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La Coctelera

Categoría: Da memória presente

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Finais-Felizes, 2

«LONDRES, 5 OUT (ANSA) - Uma associação de pais britânicos contra os livros infantis sem final feliz organizou para o fim deste mês uma série de "Fogueiras dos Livros Maus", convidando outros pais a levarem os volumes "pouco alegres" para jogá-los ao fogo, informou hoje o Daily Mail.» (Ler aqui o resto da notícia).

Esta notícia do presente, em que livros são queimados por ameaçarem a felicidade do homem, é assustadoramente semelhante à memória que nos ficou do Index depois das aulas de História. Ou à hipótese futura descrita no romance Fahrenheit 451 (temperatura a que o papel pega fogo) por Ray Bradbury e adaptada ao cinema por François Truffaut: uma sociedade totalitária em que os livros são considerados perigosos e incendiados, por causarem infelicidade e gerarem pessoas improdutivas.

O acto simultaneamente efectivo e simbólico de queimar um livro só pode decorrer da ignorância da História ou de uma assimilação sem critérios dos dados da mesma. Uma espécie de reminiscência latente se terá declarado da pior forma nos cérebros que conceberam a ideia. Podiam propor debates sobre o assunto, mas não: só a destruição do objecto odioso os descansa.


Sejamos francos: com finais felizes ou com finais infelizes há livros infantis péssimos. Se calhar, rondam a maioria. Mas, para que não façam mal aos nossos filhos, basta não comprá-los. Ou seja: basta seleccioná-los segundo os critérios daquilo que nos parece o melhor para o desenvolvimento da dimensão estética e criativa dos nossos filhos.

É aliás nestas duas dimensões que se joga, em meu entender, o essencial do problema.

Mas, antes de a isto voltar, analisemos mais profundamente o incidente. Às posições radicais desta associação opõem-se não só aqueles que defendem a liberdade de expressão, como aqueles que defendem que os livros infantis devem preparar as crianças para o futuro. É a tese implícita no argumento defensivo da criadora da associação: «Não digo que o mundo deve ser apenas cor-de-rosa, mas é preciso fazer o possível para proteger as crianças.» Uns querem protegê-las, outros prepará-las. Protegê-las de quê? Do mundo violento, real, que as espera. Prepará-las para quê? Para o mundo cínico, competitivo, real, que as espera. Em ambos os casos, subjaz um conceito de realismo extremamente perigoso; pior: uma mundivisão estática do real, uma espécie de grau zero do pensamento que se traduz nisto: «O real – o mundo – é assim, e temos de ajudar as crianças a conformarem-se com ele – ou de protegê-las para não entrarem tão cedo nesse real atroz.»

Porém, a estética do conto de fadas não está assim tão longe da do realismo. Nem da do gótico ou do monstruoso, bastante popular hoje. Alguém duvida da crueldade presente nas histórias de finais felizes? Bruxas, madrastas, feiticeiros, irmãs más, lobos maus, todos eles são a seu tempo castigados, e quase sempre severamente, e quase sempre sem piedade. Não são nada cristãos os contos infantis clássicos. O sentido cínico da realidade não está presente apenas nas histórias de final infeliz. Acrescento: não precisaria do final infeliz para se manifestar. O perigo do final infeliz para a psicologia de uma criança é a introdução de uma ideia de irremediável, de irrecuperável, de irreconciliação. Muitas vezes, resolve-se isto procedendo à inversão do herói, que passa a ser o «mau», ou o escorraçado, que surge destruindo os «bonzinhos» ou os belos. Mas também as histórias tradicionais não vão muito além da justiça da vingança...

A história não está completa. Voltarei a ela, no próximo post. Porque a felicidade ou infelicidade do fim dependem doutros factores que não as histórias em si ou os seus finais.


PC

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Da verdade histórica

O Martin - nosso amigo alemão que participa neste blog de forma indirecta, mas sempre pertinente - enviou-nos um mail no qual nos dava conta (ainda) da sua irritação pelo resultado do programa da RTP Os Grandes Portugueses e sobretudo da sua indignação por ter visto estampado num cartaz de uma manifestação neo-nazi o nome da localidade alemã Gardelegen.

Ao primeiro assunto já dedicámos a atenção necessária em devido tempo; quanto ao segundo, carece de uma explicação.

Gardelegen é mais um dos nomes que se tornaram iníquos pelos actos que aí foram perpetrados pelos nazis. Nesse localidade, em 13 de Abril de 1945, poucas horas antes da chegada dos soldados americanos, algumas centenas de prisioneiros foram encerrados num barracão incendiado, onde arderam até à morte.

O Martin advertia que manifestações como esta são muito raras, mas, à semelhança da «eleição» do «auditório da RTP», não deixam de constituir mentiras, reescritas da História que merecem o nosso repúdio.

O nome de um massacre nazi num cartaz de propaganda neo-nazi. Como é isto possível?

Tentei reflectir sobre o caso. E cheguei à conclusão: a frustração, a desinformação e a convicção, quer seja em conjunto, quer seja em separado, são mais fortes do que a verdade. Não era a verdade que estava em causa, enquanto aqueles jovens desfilavam, mas «a verdade em que querem acreditar». A verdade seria muito insossa, muito neutra sem a convicção. É a valoração (em termos positivos ou negativos) que a torna atractiva ou repulsiva. E, se a verdade é repulsiva e não convém, podemos até criar uma verdade à medida do nosso desejo/frustração. Ou até torná-la atractiva - por mais obscena que seja! É isso que move estes jovens da extrema-direita (ou os da extrema-esquerda): a convicção de que a sua verdade injectada de ódio vale mais do que a verdade dos factos, por mais hediondos que sejam.

Há os que acreditam na morte. Há os que acreditam na vida. Deus nos livre é das acções dos extremistas: dos que vivem para matar e dos que matam em nome da vida.

PC/MB

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Centenário de Miguel Torga

Não podia deixar passar esta data sem a assinalar: se Miguel Torga fosse vivo teria completado 100 anos a 12 de Agosto!

Esta data foi assinalada com pompa e circunstância em Coimbra, com a inauguração de um monumento de autoria do arquitecto José António Bandeirinha e do artista plástico António Olaio, no Largo da Portagem e com a abertura da casa-museu, onde ele viveu mais de quarenta anos e cujo espólio foi doado pela sua filha, Clara Rocha e que é constituído pelos móveis, objectos pessoais, quadros e livros de Torga e ainda por um espólio documental composto por verdadeiras raridades bibliográficas.

A Ministra da Cultura primou pela ausência, bem como o seu Secretário de Estado. Nenhum membro do Governo esteve presente. Foi António Pedro Pita, delegado regional da Cultura do Centro e meu ex-professor na FLUC, a ter de fazer de conta que representava o Governo do ex-PS que tem (des)governado o país onde nasceu, viveu e morreu Miguel Torga.

Recordo bem a última e única vez que o vi, já lá vão uns bons anos, numa homenagem que lhe foi prestada (em vida, o que nem sempre acontece) e a que pude assistir, na companhia de alguns amigos (recordam-se, Paulo e Filipe?), no Salão Nobre da Câmara Municipal de Coimbra, com a presença da esposa de Jorge Amado, Zélia Gattai. Creio que o já citado António Pedro Pita também esteve presente... se é que a memória não me está a pregar uma partida.

Ficou-me a ideia de Miguel Torga ser um homem simples, mas imponente, ele que já estava doente e na recta final da sua vida.

Não sou ser fingido e dizer que conheço bem a sua obra. Na verdade, apenas li alguns dos seus poemas dos "Diários" e alguns dos seus "Novos Contos da Montanha". Ah, e também tive contacto com "Os Bichos", através duma magnífica representação a que assisti na cidade da Guarda (provavelmente há mais de 20 anos) e em que o palco foi a Sé e a zona envolvente. Não me lembro da companhia que produziu o espectáculo, mas algumas das cenas ainda perduram na minha memória, tal foi a sua espectacularidade.

Aqui fica um dos seus pequenos grandes poemas:

Segredo

(Coimbra, 4 de Maio de 1956)

Sei um ninho.
E o ninho tem um ovo.
E o ovo, redondinho,
Tem lá dentro um passarinho
Novo.

Mas escusam de me atentar:
Nem o tiro, nem o ensino.
Quero ser um bom menino
E guardar
Este segredo comigo.
E ter depois um amigo
Que faça o pino
A voar...

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O Cão e o Tu

Foto: Carla Reis


O meu cão e eu tornámo-nos grandes amigos. Segue-me para toda a parte e fica realmente ofendido quando tem que ficar em casa. Se deve permanecer no carro, embora contrariado, acata a missão de aguardar por mim, e sempre deve sentir que não foi totalmente excluído dos meus projectos.

Conhece-me melhor, chego a acreditar, que a minha própria mãe. Por vezes, parece ler-me os pensamentos. Por isso, quase nunca sinto a necessidade de lhe levantar a voz e só o faço quando as nossas personalidades entram em conflito, o que, a maior parte das vezes, corresponde àquelas situações em que, para mim, o perigo é evidente, como, por exemplo, quando um dos gatos da vizinha o provoca atravessando a estrada movimentada, ou quando providencialmente um prato de comida apetitosa se lhe oferece aos sentidos na berma do passeio ou à beira de algum portão de casa, levantando-me suspeitas. Fora isso, nenhum dos dois sente a necessidade de se impor ao outro. Assim, a nossa relação, apesar de íntima, é discreta.

O meu cão não é um cão de guarda. Tampouco um cão pastor ou cão de corridas. Estou em crer que nem sequer gosta de caçar (quando persegue as pombas na praça, é com uma espécie de sorriso meio apaixonado, acabando por regressar com ar interrogativo, porque elas nunca querem brincar com ele).

Por vezes, na brincadeira, digo-lhe que ele é um cão de luxo, porque não serve para nada. Aliás, se mudei para esta casa, foi principalmente porque o regulamento do prédio anterior não permitia cães. Foi por isso que disse ao tipo do banco que me fez o empréstimo que esta era a casa do cão.

Embora, dos dois, só eu tenha a capacidade de falar, tenho a certeza de muitas coisas que ele me diz com o olhar, com o movimento da cauda ou, o que é raro, com algum ganido. Sei sempre se tem sede ou fome, se quer ir passear ou prefere dormir a sesta, se algum dos meus amigos lhe desagrada ou se na varanda está calor demais para se esticar.

Estou, portanto, convicto de que, tal como eu o entendo sem que ele fale, também me há-de compreender a mim quando lhe falo. Quer dizer, algures entre o falar e o silêncio nos encontramos como iguais.

É claro que somos iguais um pouco diferentes, pois eu tenho que trabalhar e ele não. A verdade é que os dias dele – dias de ócio, contemplação, brincadeiras, sestas, corridas atrás de pombas, festinhas e papinha feita e servida a tempo e horas – são uma espécie de conclusão ideal dos meus próprios dias.

Naturalmente, a mim cabe-me tomar decisões e assumir responsabilidades, por isso, tendo a ter-me na conta de ser livre, o que me proporciona algum orgulho na minha pessoa; enquanto ele, com a sua vida desafogada e despreocupada, acaba por estar condicionado pelas minhas escolhas. Não é – este exemplo ilustra (quase) tudo – alguém a quem se possa dar a chave de casa.

Nisto ia eu discorrendo silenciosamente, nesse fim de tarde, a caminho do morro onde o meu cão gosta de dar umas corridas a seguir a fazer as suas necessidades, quando apareceu um homem com uma criancinha pequena. Quase não preciso dizer que o meu cão, que adora crianças (seja qual for a sua espécie – humanos ou animais, adora-os a todos) se lançou na sua direcção. A menina assustou-se um pouco, mas o pai, e eu próprio, sossegámo-la: “não morde”.

Enfim, nós que não nos conhecíamos de lado nenhum, de repente estabelecíamos um contacto proporcionado pelo cão. Sem ele, eu seria completamente indiferente a estas pessoas e elas a mim. Talvez nem tivéssemos reparado uns nos outros.

A certa altura, a menina tratou-me por tu. O pai, atrapalhado, corrigiu – “não se trata o senhor por tu”. O pai desculpava-se, dando o exemplo, e tratava-me por “você” e por “senhor”.

Ao meu cão, entretanto, ambos tratavam por tu, como se o conhecessem desde sempre.

O “tu” tornou-se, então, uma questão para mim, pelo que me pus a pensar o que poderia ele significar e porque razão há pessoas a quem é preciso tratar por senhor e outras em fica melhor tratar por tu. Lembrei-me, por exemplo, que muitos pais tratam os filhos por tu, enquanto estes têm que os tratar na terceira pessoa, como se não pudesse haver uma relação directa entre eles. O mesmo em relação às crianças e às pessoas mais velhas. Ou em relação a patrões e empregados, ao padre e aos paroquianos, ao polícia e ao ladrão, ao professor e ao aluno, ao príncipe e à plebe.

É evidente que certas relações de “terceira pessoa” traduzem muito mais proximidade do que outras em que o “tu” é aceite. Por exemplo, o excesso de carinho pode levar os pais a tratar os bebés por "você"; o mesmo acontece entre os amantes ou em certas amizades que o tempo aprofundou retirando o carácter formal da formalidade do tratamento. O contrário também é frequente. Por exemplo, os espanhóis mantiveram o “usted” mas reservam-no para situações particularmente formais. Em contrapartida, pessoas que não se conhecem de lado nenhum, acabam a tratar-se normalmente por tu.

Mas o tu, pareceu-me, não é apenas um sinal de igualdade de estatutos. Com efeito, duas pessoas que se tratariam por “você” numa situação normal, podem acabar tratando-se por “tu” em certas circunstâncias menos felizes, como por exemplo, quando sentem necessidade de se ofenderem umas às outras. No trânsito da cidade, isso é tão comum…

Pareceu-me, então, que o tu serve também para humilhar o outro, para o fazer sentir-se menor, menos importante, ou mesmo menos humano. Em certas ocasiões, tratar por tu é quase como excluir da comunidade dos seres humanos, uma atitude de desprezo.

E foi isso que me irritou naquele encontro com o pai e a filha. De repente, pessoas que não conheço de lado nenhum, dispunham-se a tratar-me por “senhor”, mas não tinha qualquer escrúpulo em tratar o cão por “tu”. Pura e simplesmente, não reconheciam qualquer dignidade ao meu cão, não admitiam o valor que eu lhe atribuo intrinsecamente. Colocavam-se, parecia-me, levianamente, numa posição de superioridade, e faziam-no – pior ainda – sem se darem ao trabalho de reflectir sobre isso, como se o natural fosse esperar deles isso mesmo.

Entretanto, o seu comportamento – sim, o do pai também – não se adequava a este quadro de superioridade. Pelo contrário, a criancinha dava beijinhos ao cão e abraçava-se a ele como a um irmão. E o pai, tão composto no vestuário, tão educado no tratamento, tão adultamente civilizado, descia à infância e, com a filha, atirava paus e dizia “busca”, corria, fintava-o, usava expressões carinhosas com voz de falsete. Visto de longe, dir-se-ia ser um retardado.

Foi então que compreendi a especificidade do “tu”, deste “tu” aplicado ao cão. A brincadeira com o cão foi uma espécie de regresso ao passado, a um estádio anterior da consciência, diferente da racionalidade e da formalidade do adulto civilizado. Um regresso a estruturas primitivas de um ser que há muito não se diferenciava a si mesmo dos restantes animais e que, por isso mesmo – ainda que os caçasse para comer –, os considerava elementos sagrados, sujeitos a todo o tipo de tabus, dignos de serem gravados na perenidade das rochas de uma gruta qualquer. Neste caso, tratava-se de um “tu” de saudade”, de reencontro, de procura de si mesmo. Um “tu” que produziu laços inquebrantáveis (pela brincadeira com o cão) entre o pai e a filha que, nesses instantes, pareciam de facto um só – ainda que se venham a tornar a dividir e a separar quando o cão a que se uniram abandonar o seu horizonte e o pai tiver que regressar às preocupações mundanas, ao trabalho, à formalidade dos papéis sociais…

FM

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Sumiglia, Savina Yannatou


Vasculhando numa das prateleiras de CD's da editora ECM, na FNAC, no encalce de obras de Xenakis, levo ao engano para o posto de escuta este magnífico disco. Apaixonei-me assim que o comecei a ouvir. Pela voz, pelas palavras, pela música. Catorze temas do melhor da ancestralidade musical europeia (da Grécia, da Espanha, da Moldávia, da Bulgária, da Itália, da Ucrânia, da Sicília, da Córsega, da Arménia, da Palestina, da Albânia) reencarnam pelas mãos dos músicos de excelência da Primavera en Salonico e da voz de Savina Yannatou em versões de uma contemporaneidade e frescura surpreendentes.

Porque a beleza exige partilha, coloco aqui este vídeo, retirado do Youtube. Não se trata de nenhum dos temas do disco, mas serve tenuamente para exemplificar aquilo que acabo de escrever.

PC

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Baú das K7’s, 3: O legado de um mestre

No que toca a cultura musical, nos idos anos 80 do século passado, os filhos dos pequenos-burgueses da região de Aveiro em nada se distinguiam dos filhos de pequenos-burgueses do resto da Província. A educação musical escolar era insipiente, meramente curricular, sem qualquer projecção no futuro e significado nas vidas. E mesmo em termos de prática instrumental, a menos que integrassem uma banda filarmónica ou ingressassem numa escola de música, não iriam além da modinha guinchada na flauta de bisel. Falo das bandas filarmónicas regionais, que animavam as festas religiosas e/ou populares, e das escolas de música locais. Estas escolas, muitas vezes, mais não eram que extensões dos grupos de baile. Alguns dos seus elementos leccionavam aí e aí recrutavam os melhores alunos para os seus agrupamentos (os que sobreviviam aos assassinos métodos do solfejo), de modo a garantirem a perpetuação do baile semanal e a parte mais ligeira e profana das festas de Verão. (Ainda assim, é às bandas filarmónicas e a estes grupos musicais que devemos uma tradição de música viva em Portugal...)


Francesco Libetta, L'isle Joyeuse (Debussy)


Todavia, pode-se considerar que essa geração ficou pouco mais que analfabeta em relação ao conhecimento da «grande música» e atrofiada no que diz respeito à sensibilidade para a mesma. (É verdade que, hoje, ao nível do ensino público, o estado de coisas não é muito diferente, porém, há muito mais informação disponível, muito mais diversidade e qualidade de oferta de escolas privadas.)

Havia, contudo, quem escapasse a este destino quase certo. Era o caso do punhado de privilegiados que se distinguia pelo talento e era conduzido por mãos sábias ao Conservatório de Música de Aveiro ou, acidentalmente, o caso dos alunos que frequentavam o Seminário de Aveiro. Em ambos os casos, o privilégio advinha do facto de contactarem com Arménio Costa, o padre, mas sobretudo mestre, melómano e compositor que se encarregava da disciplina de História da Música nas duas instituições.


Le Sacre du Printemps (Stravinski), Pina Bausch


Graças a ele, uns e outros souberam que existia alternativa à música dos tops e à música ligeira reinante. No caso particular dos seminaristas, também que, para além da «música de reflexão» utilizada nos momentos mortos das orações (a flauta estereotipada de Zamfir, as orquestrações glicodoces de Purcell - não confundir com o compositor Barroco -, as bandas sonoras menos más de Vangelis e Mark Knopfler...), havia a música de outras geografias e épocas. Travaram então contacto com as culturas musicais da Grécia Antiga, do Egipto, dos Judeus, do Japão, da China, da Índia, aprendendo o nome e a forma dos seus instrumentos, bem como a teoria musical de cada uma. Durante as audições das aulas, eram ouvidos ilustrativamente, num leitor de cassetes de tamanho jamaicano, tanto o Cantochão como Ravi Shankar, tanto peças dessas tradições musicais remotas como as harmonias e ritmos (absolutamente novos para aqueles ouvidos virgens) d' A Sagração da Primavera, de Stravinski - e com a mesma paixão eram apresentados e analisados o virtuosismo formal da Escola Flamenga (onde se compunham peças susceptíveis de ser interpretadas do início para o termo e vice-versa) ou a simplicidade da Cavalgada das Valquírias, de Wagner, e a sua noção de Leit-motiv; a música programática de um Janequin (efeitos vocais imitando o canto dos pássaros, a crispação das espadas numa batalha, etc.) ou o conceito que presidiu à construção de Mikrokosmos, de Bartók. Era um mestre de espírito de tal modo aberto que não hesitava em estabelecer relações entre os Beatles e os modos gregos, ou indicar a influência da música indiana nas estrelas da folk e da música pop-rock dos anos 60. Mas, naturalmente, a sua especialidade era a música erudita e, dentro desta, a música sacra. Elogiava Victoria e Palestrina, e (previsivelmente, posso dizê-lo agora) punha Bach no pedestal mais alto. No fim da missa, enquanto os aspirantes a padre saíam, era habitual ficar tocando num órgão de tubos que ele próprio concebera e no qual trabalhava há anos, Jesus, Consolação para os anseios do homem, do compositor alemão. Nas aulas, dava os exemplos sentando-se ao piano e tocando excertos de peças (como o efeito dos sinos d'A Catedral Submersa, de Debussy, entre dezenas de outros). Tinha o carisma de mestre e, como tal, os seus tiques. Torcia expressivamente o pescoço, enquanto tocava voltando-se para os alunos, o que não raramente causava o riso, mas a novidade do que transmitia, essa ficava impressa indelevelmente. Debussy era um dos seus compositores de eleição, no que ao piano dizia respeito. Assim, os adolescentes seus alunos, seminaristas e alunos do Conservatório, tiveram por essa altura a oportunidade de assistir a concertos privados com peças do compositor francês (a elegante pianista, lembro, usava um vestido vermelho e longas luvas da mesma cor); a palestras com o compositor portuense Cândido Lima, a propósito da Música Contemporânea, dos alvores a Cage; a um concerto de música avant-guard na Câmara de Aveiro com o Duo Contemporain (Henri Boke e Mikel Bernat).

Como fiz parte deste restrito número de privilegiados que com ele contactaram, foi com naturalidade que entre as minhas K7's começaram a figurar composições da música erudita e étnica, muitas vezes gravadas a partir dos vinis do mestre. É o caso da cassete 1, onde juntamente com Os Dias da Madredeus, se pode ouvir a Suite Alentejana, de Luís de Freitas Branco; ou da número 7, com as suas Cantigas de Santa Maria, de Afonso X; ou da 9, onde a par da Sétima Legião e dos Genesis se pode escutar Hildegard von Bingen e cantigas medievais de outros códices, como o Calixtino e o de Martin Codax; ou da 15, preenchida peças da Escola de Viena, A Noite Transfigurada, de Schönberg, as extraordinárias miniaturas de Anton Webern, e os profundíssimos Cantos Sagrados da Tradição Bizantina; ou da 17, preenchida inteiramente com Canto Gregoriano; ou da 21, em que convivem Mler If Dada, Cocteau Twins e as Vozes Búlgaras. Depois, há os mais previsíveis Mozart, Brahms, Britten, Orff, Tchaikovski, nem sempre ouvidos com a mesma devoção e frequência com que ouvia o então irresistível continente pop-rock, é certo, mas que não deixava de se apresentar como um continente a explorar no futuro, promessa de outros requintes de fruição estética. Como veio a acontecer, e acontece cada vez mais…


Jesus, Consolação para os anseios do homem (Bach), Dudlei


Este texto homenageia Arménio Costa, agora que se celebram 10 anos após a sua vida.

Dedico-o também a um seu aluno e meu condiscípulo, João Baptista, que, tanto quanto julgo saber, continua guiando um camião pelas estradas de Portugal e do resto da Europa escutando a Antena 2 e música erudita.


PC

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Venho aqui neste momento

Venho aqui neste momento para cantar uma canção

Aqui na democracia quem quer ouvir ouve e quem não quer não

A porta está aberta meus senhores

A saída é mesmo aí

No vidro da televisão

Quem quiser ficar sentado peça em impresso selado o seu próprio cadeirão

E para quem dançar quiser

Uma simples inscrição

A aprovar pela direcção

Se alguém houver que diga mal sei que é muito natural

Mas aqui na democracia tem razão a maioria

Sempre supra-informada

Super alfabetizada

Argúcia crítica letrada

Hermenêutica atenção

Toda essa população a liberdade

Que saudade

Dessa saudade

Dessa cidade

Não me falem de saudade

Venho aqui neste momento para cantar uma canção

Quem me quiser ouvir ouve e quem não quiser não

Sei que conta a maioria

E sei que é sempre meio-dia

E tudo mais

Uma utopia

Nada é assim tão importante afinal estou só cantando

E mesmo que por fim perca

A minha cidadania

Este canto não pertence não pertence

Essa ausência a liberdade

Essa cidade

Essa saudade

Não se cala neste canto

Neste canto uma utopia

Tudo é tão importante nunca é meio-dia

Este canto não pertence não pertence

Uma utopia

Ouvir música em:
http://myspace.com/tubianola

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Encontro com Pã, 2

Um hino homérico considerava Pã fruto da união entre Hermes e a filha de Dríope. Filho de Hermes: não será o que quer dizer Hermeto?

Miles Davis, com quem trabalhou, chamava-lhe «Crazy Albino». E tinha razão. Hermeto Pascoal possui a loucura que permite reconhecer e actualizar a fraternidade que partilhamos com os outros animais. É um ser profundamente religioso, no sentido mais profundo da religião. Ele sabe que pode comunicar com as rãs, e comunica. Sintomaticamente, através da música. Ele ainda não perdeu o anel, não repudiou de si aquilo que o liga ao Uno Natural. Para si o infra-humano não é infra-humano, mas possibilidade.

O Grande Pã não morreu. Vive na música das rãs e na flauta de Hermeto Pascoal. Ou, simplificando: vive na música.

(A mistificação é, a um tempo, desejável e indesejável. Se atira o eu para um patamar desligado do outro, do mundo, do cosmos, caracteriza-se por um escapismo perigoso, estéril, esteticista, eventualmente destrutivo; se une o eu ao que está para além dele mas o constitui, se o «altera», o torna outro, maior, na relação com o todo, caracteriza-se por uma inteligência perigosa (lucidez báquica do vinho), mas potencialmente criativa. Dialogando com o último post do Filipe, permito-me aqui mistificar, esperançado que o faço do modo criativo. Numa outra tradição, uma lúbrica Penélope, repudiada por Ulisses a quem traira, une-se a Hermes e dá à luz o monstruoso Pã. Como que a dizer: quando falta a memória, quando falha a palavra escrita (o contrato, de casamento ou outro), quando o pensamento é só consciência esbatida pelo tempo, resta a música. «Música da carne», chamava-se à luxúria na Idade Média (daí aparecerem tantas representações dela em Bosch);«o ritmo casou», dizia Hermeto, no fim do vídeo do primeiro post que aqui coloquei acerca dele. E o ritmo é a sensualidade da música, o que incita à dança dos corpos, à fecundidade. Penélope entregou-se à noite, casou com o ritmo, e gerou Pã.)

PC