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La Coctelera

Categoría: Filmes

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Finais-Felizes, 2

«LONDRES, 5 OUT (ANSA) - Uma associação de pais britânicos contra os livros infantis sem final feliz organizou para o fim deste mês uma série de "Fogueiras dos Livros Maus", convidando outros pais a levarem os volumes "pouco alegres" para jogá-los ao fogo, informou hoje o Daily Mail.» (Ler aqui o resto da notícia).

Esta notícia do presente, em que livros são queimados por ameaçarem a felicidade do homem, é assustadoramente semelhante à memória que nos ficou do Index depois das aulas de História. Ou à hipótese futura descrita no romance Fahrenheit 451 (temperatura a que o papel pega fogo) por Ray Bradbury e adaptada ao cinema por François Truffaut: uma sociedade totalitária em que os livros são considerados perigosos e incendiados, por causarem infelicidade e gerarem pessoas improdutivas.

O acto simultaneamente efectivo e simbólico de queimar um livro só pode decorrer da ignorância da História ou de uma assimilação sem critérios dos dados da mesma. Uma espécie de reminiscência latente se terá declarado da pior forma nos cérebros que conceberam a ideia. Podiam propor debates sobre o assunto, mas não: só a destruição do objecto odioso os descansa.


Sejamos francos: com finais felizes ou com finais infelizes há livros infantis péssimos. Se calhar, rondam a maioria. Mas, para que não façam mal aos nossos filhos, basta não comprá-los. Ou seja: basta seleccioná-los segundo os critérios daquilo que nos parece o melhor para o desenvolvimento da dimensão estética e criativa dos nossos filhos.

É aliás nestas duas dimensões que se joga, em meu entender, o essencial do problema.

Mas, antes de a isto voltar, analisemos mais profundamente o incidente. Às posições radicais desta associação opõem-se não só aqueles que defendem a liberdade de expressão, como aqueles que defendem que os livros infantis devem preparar as crianças para o futuro. É a tese implícita no argumento defensivo da criadora da associação: «Não digo que o mundo deve ser apenas cor-de-rosa, mas é preciso fazer o possível para proteger as crianças.» Uns querem protegê-las, outros prepará-las. Protegê-las de quê? Do mundo violento, real, que as espera. Prepará-las para quê? Para o mundo cínico, competitivo, real, que as espera. Em ambos os casos, subjaz um conceito de realismo extremamente perigoso; pior: uma mundivisão estática do real, uma espécie de grau zero do pensamento que se traduz nisto: «O real – o mundo – é assim, e temos de ajudar as crianças a conformarem-se com ele – ou de protegê-las para não entrarem tão cedo nesse real atroz.»

Porém, a estética do conto de fadas não está assim tão longe da do realismo. Nem da do gótico ou do monstruoso, bastante popular hoje. Alguém duvida da crueldade presente nas histórias de finais felizes? Bruxas, madrastas, feiticeiros, irmãs más, lobos maus, todos eles são a seu tempo castigados, e quase sempre severamente, e quase sempre sem piedade. Não são nada cristãos os contos infantis clássicos. O sentido cínico da realidade não está presente apenas nas histórias de final infeliz. Acrescento: não precisaria do final infeliz para se manifestar. O perigo do final infeliz para a psicologia de uma criança é a introdução de uma ideia de irremediável, de irrecuperável, de irreconciliação. Muitas vezes, resolve-se isto procedendo à inversão do herói, que passa a ser o «mau», ou o escorraçado, que surge destruindo os «bonzinhos» ou os belos. Mas também as histórias tradicionais não vão muito além da justiça da vingança...

A história não está completa. Voltarei a ela, no próximo post. Porque a felicidade ou infelicidade do fim dependem doutros factores que não as histórias em si ou os seus finais.


PC

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Um olhar sobre “Playtime / Vida moderna” (1967), de Jacques Tati

 
Um grupo de turistas americanas viaja pela Europa. Do programa consta uma visita a uma capital por dia. Quando as senhoras chegam a Paris, detectam que o que lhes aparece aos olhos já o haviam visto. O aeroporto é exactamente igual ao de Roma, as ruas são as de Hamburgo e os candeeiros de rua assemelham-se aos de Nova Iorque. Nesta cidade, cruzam-se com uma multidão de gente, na qual se conta o sr. Hulot.

Aparentemente simples no seu argumento, “Playtime” é um verdadeiro ensaio sobre o mundo moderno, onde as imagens, mais do que os diálogos, intensificam a visão crítica que Tati tinha relativamente ao deslumbramento colectivo sobre o novo.

Neste sentido, “Playtime” é um filme de planos gerais que exigem que apressemos o nosso olhar no processo de assimilação de tudo o que se vai passando na tela. Deixa-nos tontos. Tal tontura será, porventura, o principal efeito da vida moderna, feita carrossel, diz-nos Tati pelas imagens.

Gente que veste igual e se deixa, passiva e facilmente, maravilhar com o “novo” – o sr. Hulot (espécie de Chaplin a descobrir uma cidade) é uma das poucas excepções – carros estacionados do mesmo modo, utilização de palavras de origem inglesa, máquinas com mil e três botões, edifícios planos e envidraçados, eis alguns ingredientes do cenário.  

   Uniformidade, organização e massificação – do espaço e do homem – são, deste modo, as características fundamentais do mundo moderno que Tati aqui nos mostra e questiona. Em alguns momentos, a modernidade representada chega a significar caos, como, por exemplo, na cena onde o sr. Hulot, dentro de uma empresa demasiadamente organizada, se perde – num labirinto - quando procura um dos executivos dessa empresa.

Neste contexto, o vidro assume um papel preponderante. Símbolo excelso do modernismo, o vidro é algumas vezes personagem principal no filme. A cena que nos convida a assistir, enquanto voyeurs, ao que se passa no interior da casa do amigo de Hulot que o convida a entrar, é-nos apenas acessível através do vidro que serve de parede à casa. Ao lado, observamos, como se passássemos em frente a estas vivendas, uma outra família a ver televisão. A privacidade é, deste modo, roubada a estas pessoas pelo vidro. Tati leva aqui aos limites as «brilhantes» potencialidades do vidro e mostra-nos como este pode tornar um espaço ambíguo, ao invés de o tornar transparente. Estas imagens são, neste sentido, de uma ironia extraordinária, chegando a colocar a arquitectura moderna em causa.

No final de “Playtime”, há uma retunda repleta de carros a moverem-se lentamente. Dificilmente não haveria melhor imagem para ilustrar este novo mundo - um mundo que se quer acelerado e que é obrigado a ser prudente quando algo não funciona como desejado. E em círculo...

Tiago Carvalho         

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Donnie Darko

Quando o vi pela primeira vez, pensei imediatamente em Do céu caiu uma estrela, o filme que ainda há poucos anos passava na tv portuguesa todos os anos pelo Natal (voltará?). Um anjo mostra a um homem, prestes a suicidar-se, como seria o mundo, se ele não existisse. Donnie Darko é a inversão da hipótese deste clássico. Como seria o mundo se DD sobrevivesse à sua morte? O anjo dos tempos modernos, contudo, é o rapaz disfarçado de coelho num Dia das Bruxas.

Parece existir aqui uma crença mitológica antiga: a de que havendo destino, há equilíbrio. Se eu morro, outros viverão; como Cristo na cruz. Ou o inverso: se eu viver, outros morrerão; como Hitler no século XX. Mas pode ver-se a coisa de outro ângulo: cada ser (neste caso, humano) é uma diferença radical que se introduz no universo - e isso é maravilhoso, milagroso! Vivê-la, à vida, com joie de vivre impõe-se, então.

PC