Por um, lado, a pessoa descobre qualquer coisa de si; mas essa descoberta é perturbante, pois apresenta daquilo que cada um pensa sempre conhecer melhor do que ninguém uma figura diferente. É uma experiência que faz lembrar a do amante que descobre que a sua amada guarda para si segredos inconfessáveis.


Simplesmente, o confronto com o louco leva cada indivíduo a desconfiar de si mesmo. Não se trata apenas da dúvida de saber de qual dos lados está a loucura, se do lado do eu ou do lado do outro, visto que tal dúvida não afecta as consciências mais seguras de si mesmas nem aqueles que, em momento algum, chegam a pôr em causa qualquer uma das suas convicções. E muito menos afecta os loucos.


Mais do que isso, a presença do louco transtorna porque ela representa a mais secreta vocação para a auto-afirmação, para a procura da satisfação de todos os desejos, o que é evidente quando o sistema perceptivo despreza os dados do mundo e nenhum mecanismo selecciona, inibe ou orienta para fins alcançáveis os impulsos motivacionais. A noção de que os mais loucos apenas dispõem de uma consciência muito diminuta coincide com a ideia comummente aceite de que os loucos, como os embriagados, dizem sempre a verdade. Dizer que o louco está fora do mundo, é quase o mesmo que afirmar que está fora de si, isto é, que o seu verdadeiro eu se exteriorizou e não lhe pertence completamente. Assim, parte do segredo a que o louco faz apelo diz respeito ao tácito assentimento de que ele se realiza mais do que o normal, pois a sua mente contorna com menos dificuldade os obstáculos que se colocam à afirmação das suas tendências mais básicas. Aquele que se tem por superior ao louco porque julga ser capaz de controlar os seus impulsos, de se auto-dominar, de avaliar situações e decidir autonomamente, ao chocar com o louco, sente com angústia que nunca poderá abandonar-se à vida e à procura de satisfação como o faz o louco – e sente-o mesmo quando se apercebe que o modo de procurar satisfação do louco é um caminho arriscado demais, ou mesmo quando descobre que o louco chega a poder satisfazer-se através do sofrimento.




O louco é aquele que está fora de si, aquele que não obedece a nenhum comando consciente, aquele que arrisca tudo o que tem e é sem se importar com isso, aquele cujos laços consigo mesmo não têm mais resistência que teias de aranha. Assim, para além de imagem perturbante da verdade mais íntima de todos os homens, o louco é também uma figura de morte, uma espécie de fantasma invertido, uma realidade sem imagem, tangível mas não visível. O riso do louco é arrepiante – ou cómico – porque é o riso da indiferença pela própria vida. Por isso, o louco raramente trabalha, no sentido produtivo do termo, e mais parece dedicar-se a jogos. Neste sentido, ele é invencível, pois não sente a necessidade de sacrificar o instante presente em função de um objectivo posterior ou exterior, uma espécie de herói para o qual a própria vida é uma ninharia que pode ser desbaratada se a satisfação exigida num determinado instante assim o decidir. Precisamente por isso, muitos loucos são admirados, respeitados e até invejados pelos outros, aqueles cuja mente se constituiu como sociedade em que os polícias correm atrás dos ladrões e em que os ladrões congeminam e agem dissimuladamente e no maior segredo.



Mas, que a loucura se procura a si mesma é ainda verdade em muitas manifestações de jactância pessoal ou colectiva, senão em todas. Todos os homens precisam de um pouco de auto-estima para resistirem ao suicídio. Aquele que nada de positivo encontra em si, tem uma vida insuportável e talvez procure matar-se ou desista de se esforçar por se manter vivo. A vida é um caminho muitas vezes espinhoso cujo fim é a sua própria anulação. Uma anulação prometida à partida e a mais fiável de todas. Matar-se é atalhar caminho, chegar ao mesmo termo muito mais rapidamente, sem tanto esforço e com maior simplicidade. Manter-se vivo é uma tarefa que exige sacrifícios e que requer, portanto, contrapartidas. Permanecer na vida sim – mas desde que valha a pena. E, para que valha a pena, é preciso, pelo menos, acreditar que se é capaz de realizar alguma coisa com valor. Ora, a este nível, todos os que desejam viver foram abençoados pela Philautia e, desse modo, recebem a simpatia da Loucura.






O amor pela própria vida, contudo, é um amor destinado à traição. Como diria Milan Kundera, um dia todos saímos da fila. O ponto que somos desliga-se da recta e torna-se indistinto do imenso espaço informe que lhe confere o indispensável contraste, sem o qual seria tão indistinta como a vizinha vastidão. Há, portanto, algo de bazófia nos gestos e discursos de todos quantos fazem do dia seguinte a razão de ser do agora actual, e dos que se apresentam no mundo como portadores do projecto de vida mais acertado, ou que se vangloriam das suas capacidades ou das suas conquistas. Os argumentos com que cada um procura justificar para si mesmo os passos que deu ao longo do dia, ou mesmo as justificações para as repreensões que cada um dá a si próprio, evidenciam sempre uma certa fanfarronice. Louco é também aquele que não se apercebe que todo o ser separado é uma espécie de inesperado desvio do destino comum a toda a existência, uma efémera fagulha de um incêndio cósmico. Louco é o náufrago que se agarra a si mesmo como se de uma gota de água do oceano da vida pudesse fazer una tábua de salvação. Louco é também, por conseguinte, quem mais a sério toma o mundo, pois, ao contrário do outro louco, cujo verdadeiro eu está fora de si, mantém a sua verdade interior tão comprimida dentro de si, que acaba por agir e pensar de forma alienada.




Sob a influência da Philautia, portanto, todos os homens são loucos, ora porque são incapazes de pertencerem a si próprios, ora porque acabam por ficar encerrados, como objectos, fora de si mesmos e se lhes torna impossível acederem ao que há de mais íntimo e sincero em si. Vistos deste ângulo, estes loucos narcisos são como que porções falantes de um guisado feito com restos de comida, mas que se tomam a si próprios como verdadeiros gourmets.

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Epigramas da áspide, 2


Hesito sempre quanto à qualidade a admirar mais no Ferreira Alves de O Eixo do Mal: se a petulância, se o snobismo; se a feiura eloquente e seca, se a arrogância de fêmeo com falta de barba.

A.

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Epigramas da áspide, 1


Quando a minha perspectiva cínica do mundo e do país começa a esvanecer-se e a esperança a introduzir-se perfidamente no espírito, corro ao quiosque mais próximo e compro uma dose do melhor veneno: leio a crónica do Vasco Pulido Valente, no Público, e volto ao meu estado normal.

A.

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Louca sapiência, 7

A Loucura afirma-se filha de Plutão e da Mocidade (ou Frescura). Tal aparato geneológico é motivo suficiente para suscitar o mais vivo interesse por ela. Do pai, a Loucura recebeu a significação de riqueza; da mãe, a eterna jovialidade.

Que magnífica conjugação na filha: riqueza sempre regenerada, que nunca fica decrépita, que vence todos os obstáculos. Riqueza que não se reduz à posse do objecto valioso, mas à própria possibilidade de existirem todos os objectos valiosos.

Plutão personificava, para os Gregos, a Fecundidade da Terra, mas era um deus subterrâneo, infernal, indomável e implacável apreciador de sacrifícios, especialmente de animais negros, e castigador dos condenados à morte. O seu poder devia ser imenso, pois tanto era senhor da vida como da morte, ora providenciando o nascimento, ora apoderando-se das almas defuntas. Sob todas as coisas visíveis, e não separadas em divindades independentes, vida e morte são, em Plutão, representadas como uma só e mesma realidade, no que faz lembrar o antigo Titã Cronos que, concedendo tempo aos seres, se alimentava dos próprios filhos. O inferno plutónico sugere da existência humana que tudo o que nela se encontra dividido forma uma unidade subterrânea. Ou, para retomar a expressão de Georges Bataille, todo o ser surge contínuo, se se abandona a perspectiva restrita que coloca a consciência diante e na descontinuidade entre os seres. Dito de outra forma, Plutão é um outro nome de contradição e paradoxo. Ele é o inimigo e o inimigo do inimigo, o obstáculo diabólico e a possibilidade divina. É o símbolo em si mesmo diabólico da promessa de vida e da condenação da morte, sem separação efectiva entre uma e outra. A Plutão eram oferecidos os condenados à morte – mas não é verdade que, condenados à morte, somos todos? E não é também verdade que só o somos graças à Fecundidade que permitiu termos sido gerados?

Mocidade ou Frescura era sua mãe. Se o ímpeto paterno iniciou o movimento da Loucura, esse movimento, como acontece a todos os movimentos a que, como no caso da existência humana, se opõem obstáculos, deveria abrandar com o tempo e, finalmente, cessar. Mas isso não acontece com a Loucura, que nunca envelhece. A sua riqueza, portanto, não se confunde com qualquer forma de dignificação forçada deste ou daquele objecto, pessoa, instituição ou ideia. Ela é o contrário do aprisionamento na palavra e na consciência, a sua força não se confunde com a do Estado, das armas, das certezas e das convicções, embora esteja presente em todos estes elementos da vida humana. Mas ela é o eterno fugitivo que rompe todas as amarras, que ri da seriedade e faz escárnio da idolatria. A Loucura é a imagem da existência na sua dimensão mais enigmática, na sua verdade mais absoluta e surpreendente.

FM