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La Coctelera

Categoría: Ensaios do Perigo

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Finais-Felizes, 3

O acto de contar histórias tem por objectivo adiar o fim. E o fim, em última análise, é a morte. Desde Sherazade que isto é líquido. E o que se diz das histórias pode-se dizer de qualquer discurso ou diálogo. Enquanto as pancadas intermináveis do discurso sinfónico não chegam a cabo, dando por concluída a tensão que consubstancia a vida; enquanto houver mais um episódio para a novela da noite (e as novelas são legítimas herdeiras d’ As Mil e uma Noites…); enquanto houver uma palavra a acrescentar ao que o outro disse ou ao que dissemos; enquanto escutarmos, virmos e falarmos – sentimo-nos eternos, ainda vivos, aqui, agora, e está reatada a esperança da continuidade. Não é por acaso que as crianças insistem com os pais, após estes terem terminado a história da noite: «conta mais uma!».

Todo o fim (mesmo para aqueles que o consideram passagem, ou o desejam) é, portanto, infeliz: seja porque contém uma grande dose de incerteza, seja porque é o remate de uma vida triste, seja porque encerra uma vida que até agora – justamente – foi feliz, que a partir do momento da morte terá sido feliz. Verdadeiramente, ninguém gosta do fim: não há happy endings.

Que tem isto que ver com a literatura infantil? Tudo. Não se trata só de discutir se há hoje criança que acredite no «casaram-se e foram muito felizes para sempre». Nem sequer se trata de desmontar uma «ilusão perigosa». Como disse no post anterior, antes de uma deriva necessária, o essencial do problema joga-se no desenvolvimento da dimensão estética e criativa dos nossos filhos. Duas dimensões nada inocentes, no mundo tecnocrata e robótico que habitamos: a dimensão estética é nada mais nada menos que «a forma – encantada, desencantada, ou estimulante – como o ser humano sente o mundo»; a dimensão criativa é tão-só a que lhe permite encontrar soluções, sentir-se realizado nas suas aspirações e «salvo» (ponho a palavra entre aspas para lhe retirar o carácter religioso e lembrar outro sentido da mesma, o de estado saudável).


[Seguirei, a partir deste momento, as ideias contidas em O Senhor de Herbais (pp.188-192), de Maria Gabriela Llansol, autora que trabalhou toda a vida com crianças (em Portugal e na Bélgica) e com quem partilho, neste assunto, de quase tudo o que diz.]

Com efeito, quase tudo na educação das crianças concorre para a introdução nas suas vidas do «módulo de verdade e de ordem». A isto se chama muitas vezes crescer. Quando se lhes pergunta o que é que elas querem ser quando forem grandes, ou se lhes ensina a ler «o gato deu três cambalhotas antes de enfiar a posta de pescada pela goela abaixo», estamos a antecipar a «função de verdade» na qual elas entram aos sete, oito anos. Se a criança se recusa aceitar tal, psiquiatra ou casa de correcção com ela … Mas será isto crescer? É crescer, certamente, mas numa determinada direcção. Há outras. Winnicot mostrará a Maria Gabriela Llansol o que ela já sentia na sua prática educativa: que «crescer sem motivar afectivamente é matar».

Mas só Espinosa lhe ensinou como gerar esse crescer. A autora/pedagoga substituirá então os livros de fadas e duendes pela leituras dos seus próprios livros, nos quais de forma (belíssima, diga-se) expõe Espinosa. Eu não seria tão radical ou exclusivista. Há outras soluções. A própria Llansol refere «a aprendizagem da leitura» e os «ciclos festivos que pontuavam a vida do grupo» de crianças com que trabalhava. Porque o que, precisamente, Espinosa lhe ensinara é que «crescer é aprender a querer preservar a potência com que se nasce, a desejar sentir o conhecimento dessa experiência». Trata-se de «metamorfosear a pulsão de morte» através de momentos festivos, de alegria (não confundir com a excitação histérica e saltitante, de música aos berros, a que se assiste em muitas creches, escolas e aniversários de crianças). Porque como diz Espinosa na sua Ética: «a tristeza é a passagem do homem de uma perfeição maior [leia-se: potência, sensação de poder de criar] para uma menor» e «a alegria é a passagem do homem de uma perfeição menor para uma maior». Trata-se de afirmar a potência, a capacidade e a realização da mesma, com que cada criança nasce (e todas as crianças, mesmo todas, têm potencialidades insuspeitas, à espera de serem despertadas), aquilo que outrora se chamava talentos. Mas não esquecer: essa motivação para o crescimento do ser da individualidade de cada criança tem de ser acompanhada de afecto. Sem afecto a criança pode ser livre, mas não ser alegre. Ou seja: a «função de potência» só funciona se for acompanhada de carinho, de confiança, do incentivo do afecto.


No fundo, o que está aqui em questão não é o final das histórias infantis, mas o durante de cada história da criança ao longo da vida. Todos somos crianças mais ou menos feridas, mais ou menos amadas. A nossa capacidade de metamorfosear, de dar outra forma à dor, é um acto de criação, de superação da impotência. Isso talvez não se possa aprender nas histórias tristes ou alegres, mas em quem as conta e como as conta. De facto, as histórias nunca estão acabadas antes do contador as contar. Elas acabam ou prolongam-se como um vestígio indelével na vida da criança através da voz de quem conta ou do prazer de quem aprende a ler. Porque a tristeza ou a infelicidade, segundo Espinosa (com quem concordo inteiramente) só se metamorfoseia em algo positivo graças a uma alegria que a supere. Essa alegria é incumbência dos pais que contam as histórias. A alegria de saber que, enquanto criamos, somos eternos.

Para finalizar (mas é um fim temporário), convém perceber que o que se opõe aqui é a reprodução e a criação. Se a criança aprende a reproduzir, adapta-se muito bem àquilo que lhe é pedido, cresce, como diria Hegel, para o Estado; se a criança aprende a criar, cresce para a sua própria criação, para a sua realização como ser de possibilidade, de potência realizável. Consoante o que escolhermos para os nossos filhos, estaremos a criar «hierarquias temporais e sociais» ou «expansão de singularidades». E esta última hipótese é indubitavelmente muito mais perigosa e subversiva do que o acto de queimar livros!

PC

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Finais-Felizes, 2

«LONDRES, 5 OUT (ANSA) - Uma associação de pais britânicos contra os livros infantis sem final feliz organizou para o fim deste mês uma série de "Fogueiras dos Livros Maus", convidando outros pais a levarem os volumes "pouco alegres" para jogá-los ao fogo, informou hoje o Daily Mail.» (Ler aqui o resto da notícia).

Esta notícia do presente, em que livros são queimados por ameaçarem a felicidade do homem, é assustadoramente semelhante à memória que nos ficou do Index depois das aulas de História. Ou à hipótese futura descrita no romance Fahrenheit 451 (temperatura a que o papel pega fogo) por Ray Bradbury e adaptada ao cinema por François Truffaut: uma sociedade totalitária em que os livros são considerados perigosos e incendiados, por causarem infelicidade e gerarem pessoas improdutivas.

O acto simultaneamente efectivo e simbólico de queimar um livro só pode decorrer da ignorância da História ou de uma assimilação sem critérios dos dados da mesma. Uma espécie de reminiscência latente se terá declarado da pior forma nos cérebros que conceberam a ideia. Podiam propor debates sobre o assunto, mas não: só a destruição do objecto odioso os descansa.


Sejamos francos: com finais felizes ou com finais infelizes há livros infantis péssimos. Se calhar, rondam a maioria. Mas, para que não façam mal aos nossos filhos, basta não comprá-los. Ou seja: basta seleccioná-los segundo os critérios daquilo que nos parece o melhor para o desenvolvimento da dimensão estética e criativa dos nossos filhos.

É aliás nestas duas dimensões que se joga, em meu entender, o essencial do problema.

Mas, antes de a isto voltar, analisemos mais profundamente o incidente. Às posições radicais desta associação opõem-se não só aqueles que defendem a liberdade de expressão, como aqueles que defendem que os livros infantis devem preparar as crianças para o futuro. É a tese implícita no argumento defensivo da criadora da associação: «Não digo que o mundo deve ser apenas cor-de-rosa, mas é preciso fazer o possível para proteger as crianças.» Uns querem protegê-las, outros prepará-las. Protegê-las de quê? Do mundo violento, real, que as espera. Prepará-las para quê? Para o mundo cínico, competitivo, real, que as espera. Em ambos os casos, subjaz um conceito de realismo extremamente perigoso; pior: uma mundivisão estática do real, uma espécie de grau zero do pensamento que se traduz nisto: «O real – o mundo – é assim, e temos de ajudar as crianças a conformarem-se com ele – ou de protegê-las para não entrarem tão cedo nesse real atroz.»

Porém, a estética do conto de fadas não está assim tão longe da do realismo. Nem da do gótico ou do monstruoso, bastante popular hoje. Alguém duvida da crueldade presente nas histórias de finais felizes? Bruxas, madrastas, feiticeiros, irmãs más, lobos maus, todos eles são a seu tempo castigados, e quase sempre severamente, e quase sempre sem piedade. Não são nada cristãos os contos infantis clássicos. O sentido cínico da realidade não está presente apenas nas histórias de final infeliz. Acrescento: não precisaria do final infeliz para se manifestar. O perigo do final infeliz para a psicologia de uma criança é a introdução de uma ideia de irremediável, de irrecuperável, de irreconciliação. Muitas vezes, resolve-se isto procedendo à inversão do herói, que passa a ser o «mau», ou o escorraçado, que surge destruindo os «bonzinhos» ou os belos. Mas também as histórias tradicionais não vão muito além da justiça da vingança...

A história não está completa. Voltarei a ela, no próximo post. Porque a felicidade ou infelicidade do fim dependem doutros factores que não as histórias em si ou os seus finais.


PC

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Wozzeck

Wozzeck , de Alan Berg 1885-1935),
a partir do texto homónimo de George Brückner.

Esta ópera foi escrita entre 1914 e 1921, tendo sido estreada em 1925, entre, portanto, o grande colapso alemão (e europeu), a instauração do regime bolchevique na Rússia e a ascensão do nacional-socialismo na Alemanha. A audição desta obra de Berg provoca, de facto, no ouvinte, o sentimento análogo ao que resulta de se sonhar que se está a acordar de um pesadelo para logo a seguir, sem intervalo de vigília, entrar noutro, numa crescente e angustiosa tensão – uma analogia quase perfeita, portanto, do período entre as duas Guerras Mundiais.

Wozzeck é, provavelmente, a primeira ópera atonal, tendo o compositor experimentado, assistindo à encenação do texto de Brücker, intensa emoção, porventura ligada à convicção íntima de
que o texto havia sido escrito para obra sua.

A atonalidade parece-nos definir muito mais do que uma solução estética que revolucionou, no começo do século passado, a música erudita. Ela surge-nos como uma espécie de grelha de leitura do Homem e do real, decorrente da descoberta das fragilidades humanas aos mais diversos níveis, em particular no que respeita à crise das identidades (individual, ontogenética, psíquica, social, política, religiosa, etc.). Na verdade, a rejeição, em termos musicais, da separação e hierarquização entre centro e periferia, entre tom e acidente, assemelha-se a uma espécie de correlato da crítica do sujeito, e da tendência para a desconstrução dos conceitos-arquétipos que ordenaram durante milénios as correntes de pensamento e os modelos de acção. Exemplo desses conceitos poderia ser o de “civilização”. Duas décadas depois, Freud escrevia em A Civilização e os Seus Descontentamentos que a barbárie proliferara no seio da mais avançada civilização, onde se esperava, precisamente, maior progresso.

A harmonia, a proporção, a ordem, a conformidade a uma Natureza perfeitamente regulada e reguladora, a tradição e seu elenco de previsibilidades, davam lugar a um reencontro com do Homem com os seus próprios paradoxos, aporias e absurdos. A música, tal como a sociedade, deixara de ser previsível. Nela, deixara de haver lugar para a tranquilidade, pelo que todas as suas construções se confundiam com elevações à vertigem. Não admira que o ímpeto revolucionário que se pressente nestas linguagens suscite a maior das aversões ao ouvinte pouco habituado à expressão atonal, visto que todo o registo é perpassado de inquietação. Se há uma relação entre a Arte e a História dos povos, a conversão desse ímpeto em força totalitária pode ser o sinal dessa ambiguidade humana que consiste em sofrer a máxima excitação com aquilo que roça o terrível.

O registo da ambiguidade, aliás, percorre todo o enredo de Wozzeck, esse soldado pobre, companheiro de Maria, uma prostituta da qual tem um filho pequenino, e que o trai com o insidioso Tocador de Tambor. O carácter de anti-herói, contudo, não é apenas traçado exteriormente, como algo estranho ao personagem. Pelo contrário, o seu comportamento psicótico e as suas alucinações evidenciam uma mente doente, fragilizada, incapaz de escapar às constantes humilhações das duas personificações do Poder: o Capitão – à cabeça da força militar - para quem recolhe lenha e a quem faz a barba, e o Doutor – o douto, o conhecedor, o médico que o submete às mais extravagantes experiências e que se serve da ciência para manipular os outros segundo as suas conveniências. A normalidade, se se pode falar dela em Wozzeck, é personificada por estes dois poderes, entre os quais parece não poder existir senão a pobreza, a alienação do corpo, a submissão e a loucura. É nessa posição que Wozzeck se sujeita às críticas morais do Capitão (é sempre irónico o discurso moral, mas ainda mais quando chega da boca de um responsável militar, sobretudo quando são as questões da eternidade que são colocadas) e aos caprichos “científicos” do Doutor, ao qual se submete em troca de uns tostões que fielmente entregará à mãe do seu filho, a mesma que goza com o Tocador de Tambor. Também ao nível desta relação de intimidade, a ironia e o carácter atonal da existência humana se evidenciam, pois, o pai, o marido, o homem, já não é autoridade nenhuma, não manda em nada, nada possui. Enfim, sendo Wozzeck
militar, talvez fosse possível, ao menos, imaginá-lo forte e valente, capaz de salvaguardar a sua honra. Mas não, o anti-herói é provocado pelo homem com que se deita Maria e, em plena caserna, é por ele espancado.

Wozzeck é o espoliado, aquele a quem nada mais resta do que reparar a miséria da sua vida assumindo, por uma vez, a posição do senhor, o lugar do carrasco. É assim que o débil Wozzeck se
liberta dessa patética condição que é a de mais não poder do que suscitar pena aos outros e, conduzindo Maria, a impura, para a floresta, lhe corta a garganta.

É trágica a expressão dessa força interior que não podia encontrar qualquer outra forma de se exteriorizar. Mas Wozeck continua a não ser forte e, amedrontado, regressa à floresta em busca da arma do crime, com o objectivo de se desfazer dela. Encontrando-a, arremessa-a ao lago. Mas até aí é fraco, pois não atira a faca para longe e, de novo receoso, agora de que alguém tomando banho a venha a encontrar, atira-se à água. É um baptismo atrasado, no fundo; uma entrada simbólica numa comunidade, neste caso, a comunidade do ser indiferenciado, uma entrada que, para o ser individual, é sempre perspectivado como uma saída, como um adeus, como uma ruptura com o nomeável. O adeus, contudo, não chega a ser anónimo, como o sugeria um afogamento nocturno num lago de uma erma floresta. A sua morte
transforma-se em acontecimento, pois, nesse exacto momento, é escutada pelo Capitão e pelo Doutor.

O que sobra, como termina a peça? Termina, claro, com um órfão brincado às cavalgadas num cavalo de pau e com a perpetuação da crueldade humana sob a forma pueril do anúncio da morte de Maria, o que faz correr na direcção do cadáver mutilado todas as crianças que então brincavam – como se a morte (e a morte violenta) fosse, afinal, apenas a consequência necessária de qualquer jogo infantil.


FM

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Da verdade histórica

O Martin - nosso amigo alemão que participa neste blog de forma indirecta, mas sempre pertinente - enviou-nos um mail no qual nos dava conta (ainda) da sua irritação pelo resultado do programa da RTP Os Grandes Portugueses e sobretudo da sua indignação por ter visto estampado num cartaz de uma manifestação neo-nazi o nome da localidade alemã Gardelegen.

Ao primeiro assunto já dedicámos a atenção necessária em devido tempo; quanto ao segundo, carece de uma explicação.

Gardelegen é mais um dos nomes que se tornaram iníquos pelos actos que aí foram perpetrados pelos nazis. Nesse localidade, em 13 de Abril de 1945, poucas horas antes da chegada dos soldados americanos, algumas centenas de prisioneiros foram encerrados num barracão incendiado, onde arderam até à morte.

O Martin advertia que manifestações como esta são muito raras, mas, à semelhança da «eleição» do «auditório da RTP», não deixam de constituir mentiras, reescritas da História que merecem o nosso repúdio.

O nome de um massacre nazi num cartaz de propaganda neo-nazi. Como é isto possível?

Tentei reflectir sobre o caso. E cheguei à conclusão: a frustração, a desinformação e a convicção, quer seja em conjunto, quer seja em separado, são mais fortes do que a verdade. Não era a verdade que estava em causa, enquanto aqueles jovens desfilavam, mas «a verdade em que querem acreditar». A verdade seria muito insossa, muito neutra sem a convicção. É a valoração (em termos positivos ou negativos) que a torna atractiva ou repulsiva. E, se a verdade é repulsiva e não convém, podemos até criar uma verdade à medida do nosso desejo/frustração. Ou até torná-la atractiva - por mais obscena que seja! É isso que move estes jovens da extrema-direita (ou os da extrema-esquerda): a convicção de que a sua verdade injectada de ódio vale mais do que a verdade dos factos, por mais hediondos que sejam.

Há os que acreditam na morte. Há os que acreditam na vida. Deus nos livre é das acções dos extremistas: dos que vivem para matar e dos que matam em nome da vida.

PC/MB

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A Lavadeira, 4

Ao conhecimento do
homem normal, contudo, nada mais é dado do que aquilo que a mente é capaz de
ordenar objectivamente. A verdade
interior da Lavadeira escapa-se-lhe para sempre. Não pode ser ela, fazer
a experiência dela, a não ser que esta o contagie, a não ser que a ela
se una de tal forma que ela deixe de ser, para ele, um objecto do conhecimento.
Apenas a pode alcançar se for capaz de nela reconhecer a sua própria verdade
interior, a sua própria experiência. Aquém deste silêncio do pensamento, aquém
desta dissolução da Lavadeira como objecto exterior ao sujeito (que com ela
passa a identificar-se), tudo se reduz à presença do objecto que, tal como uma
proibição, se interpõe entre o sujeito e a sua própria verdade – como,
paradoxalmente, um convite à transgressão e à comunicação.

Tal como o mundo
está fora da casa e apenas acede à silhueta da Lavadeira por detrás dos
reflexos do vidro, também o observador da tela que, apesar de tudo,
praticamente se introduz no interior da casa, não lhe pode tocar. Dentro e fora
do quadro, mil e uma maneiras de profanar aquela inacessibilidade seriam
capazes de se insinuar nos espíritos menos encarcerados na recusa dos
pensamentos libertinos, nas mentes menos escravas da regularidade e da ordem do
trabalho, naquelas capazes de romper a duração do tempo e de mergulhar num
instante em que apenas um silencioso nada se oferece

à representação. Mas, à reentrada do mundo ordenado, aquele que pôde ainda reunir
as águas revoltosas do seu próprio ser individual, trás consigo o angustioso
sentimento ligado à incapacidade de resgatar tudo o que fica para sempre no
instante de que regressa – e é natural que tudo faça de forma a prolongar um
pouco mais aquilo cuja definição é não se subordinar ao tempo nem ao seu
prolongamento futuro. Evocá-la na solidão da noite ou escrever são disso bons
exemplos. Exemplos de profanações que, ao procurarem reter o sagrado que emana
da obra de arte, ao nele introduzirem a mancha do tempo profano, consagram os
momentos em que decorrem à busca desesperada de si.

A Lavadeira que
nos provoca com uma indiferença deliciosa, na sua pausa instantânea, preside ao
mundo em que Toulouse-Lautrec a situou. Cá fora adivinha-se a cidade, sugerindo
organização, ordem, cálculo, trabalho e negócio. A sugestão é avivada pelo ócio
em que a pintou o autor. Aquele momento que a imortalizou não se votou à
servidão, não obedeceu a nenhuma vontade de crescimento ou lucro. É pura perda
– ou, pelo menos (na medida em que a imobilidade não acarreta as mesmas
necessidades energéticas do que o movimento e o trabalho), indiferença pelo
ganho. Isso mesmo chega a ser sugerido pelo olhar que não se vê mas se adivinha
perdido no infinito da paisagem. Nada na sua posição obriga a pensar que vota a
sua atenção a algum aspecto particular. Pelo contrário, parece abandonar-se à
contemplação de uma vaga diluição dos contornos da cidade.

FM

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A Lavadeira, 3

Olhando para o exterior através do vidro da janela, oferecendo o rosto ao mundo, impede-lhe ao mesmo tempo que o veja. E mesmo ao observador, fora daquele mundo em que seria efectivamente perigoso e fascinante cruzar os olhos com os da Lavadeira, apenas são dados os contornos objectivos de um perfil. Apenas a ruptura dos limites do observador o colocariam na posição milagrosa de encontrá-la face-a-face. Apenas um ser sobrenatural, verdadeiramente acima da limitação que circunscreve a humanidade aos limites da descontinuidade do ser poderia perder-se na vertigem daquele rosto. Mas até mesmo o mais soberano dos homens, o mais despreocupado com a acção, o mais desinteressado pelo futuro, o mais apto a votar a sua vida à intensidade do instante, a mais não poderia aspirar do que ao encontro incompleto com a verdade do ser, proporcionado pela arte e pela poesia. O único meio de possui-la verdadeiramente seria destruirmo-nos, deixarmos de ser os observadores que somos, para mergulharmos na torrente brutal da vida – da vida que se alimenta dos seus próprios mortos e a cujos filhos é imposta a necessidade de, nos limites que lhes são dados, tomarem consciência da existência que lhes coube, antes de eles próprios serem devorados pelo movimento que os reconduzirá à continuidade fervilhante de que, no fundo, apenas em aparência e temporariamente saíram.

(Toulouse-Lautrec: A Montrouge-Rosa la Rouge)

(Aqui a reencontramos numa das cabines telefónicas de Ernest Pignon-Ernest, a que nos referimos a propósito de "Napoli´s Walls" de Louis Sclavis. Sobre a transmigração da alma na arte seria preciso um novo ensaio. Mas no que aqui mais nos interessa, fica prometida para mais tarde nova referência aos diferentes nomes da Lavadeira na obra de Toulouse-Lautrec).

FM

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Ser humano é o mesmo que ter problemas psíquicos?

De algumas décadas para cá têm-se desenvolvido em vários países, como Alemanha, Israel, Espanha, EUA, Canadá e muitos outros, diversas correntes que estudam, praticam e divulgam aquilo a que genericamente se chama Filosofia Aplicada.

Não há uma unidade sistémica entre os diversos pensadores, nem quanto às fundamentações a que recorrem, nem quanto aos modelos de que se socorrem, nem quanto às metodologias que propõem.

Mas, em comum, apostam na aplicabilidade da Filosofia à vida prática e vêem nela um instrumento indispensável à procura de sentido no mundo contemporâneo – e isto não num sentido académico e especulativo, mas ao nível da vivência quotidiana de problemas existenciais, dilemas éticos, projectos de vida individual, orientações políticas, empresariais, institucionais.

Em Portugal, o movimento tem adquirido mais visibilidade e, aos poucos, consistência, desde a Formação da Associação Portuguesa de Aconselhamento Ético e Filosófico (APAEF), que muito se tem sabido mexer para consolidar a Filosofia Aplicada no nosso País.

Interessado no que estas propostas têm para oferecer, embora procurando evitar uma certa ingenuidade e até falta de consistência de algumas das que se apresentam ao grande público na forma de uma espécie de “filosofia light” a retalho, tenho eu próprio desenvolvido alguma investigação nesta área.

O meu “laboratório” principal é a sala de aula, por isso, este ano propus como tema geral de um trabalho de projecto a desenvolver ao longo do ano, em articulação com o Programa do 10º ano de Filosofia, “Os contributos da Filosofia para a Procura Humana de Felicidade”.

Mais do que o resultado final, o processo foi muito interessante e envolvente, intelectualmente motivador. A apresentação dos trabalhos foi imaginativa e muitos alunos trabalharam seriamente e até revelaram argúcia e crítica nas suas reflexões.

O mais embaraçoso, porém, foi que o melhor trabalho, precisamente aquele que revelava mais investigação e reflexão, não foi capaz de reconhecer qualquer contributo da Filosofia para a procura da felicidade. Este grupo imaginou um dilema vivido por um jovem entre dois modelos de vida: um, hedonista e imediatista, centrado no prazer instantâneo; outro, alicerçado sobre motivos racionais ligados ao estabelecimento de metas futuras relacionadas com o sucesso profissional e o prestígio. O que estes alunos procuraram mostrar é que é humano estabelecer um projecto de vida claro, lutar eticamente por ele, embora o homem corra o risco de se reduzir a objecto quando esquece o prazer, o corpo e os outros.

Assim resumido, estará o leitor a perguntar que tem isso de embaraçoso.

É que o jovem que, na dramatização dos alunos,vivenciava tudo isto não procurou o auxílio de um Filósofo – mas sim de um Psicólogo: e foi este que deu voz a tudo o que estes alunos aprenderam nas aulas graças e apenas à Filosofia.

É isso que é perturbante nos dias de hoje e que não pode ou não deve passar despercebido aos defensores e divulgadores da Filosofia Aplicada: os problemas existenciais, aqueles que em boa medida nos permitem ter a certeza de que estamos diante de seres humanos, estão a ser representados – e logo a partir da adolescência – como problemas psíquicos. A dúvida, o espanto, a indagação, o dilema, o auto-questionar, estão a ser perspectivados como doenças ou, no mínimo, como desajustamentos, anormalidades.

A haver uma boa razão para que as pessoas (e os filósofos em particular) se devam inteirar acerca do que está a ser pensado e realizado no campo da Filosofia Aplicada, é esta.


Sugere-se a visita ao site da APAEF:
http://apaef2008.blogspot.com/

FM

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Relâmpagos, 22

O erotismo promessa. Promessa de mais. Promessa que vive do adiamento. A nudez, a pele completamente exposta, já não é erotismo - é deslumbre ou desencanto.

PC